O ministro da Defesa do Japão justificou ontem a revisão da estratégia de segurança de Tóquio, que elimina as restrições à exportação de material militar letal, pela primeira vez desde a Segunda Guerra mundial. “O objectivo é garantir que cada país tenha as capacidades de que necessita e que estas estejam disponíveis quando forem necessárias”, afirmou Shinjiro Koizumi durante o principal fórum de segurança e defesa da Ásia, o Diálogo Shangri-La, que terminou ontem em Singapura.

Embora tenha insistido que “a política de defesa do Japão não identifica nenhum país específico como uma ameaça nem procura um confronto militar”, Koizumi aludiu directamente à China, cujas relações com Tóquio atravessam um momento tenso. Pequim “continua a aumentar as suas despesas com a defesa a um ritmo elevado e a expandir rapidamente as suas capacidades militares (…) sem transparência suficiente”, o que constitui um “motivo de preocupação para o Japão e para a comunidade internacional”, advertiu.

Em defesa da mudança de rumo de Tóquio, Koizumi rejeitou as acusações de que o Japão, regido por uma Constituição pacifista, esteja a empreender um novo militarismo, do que é acusado por Pequim. “Nada mais longe da realidade. Há um país com um enorme arsenal de armas nucleares e bombardeiros estratégicos. O Japão não possui nenhuma dessas armas e, no entanto, é acusado de ‘neomilitarismo’. Não é estranho?”, ironizou perante a audiência de ministros, militares e especialistas em assuntos de defesa.

Até agora, o Japão só podia exportar produtos de defesa destinados a operações de resgate, transporte, alerta, vigilância e desminagem. A partir de agora, poderá vender qualquer produto militar, incluindo mísseis ou navios de guerra, mediante aprovação governamental. A nova regulamentação, que também visa impulsionar a indústria japonesa de defesa, inclui uma cláusula que deixa a porta aberta à exportação de armamento para países em conflito, caso as autoridades considerem que existem “circunstâncias especiais” que o justifiquem.

Koizumi evitou responder a uma pergunta do público sobre se o Japão estaria disposto a transferir armas para Taiwan. A questão de Taiwan – muito presente no fórum – tem sido um dos principais pontos de atrito entre o Japão e a China nos últimos meses. Em Novembro, Tóquio e Pequim envolveram-se numa disputa diplomática depois de a Primeira-Ministra japonesa, Sanae Takaichi, ter afirmado que um eventual ataque chinês à ilha poderia representar uma ameaça para Tóquio e ter dado a entender que poderia mobilizar o seu exército.

 

EUA e Japão vão acelerar co-produção de mísseis

Entretanto, Washington e Tóquio procuram acelerar a produção conjunta de mísseis face às tensões regionais com a China. A iniciativa foi apresentada em Singapura, à margem do Diálogo de Shangri-La, durante uma reunião entre Koizumi, e o secretário norte-americano da Defesa, Pete Hegseth.

Koizumi propôs a Hegseth a “Operação Impulso”, projecto para acelerar o desenvolvimento e produção conjuntos de mísseis, como o SM-3 Block IIA e o AMRAAM, e ambos debateram medidas concretas para a concretizar, segundo o gabinete do ministro nipónico.

Com esta iniciativa, Tóquio concretiza o plano de execução da cooperação em mísseis acordada em Março durante a cimeira entre a Primeira-Ministra Sanae Takaichi e o Presidente norte-americano, Donald Trump, em Washington.

Koizumi explicou também a revisão do quadro japonês de transferência de equipamento e tecnologia de defesa, enquanto Hegseth acolheu favoravelmente essas alterações e expressou o apoio de Washington aos esforços de Tóquio para reforçar as capacidades defensivas, afirmou o ministério japonês.

 

JTM com Lusa