A agência reguladora de telecomunicações dos EUA determinou uma revisão antecipada da licença da rede de televisão ABC, depois do Presidente Donald Trump ter exigido a demissão do comediante Jimmy Kimmel por uma piada dirigida à primeira-dama. A ordem da Comissão Federal de Comunicações afecta a Disney, proprietária da ABC, e as suas emissoras afiliadas.

Donald e Melania Trump pediram que a rede cancelasse o ‘talk show’ nocturno “Jimmy Kimmel Live!” por uma piada do apresentador que descreveram como incitação à violência, dias antes de uma suposta tentativa de assassinato contra o Presidente. Trump disse que Kimmel deveria ser despedido “imediatamente” por ter dito que a primeira-dama “tem a aura de uma futura viúva”.

Na edição de terça-feira, o comediante afirmou que a resposta do casal Trump era “ridícula” e que o governo estava a “dar demasiada importância à brincadeira”. “Foi uma piada bem leve” sobre “o facto de ele ter quase 80 anos e ela ser mais jovem do que eu”, explicou Kimmel.

Trump completará 80 anos em Junho e é o presidente mais velho da história dos EUA, enquanto a esposa, uma ex-modelo nascida na Eslovénia, tem 56 anos.

O comediante também instou Trump a dialogar sobre o discurso “de ódio”, numa aparente referência aos comentários incendiários do Presidente sobre os imigrantes, opositores políticos e meios de comunicação.

Recentemente, Kimmel já tinha estado no centro do debate sobre a liberdade de expressão garantida pela Constituição. Em meados de Setembro, a ABC chegou mesmo a suspender temporariamente a exibição do “Jimmy Kimmel Live!” por comentários do apresentador considerados inapropriados após o assassinato do influenciador ultraconservador Charlie Kirk.

 

Opiniões políticas podem inviabilizar ‘green card’

Noutra frente das polémicas sobre a liberdade de expressão, a administração Trump gizou novas directrizes para a atribuição de ‘green cards’ que, embora ainda não tenham sido tornadas públicas, podem negar a residência a pessoas que participaram em actos considerados pró-Palestina ou anti-semitas ou que envolveram a queima da bandeira norte-americana, segundo o “The New York Times”. As regras constam de materiais de formação do Departamento de Segurança Interna, que instruem os funcionários a considerarem, nos pedidos de residência permanente ou ‘green cards’ dos imigrantes, a expressão das suas opiniões políticas, informou o ‘Times’, que teve acesso aos documentos.

Os funcionários da Segurança Interna são instados a encaminhar todos os casos que envolvam “potencial conduta ou ideologias anti-americanas e/ou anti-semitas” aos seus superiores e ao gabinete do conselho geral da agência para revisão, refere o jornal. Mesmo que o imigrante não tenha infringido a lei, ao abrigo das novas regras, expressar as suas opiniões será considerado “endosso, promoção ou apoio a opiniões anti-americanas” ou “terrorismo, ideologias ou grupos anti-semitas”, o que levará à rejeição da residência e, consequentemente, do acesso à cidadania.

Os agentes de imigração foram instruídos para considerar estes factores como “extremamente negativos”, de acordo com o ‘Times’, que refere que os documentos citam o apoio a ideologias “subversivas” como um dos factores que podem levar à rejeição de um pedido.

A política inclui também o que o governo considera anti-semitismo “através de acções retóricas ou físicas”, e os funcionários são instruídos para se concentrarem sobretudo “em estrangeiros que se envolveram em actividades anti-americanas e anti-semitas nos campus universitários” após os ataques do Hamas a Israel em 2023.

Queimar a bandeira americana é outro motivo para negar um pedido de ‘green card’, embora o Supremo Tribunal tenha decidido que é um acto protegido pela liberdade de expressão. Em Agosto passado, Trump assinou uma ordem executiva para punir a queima do símbolo nacional.

Após a notícia ter sido divulgada, a Coligação de Imigração de Nova Iorque afirmou que a liberdade de expressão é um pilar “fundamental” da democracia e é um direito de todos, independentemente do seu local de nascimento. O presidente da coligação, Murad Awawdeh, alertou que Trump “está a dar um passo perigoso ao punir os imigrantes por expressarem publicamente as suas crenças”, algo que considerou fazer parte da agenda de deportação mais ampla da sua administração.

“A nova política da administração Trump censura efectivamente as pessoas e estabelece um precedente perigoso que ameaça os direitos de todos os americanos”, declarou Awawdeh.

 

JTM com agências internacionais