Os recentes desenvolvimentos em Timor-Leste mostram a deslocação dos centros de burla no Sudeste Asiático, segundo um relatório divulgado ontem pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC).

As autoridades policiais de Timor-Leste detiveram nas últimas semanas mais de 400 pessoas, na sua maioria cidadãos da China, do Camboja e da Indonésia, por suspeitas de envolvimento em actividades ilegais ‘online’, sobretudo relacionadas com jogo ilegal e fraude.

Em Setembro do ano passado, o UNODC tinha já alertado para o aumento da presença de redes criminosas em Oecusse, o enclave timorense situado em território indonésio, na ilha de Timor. Segundo a agência da ONU, investigações recentes demonstram que a região começou a ser influenciada por actividades criminosas organizadas.

O dólar como moeda nacional, a porosidade das fronteiras e a limitada capacidade das autoridades em matéria de inteligência financeira criam, segundo a UNODC, “condições muito semelhantes às vulnerabilidades inicialmente exploradas no Camboja e no Myanmar, tornando a evolução de Timor-Leste um sério motivo de preocupação para a prevenção do crime organizado na região”.

Intitulado “Um Ecossistema Criminal Interligado: Avaliação das Ameaças Representas pelo Crime Organizado Transnacional no Sudeste Asiático”, no relatório salienta-se que “Timor-Leste representa um caso emergente e qualitativamente distinto”.

Segundo o relatório, a principal ameaça “reside na convergência entre esta rede de facilitadores e o investimento de origem criminosa proveniente do estrangeiro”.

O UNODC exemplifica com o caso de Oecussi. “O proposto Oecussi Digital Centre [ODC] representou uma tentativa de transferir para outra jurisdição o modelo desenvolvido no Triângulo Dourado”, pode ler-se no documento.

O Triângulo Dourado é uma estrutura transnacional de produção de droga, tráfico, lavagem de dinheiro, fraude ‘online’ e corrupção, que envolve a zona fronteiriça entre o Myanmar, Laos e Tailândia.

“A proposta do ODC previa a criação de um centro digital que reuniria, sob uma única estrutura de controlo, complexos turísticos integrados, plataformas ‘online’, centros financeiros e funções de licenciamento do jogo. O projecto recorria ao quadro de governação autónoma da região como base jurídica e territorial para aquilo que teria constituído um enclave económico concebido para servir, de forma abrangente, actividades criminosas”, explica o UNODC.

A intervenção das autoridades policiais timorenses, em Dezembro 2025, impediu que o projecto chegasse à sua fase operacional.

 

JTM com Lusa