O Presidente chinês, Xi Jinping, manifestou ontem apoio ao Brasil na defesa da sua soberania e rejeitou “interferências externas”, durante uma conversa telefónica com o homólogo brasileiro, Lula da Silva, em plena tensão comercial entre Brasília e Washington, informou o Diário do Povo, órgão oficial do Partido Comunista Chinês (PCC).

O líder chinês afirmou que Pequim atribui “grande importância” ao estatuto internacional e à influência do Brasil e manifestou apoio para que o país sul-americano continue a dar “contributos” para a paz e a estabilidade regionais e mundiais. Defendeu ainda que a China e o Brasil, enquanto “membros importantes do Sul Global”, devem posicionar-se do “lado certo da história”, da “civilização e do progresso”, desempenhando um papel “mais construtivo” na reforma do sistema de governação global e na “defesa da justiça internacional”.

Por sua vez, segundo o Diário do Povo, Lula afirmou que a cooperação bilateral “desenvolveu-se rapidamente” em vários domínios, que o comércio entre os dois países voltou a atingir um máximo histórico e que o Brasil pretende reforçar a colaboração com a China nas áreas da inteligência artificial, energia e minerais, além de atrair mais investimento de empresas chinesas.

A conversa ocorreu depois de os EUA terem anunciado recentemente tarifas de 25% sobre determinados produtos brasileiros, na sequência de uma investigação ao abrigo da Secção 301 da Lei do Comércio de 1974. O Brasil rejeitou a legitimidade dessa investigação, anunciou que vai accionar a sua Lei da Reciprocidade e voltar a apresentar o caso ao mecanismo de resolução de litígios da Organização Mundial do Comércio.

O Governo de Lula defendeu que “não existe qualquer justificação” para medidas unilaterais contra o Brasil e acusou a família do ex-líder Jair Bolsonaro (2019-2023) de colaborar com a narrativa que, na sua perspectiva, conduziu ao novo agravamento das tarifas norte-americanas.

Xi e Lula também concordaram em “acelerar as negociações” para chegar a um acordo comercial entre o Mercosul e a China. Ambos os líderes “concordaram sobre a importância de acelerar as negociações para um acordo entre o Mercosul e a China que inclua as flexibilidades necessárias”, afirmou a Presidência brasileira.

O Mercosul, composto pela Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, com a Bolívia em fase final de adesão, assinou recentemente acordos de comércio livre com Singapura, o grupo EFTA (Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça) e a União Europeia, esta última após mais de 20 anos de negociações. As negociações com a China são uma aspiração antiga de alguns membros do Mercosul, como o Uruguai, que chegou a ameaçar iniciar o seu próprio processo de diálogo com o gigante asiático, apesar de as regras do bloco sul-americano exigirem negociações conjuntas.

A China é o principal parceiro comercial do Brasil desde 2009 e as trocas comerciais bilaterais atingiram, em 2025, um máximo histórico de 171 mil milhões de dólares, mais 8,2% do que no ano anterior, segundo dados do Governo brasileiro.

O Brasil foi também o país que mais investimento chinês recebeu nesse ano, com 6,1 mil milhões de dólares, e, em Abril de 2026, tornou-se o principal destino das exportações chinesas de automóveis, veículos de novas energias e automóveis totalmente eléctricos, num contexto de crescente presença de empresas chinesas nos sectores automóvel, energético, mineiro e das infra-estruturas.

 

JTM com agências internacionais