Uma nova era começou ontem entre a Espanha e o pequeno território britânico de Gibraltar, com a suspensão dos controlos de fronteira que durante muito tempo foram fonte de tensão e frustração. Dezenas de pessoas e veículos cruzaram o posto fronteiriço vindo da Espanha sem se submeter a inspecções aduaneiras depois da meia-noite, quando entrou em vigor o tratado de livre circulação, conforme constatou a agência AFP.
Várias centenas de moradores reuniram-se para assinalar o momento histórico, agitando bandeiras espanholas, enquanto o ministro-chefe de Gibraltar, Fabian Picardo, proclamava: “A Europa voltou”.
Gibraltar, território britânico com amplo grau de autonomia situado na extremidade sul da Península Ibérica, tem apenas cerca de 40 mil habitantes, mas a sua economia depende dos mais de 15 mil trabalhadores que atravessam diariamente a partir da Espanha. Nos horários de pico, costumavam formar-se longas filas na fronteira terrestre devido à verificação de documentos, especialmente em períodos de tensão entre o Reino Unido e a Espanha, que reivindica soberania sobre esse território.
Mas agora, em virtude de um pacto firmado entre Bruxelas e Londres após a saída do Reino Unido da União Europeia (UE) em 2020, os controlos fronteiriços foram eliminados. O acordo foi assinado na terça-feira em Bruxelas.
O comissário de Comércio da UE, Maros Sefcovic, participou na cerimónia de assinatura juntamente com ministros britânicos e espanhóis, além do próprio Picardo. Esse acordo “abre uma nova era” e “enormes possibilidades”, afirmou o ministro espanhol dos Negócios Estrangeiros, José Manuel Albares, em declarações à Cadena SER.
Uma fronteira mais fluida facilitará a contratação e a retenção de trabalhadores residentes na Espanha por parte das empresas de Gibraltar, já que as “dificuldades” de atravessar a fronteira podem ser “consideráveis”, disse Owen Smith, presidente da Federação de Pequenas Empresas de Gibraltar, à AFP.
O acordo alinhará Gibraltar com as normas do espaço europeu de livre circulação Schengen. Viajantes oriundos de fora dessa zona continuarão a ter de mostrar o passaporte aos funcionários no aeroporto e no porto de Gibraltar.
Picardo celebrou o acordo como a eliminação das “barreiras físicas de uma era passada de atritos”, permitindo ao enclave manter “as chaves” do seu “portão principal”.
O ditador espanhol Francisco Franco (1939-1975) fechou essa fronteira em 1969, depois de Gibraltar, que depende de Londres para defesa e política externa, ter votado por grande maioria no referendo pela permanência sob domínio britânico. O fecho, que durou 13 anos, interrompeu o fluxo diário de trabalhadores e separou famílias.
JTM com agências internacionais



