A China instou ontem os EUA a não enviarem “sinais incorrectos” às forças pró-independência em Taiwan e a lidarem com a questão da ilha com “extrema cautela”, depois de o Presidente norte-americano, Donald Trump, ter manifestado disponibilidade para conversar com o líder taiwanês, William Lai. O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Guo Jiakun, reiterou em conferência de imprensa que Pequim se opõe aos contactos oficiais entre Washington e Taipé, e à venda de armas a Taiwan, uma posição que descreveu como “coerente, clara e firme”.
Guo apelou ainda aos EUA para que implementem os acordos alcançados no recente encontro entre Trump e o homólogo chinês, Xi Jinping, em Pequim, e que “honrem os compromissos e declarações” anteriormente assumidos sobre Taiwan.
Na semana passada, Xi disse a Trump que “a questão de Taiwan é a mais importante nas relações sino‑norte-americanas”. “Se for bem gerida, as relações entre os dois países poderão manter‑se globalmente estáveis. Se for mal gerida, os dois países irão confrontar‑se, podendo mesmo entrar em conflito”, advertiu, utilizando um termo em mandarim que não significa necessariamente um confronto militar.
Trump mostrou-se agora disposto a conversar com Lai antes de tomar uma decisão sobre uma possível venda de armas à ilha. O Ministério dos Negócios Estrangeiros taiwanês também indicou que Lai está “disposto” a conversar com o Presidente dos EUA.
Durante mais de sete décadas, os EUA estiveram no meio das disputas entre os dois lados, uma vez que Washington é o principal fornecedor de armas de Taipé e, embora não mantenha relações diplomáticas com a ilha, poderá defendê-la em caso de conflito com Pequim. Em Dezembro de 2016, durante o seu primeiro mandato presidencial, Trump falou por telefone com a então líder taiwanesa Tsai Ing-wen, algo que irritou a China.
Em Dezembro, Washington aprovou a segunda venda de armas a Taiwan desde o regresso de Trump ao poder, no valor de 11,1 mil milhões de dólares, mas o Presidente ainda não tomou a decisão sobre as entregas adicionais solicitadas por Taipé.
Postura ambivalente de Trump vista como “vitória” para a China
Trump fez uma série de comentários nos últimos dias que se afastaram da postura tradicional de Washington em relação a Taipé, algo que analistas interpretam como uma “vitória” para a China.
Depois de se ter contido durante a estadia em Pequim, Trump só começou a falar mais abertamente sobre Taiwan com os jornalistas quando embarcou no “Air Force One”. No avião disse que iria tomar uma decisão “muito em breve” sobre a venda de armas a Taiwan e, horas depois, numa entrevista à “Fox News”, assegurou que não tinha qualquer intenção de se envolver numa guerra em defesa da ilha.
Segundo especialistas ouvidos pela agência EFE, essas declarações não só semeiam dúvidas sobre o futuro da política americana sobre a ilha, como podem fortalecer a posição de Pequim. “As palavras de Trump certamente reacenderam a ansiedade e o cepticismo em Taiwan sobre a credibilidade e a fiabilidade dos EUA”, afirmou William Yang, analista para o Nordeste Asiático do “Crisis Group”.
Os comentários de Trump parecem questionar os dois pilares da política oficial de Washington: a Lei das Relações com Taiwan de 1979 e as “Seis Garantias” de 1982. A primeira estipula que a ilha receberá os meios necessários para a sua auto-defesa, enquanto a segunda delineia uma série de compromissos que incluem não consultar a China sobre a venda de armas defensivas a Taipé, uma questão que fez parte das discussões entre Trump e Xi.
“A posição de Trump sobre a venda de armas representa um afastamento significativo das ‘Seis Garantias’”, observa Wen-Ti Sung, investigador do “Global China Hub do Atlantic Council”, prevendo que Washington continuará a aprovar as vendas, mas em parcelas mais pequenas e fragmentadas.
As dúvidas manifestadas por Trump em relação ao fornecimento de equipamento militar, juntamente com as declarações sobre a “independência” da ilha, constituem, para o especialista, uma “vitória” para Pequim, que conseguiu alinhar parte do discurso dos EUA sobre Taiwan com a sua própria narrativa. Em todo o caso, William Yang afasta um “risco imediato de conflito” no Estreito de Taiwan, dado que Pequim “está a jogar a longo prazo”.
“A China procura enfraquecer a confiança da população taiwanesa nos EUA e exacerbar a divisão política interna entre os vários partidos taiwaneses, para provocar uma paralisia política em Taipé e explorar esta situação, ajudando a promover um candidato mais pró-China”, explica.
JTM com agências internacionais



