O Presidente dos EUA, Joe Biden, e o homólogo da China, Xi Jinping, reuniram-se pela última vez em Lima, demonstrando harmonia e alguns progressos naquela que ambos reconheceram como “a relação bilateral mais importante do mundo”, ao mesmo tempo que deixaram mensagens veladas a Donald Trump, que voltará a assumir o poder em Janeiro e adoptou um discurso de confronto em relação a Pequim.

No início do encontro em Lima, no encerramento da reunião de líderes da APEC, Xi reiterou estar pronto para trabalhar com a Administração Trump com vista a “manter a comunicação, expandir a cooperação e gerir as diferenças”, em prol de “uma transição estável”. “Os dois países devem ter em mente o bem-estar dos seus povos e o interesse comum da comunidade internacional, tomar decisões sábias, continuar a explorar o melhor caminho para que as duas grandes nações possam conviver e alcançar uma longa coexistência pacífica”, frisou, num comentário que parecia mais dirigido a Trump.

“Os EUA concluíram recentemente as suas eleições. O objectivo da China de uma relação com os EUA estável, saudável e sustentável não mudou”, acrescentou.

Por sua vez, Biden reflectiu sobre as “muitas horas” de diálogo com Xi nos seus quatro anos de mandato e nas três reuniões bilaterais, destacando os progressos feitos desde o último encontro na Califórnia no ano passado ao nível do controlo de estupefacientes e dos contactos militares. “Nem sempre concordamos, mas as nossas conversas foram sempre sinceras e francas. Nunca troçámos um do outro. Estivemos ao mesmo nível e acho que isso é vital”, disse, noutro comentário entendido por observadores como um recado para Trump sobre o relacionamento com Pequim.

De acordo com a Casa Branca, Biden e Xi concordaram sobre “a necessidade de manter o controlo humano sobre a decisão de utilização de armas nucleares” e impedir que o sistema de inteligência artificial (IA) participe nesse processo. Num encontro com a imprensa, o conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Jake Sullivan, salientou que esta é a primeira vez que este preceito da doutrina nuclear é reafirmado entre as duas grandes potências rivais, algo que descreveu como muito “significativo” depois da reunião entre Xi e Biden, que durou uma hora e 40 minutos.

“Temos de começar por algum lado, com princípios básicos, e construir a partir daí a necessidade de desenvolver uma base comum para reduzir o risco nuclear. E um bom ponto de partida está na proposição directa de que deve haver controlo humano nas decisões sobre a utilização de armas nucleares”, indicou.

Durante esta viagem ao Peru, que antecedeu a visita ao Rio de Janeiro para a cimeira do G20, a Casa Branca tentou transmitir uma imagem de normalidade, garantindo que o regresso ao poder de Trump não dominou as conversações com parceiros como o Japão ou a Coreia do Sul. Sullivan não comentou possíveis políticas que Trump possa adoptar no comércio internacional ou nas relações externas, referindo apenas que “no dia 20 de Janeiro haverá uma nova Administração e ele (Biden) reforçou que estes próximos dois meses são uma fase de transição nos EUA e um período em que a estabilidade da relação EUA-China é essencial”.

 

JTM com agências internacionais