O secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou que a inteligência artificial (IA) está a “avançar mais rapidamente do que as estruturas de governação global”, o que está a reduzir a capacidade dos Estados, que “não podem esperar” para cooperar e estabelecer “regras partilhadas”. Guterres afirmou numa conferência de imprensa em Nova Iorque, para apresentar o primeiro relatório do Painel Científico Independente da ONU sobre IA, que esta tecnologia pode ainda tornar-se “o motor mais poderoso para o desenvolvimento” se utilizada “adequadamente”. Porém, advertiu que quanto mais a IA avançar sem regras partilhadas, “menos influência os governos e as pessoas terão sobre o resultado”. “A mensagem para os governos é simples: não esperem”, enfatizou o secretário-geral, que defendeu a aceleração da cooperação internacional face a este fenómeno tecnológico “transformador”. Guterres afirmou que em breve apresentará propostas para reforçar a capacidade dos países para lidar com esta tecnologia. “A ciência já está aqui. O mundo já não pode alegar ignorância”, afirmou o diplomata português, acrescentando que “o que faremos com ela agora depende de todos nós”. O relatório apresentado pelo painel, composto por 40 especialistas e co-presidido pelo investigador Yoshua Bengio e pela jornalista Maria Ressa, laureada com o Prémio Nobel da Paz, conclui que a IA está a evoluir rapidamente para sistemas “cada vez mais autónomos”, capazes não só de prever padrões, mas também de “raciocinar, planear e agir em diferentes contextos”. Segundo o documento, esta transição abre caminho a uma nova geração de “agentes digitais com autonomia operacional” e a uma potencial “força de trabalho digital”, com implicações económicas e sociais ainda difíceis de quantificar. O painel alerta que o investimento em infra-estruturas informáticas atingiu níveis comparáveis ​​aos dos grandes projectos industriais, concentrados num pequeno número de empresas e países, o que pode reforçar as “assimetrias estruturais” no acesso à IA. Na esfera económica, o relatório sublinha que os efeitos positivos da IA ​​não estão garantidos e dependerão da sua adopção, da reorganização do trabalho e do investimento em capacidades complementares. Entre os principais riscos, identifica o crescente fosso entre o desenvolvimento de capacidades e os mecanismos de avaliação e controlo, uma vez que “os sistemas estão a avançar mais rapidamente do que as ferramentas de auditoria, dificultando uma supervisão eficaz”. O painel alerta ainda para o aumento das capacidades ofensivas de cibersegurança, o impacto dos ‘deepfakes’ e da desinformação, bem como os potenciais efeitos na saúde mental decorrentes da adopção de sistemas de IA sem evidência científica suficiente ou supervisão clínica. Além disso, alerta para as desigualdades linguísticas e culturais, dado que os modelos estão concentrados num número limitado de línguas, o que pode “levar à exclusão de milhares de comunidades”.

 

JTM com agências internacionais