O Presidente chinês, Xi Jinping, recebeu ontem o seu homólogo norte-americano, Donald Trump, naquele que é o primeiro encontro entre os líderes das duas maiores potências mundiais em quase uma década. Xi aproveitou a ocasião para deixar um aviso bem claro: a questão de Taiwan pode gerar um conflito entre os dois países, caso Washington não lide bem com o assunto.
Depois de ter aterrado em Pequim na noite de quarta-feira, onde o esperava uma cerimónia de boas-vindas, Trump foi recebido ontem por Xi, na Praça de Tiananmen, com um aperto de mão e uma breve troca de palavras, antes de posarem para fotografias.
Centenas de crianças, vestidas com roupas coloridas, encenaram uma apresentação de boas-vindas, com raparigas a acenar com flores e rapazes a erguer bandeiras dos dois países e a cantar em mandarim “bem-vindos, bem-vindos, bem-vindos à China”.
“A questão de Taiwan é a mais importante nas relações sino‑norte-americanas. Se for bem gerida, as relações entre os dois países poderão manter‑se globalmente estáveis. Se for mal gerida, os dois países irão confrontar‑se, podendo mesmo entrar em conflito”, declarou Xi, utilizando um termo em mandarim que não significa necessariamente conflito militar.
A situação pode ser “muito perigosa” para as relações bilaterais, avisou, segundo os meios de comunicação estatais chineses. O líder chinês afirmou ainda que a “independência de Taiwan” e a paz no Estreito de Taiwan são “incompatíveis” e que manter a estabilidade na região é o “maior denominador comum” entre a China e os EUA.
Pequim considera Taiwan uma parte inalienável do seu território e não descarta o uso da força para assumir o controlo, enquanto Washington mantém laços não oficiais com Taipé e é o seu principal fornecedor de armas.
A diplomacia de Taipé disse logo depois que a República Popular da China é o único risco para a paz regional, reagindo às declarações de Pequim sobre Taiwan.
Entretanto, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, frisou que a política dos EUA em relação a Taiwan “não mudou”, após a reunião entre Xi e Trump. Em entrevista à NBC News, Rubio advertiu que seria “um erro terrível” Pequim tentar tomar Taiwan pela força.
“A política dos Estados Unidos sobre a questão de Taiwan mantém-se inalterada até hoje e após a reunião que tivemos aqui hoje. O tema foi abordado. Eles levantam-no sempre da parte deles. Nós deixamos sempre clara a nossa posição e passamos aos restantes assuntos”, declarou Rubio.
Na vertente comercial, Xi disse a Trump que os factos demonstram que “não há vencedores numa guerra comercial” e que a essência das relações económicas entre a China e os EUA é o “benefício mútuo”. O líder chinês acrescentou que, perante “diferenças e atritos”, “as consultas em termos de igualdade” são a “única opção correcta”.
Em cima da mesa estiveram outros temas, desde logo, o Médio Oriente. Neste campo, Xi e Trump concordaram que o Irão “jamais” deveria possuir armas nucleares e sobre a necessidade de reabrir o Estreito de Ormuz ao tráfego de hidrocarbonetos sem a cobrança de taxas de trânsito, de acordo com um comunicado da Casa Branca.
A questão ganhou destaque nos dias que antecederam a visita, depois de Washington ter apelado a Pequim para um papel mais activo junto de Teerão, considerando que o bloqueio de Ormuz afecta directamente os interesses da China. Entretanto, as forças navais do Irão autorizaram a passagem de vários navios chineses pelo estreito de Ormuz, desde quarta-feira.
Líderes em harmonia
Desde o início do encontro e ao longo das interacções que tiveram, os dois líderes demonstraram um tom cordial: Xi Jinping argumentou que ambos os países deveriam ser “parceiros, não rivais”, enquanto Trump elogiou o seu anfitrião como “um grande líder” e afirmou que mantêm uma relação “fantástica”.
O presidente norte-americano disse ainda que, quando enfrentaram “dificuldades”, conseguiram resolvê-las “muito rapidamente” e previu um “futuro fantástico juntos”, numa demonstração de proximidade que continuou com uma visita conjunta ao Templo do Céu, um banquete de Estado oferecido por Xi e o convite de Trump ao líder chinês e à sua mulher, Peng Liyuan, para visitar a Casa Branca, a 24 de Setembro.
No banquete, Xi fez alusão ao slogan político de Trump, afirmando que a “grande revitalização” da China e o objectivo de “tornar a América grande outra vez” podem avançar simultaneamente.
Assim, traçou paralelos entre o plano para os próximos 15 anos, de “avançar a modernização da China através de um desenvolvimento de alta qualidade”, e a celebração dos 250 anos de independência dos Estados Unidos e o espírito de “patriotismo, inovação e pioneirismo” que representa.
“Alcançar o rejuvenescimento da nação chinesa e tornar a América grande novamente pode avançar plenamente em paralelo, reforçar-se mutuamente e beneficiar o mundo”, defendeu.
Mais tarde, Trump brindou à “prosperidade da China e dos Estados Unidos” e a um futuro “promissor” para as relações amistosas entre os dois países, enquanto Xi afirmou que ambos acreditam manter a “relação bilateral mais importante do mundo”. “Temos de garantir que funciona e nunca se estraga”, disse Xi, no final do primeiro dia de visita oficial de Trump.
Apesar do tom cordial, o primeiro dia não trouxe grandes anúncios sobre questões económicas importantes. Resta saber se o final da visita de hoje trará um prolongamento da trégua comercial acordada por ambas as potências em Outubro passado, ou progressos em acordos como a compra, por parte de Pequim, de aviões da Boeing e de soja aos Estados Unidos.
São também esperados sinais na esfera tecnológica, incluindo o acesso das empresas chinesas a chips avançados da Nvidia. Por resolver permanece também o caso do magnata dos media de Hong Kong, Jimmy Lai, de 78 anos, condenado a 20 anos de prisão ao abrigo da Lei de Segurança Nacional.
JTM com agências internacionais



