Responsáveis chineses e norte-americanos indicaram ontem, em Hong Kong, esperar que visita prevista de Donald Trump à China, em Maio, relance as relações bilaterais entre os países. Durante numa conferência organizada pela Câmara de Comércio dos EUA em Hong Kong (AmCham), o comissário do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China naquele território, Cui Jianchun, afirmou que a forma como as duas maiores economias do mundo “se relacionam vai moldar o panorama global fundamental”. “O único caminho a seguir é através do diálogo e da consulta”, disse, acrescentando que relações estáveis “servem os interesses comuns da comunidade internacional”.

Trump deverá visitar Pequim nos dias 14 e 15 de Maio para se reunir com Xi, naquela que será a primeira deslocação de um Presidente norte-americano em funções à China em quase uma década. A viagem, destinada a estabilizar as relações económicas e comerciais, estava prevista para Março, mas foi adiada devido à guerra lançada por EUA e Israel contra o Irão. Está também prevista uma visita de Xi a Washington ainda este ano.

Cui afirmou que a abordagem de Pequim assenta em “respeito mútuo, coexistência pacífica e cooperação mutuamente benéfica”, incluindo o respeito pelos sistemas políticos e interesses fundamentais de cada parte, bem como a gestão das divergências sem conflito. “Desde que a China e os EUA respeitem estes princípios, as relações bilaterais terão um futuro melhor”, afirmou.

O responsável confirmou que as duas partes mantêm contactos sobre a visita planeada de Trump, acrescentando que relações “estáveis, sólidas e sustentáveis” irão “reforçar a confiança da comunidade empresarial norte-americana” e aprofundar a cooperação económica.

No mesmo evento, a cônsul-geral dos EUA em Macau e Hong Kong, Julie Eadeh, destacou tanto as oportunidades como as tensões na relação bilateral. “Os desafios que enfrentamos na relação entre os EUA e a China são reais e, em alguns casos, estão a aumentar”, afirmou, reiterando o compromisso de Washington com o diálogo.

“Os EUA procuram uma relação com a China assente na equidade e na reciprocidade, que torne o nosso país mais seguro, mais forte e mais próspero”, acrescentou, sublinhando a necessidade de “condições de concorrência equitativas” e de um “acesso ao mercado justo e recíproco”.

Eadeh referiu que mais de 1.400 empresas norte-americanas operam em Hong Kong, atraídas pelos “mercados de capitais e conectividade internacional” do território, descrevendo a cidade como um espaço historicamente propício ao “diálogo construtivo”, embora reconhecendo que “a cidade mudou de forma significativa” e que a política dos EUA se ajustou.

Pequim reforçou, desde 2023, o controlo de Hong Kong ao implementar duras medidas de segurança nacional e ao suprimir a oposição política local. Estas mudanças levaram à eliminação de vozes pró-democracia, à homogeneização do parlamento do território e a uma repressão significativa da sociedade civil, dos meios de comunicação social e da dissidência pública.

David Butts, responsável pela AmCham em Hong Kong, afirmou que a conferência ocorre num momento de elevada incerteza. “Não há dúvida que o clima empresarial deste ano é dos mais turbulentos”, disse, classificando 2026 como “um ano decisivo” para as relações económicas entre EUA e China, e considerando que a suspensão de um ano de sanções comerciais impostas pelos EUA estão previstas terminar em Novembro.

“Estamos a antecipar desenvolvimentos significativos”, afirmou Butts, apontando para a possibilidade de vários encontros entre Trump e Xi este ano, bem como para marcos políticos importantes, incluindo a aprovação do novo plano económico quinquenal da China e a cimeira de Cooperação Económica da Ásia-Pacífico (APEC), prevista para Novembro em Shenzhen.

 

Nelson Moura, jornalista da agência Lusa (texto editado)