Autoridades ucranianas rejeitaram a exigência russa de que as suas forças em Mariupol deponham as armas e levantem bandeiras brancas em troca de uma passagem segura para fora da cidade portuária sitiada. Mesmo com a Rússia a intensificar o bombardeamento de Mariupol até à rendição, a ofensiva noutras partes da Ucrânia está a fracassar. Os governos e analistas ocidentais vêem o conflito a transformar-se numa guerra de atrito.
Em Kiev, bombardeamentos russos devastaram um centro comercial perto do centro da capital ucraniana, matando pelo menos oito pessoas e deixando um mar de escombros perto de um arranha-céus. Autoridades ucranianas disseram que a Rússia bombardeou uma fábrica de produtos químicos no nordeste do país, causando uma fuga de amónio, e mísseis de cruzeiro atingiram uma base de treino militar no oeste.
Mariupol, cidade do sul, no Mar de Azov, sofreu alguns dos piores horrores da guerra, sob ataque russo durante mais de três semanas. A bombas atingiram uma escola de arte que abrigava cerca de 400 pessoas apenas algumas horas antes da Rússia oferecer abrir dois corredores para fora da cidade em troca da capitulação dos defensores, segundo autoridades ucranianas.
“Não se pode falar em rendição ou deposição de armas”, disse a vice-primeira-ministra ucraniana, Irina Vereshchuk, ao jornal Ucraniano Pravda. “Já informámos o lado russo sobre isso”.
O autarca de Mariupol, Piotr Andryushchenko, também rejeitou rapidamente a oferta, dizendo no Facebook que não precisava de esperar até ao fim do prazo para rejeitar a proposta russa, segundo a agência de notícias Interfax Ucrânia.
O coronel-general russo Mikhail Mizintsev havia oferecido dois corredores – um indo para o leste em direcção à Rússia e outro para o oeste para outras partes da Ucrânia. O Ministério da Defesa russo disse que as autoridades em Mariupol podem enfrentar um tribunal militar se ficarem do lado do que descreveu como “bandidos”, informou a agência de notícias estatal russa RIA Novosti.
Várias tentativas de evacuar os moradores de Mariupol e outras cidades ucranianas falharam ou foram apenas parcialmente bem-sucedidas, com os bombardeamentos a continuarem enquanto os civis tentavam fugir. Segundo as autoridades locais, pelo menos 2.300 pessoas morreram no cerco, algumas delas enterradas em valas comuns.
Antes da rejeição ucraniana, um ataque aéreo russo atingiu a escola onde cerca de 400 civis estavam refugiadas, não existindo informações claras sobre o número de vítimas, disse ontem o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy. “Eles estão sob os escombros e não sabemos quantos sobreviveram”, referiu, acrescentando que a Ucrânia “derrubaria o piloto que lançou a bomba”.
Essa foi a segunda vez em menos de uma semana que as autoridades relataram um ataque a um prédio público onde moradores de Mariupol se abrigaram. Na quarta-feira, uma bomba atingiu um teatro onde se acredita que estariam mais de 1.000 pessoas. Pelo menos 130 foram resgatadas na sexta-feira, mas não houve nenhuma actualização desde então.
Autoridades da cidade e grupos de ajuda dizem que está a acabar a comida e falta água e electricidade em Mariupol. As comunicações estão cortadas e os combates impediram a entrada de comboios humanitários.
“As batalhas ocorreram em todas as ruas. Cada casa virou alvo”, disse Olga Nikitina, que foi abraçada pelo irmão ao descer de um comboio.
A queda de Mariupol permitiria a união das forças russas no sul e no leste da Ucrânia. Analistas militares ocidentais dizem, porém, que, mesmo que a cidade seja tomada, as tropas russas que lutam bairro a bairro podem estar demasiado esgotadas para garantir avanços noutras frentes.
Mais de três semanas após a invasão, os dois lados parecem estar a tentar desgastar-se, dizem os especialistas, com as forças russas atoladas a lançar mísseis de longo alcance em cidades e bases militares enquanto os ucranianos executam ataques e tentam cortar as linhas de abastecimento russas.
O secretário de Defesa dos EUA, Lloyd Austin, disse que a resistência ucraniana significa que as “forças no terreno do presidente russo, Vladimir Putin, estão essencialmente paralisadas”.
JTM com agências internacionais



