O Diálogo de Shangri-La, principal fórum de segurança e defesa da Ásia, começa esta sexta-feira em Singapura, tendo como pano de fundo a guerra no Irão e a questão de Taiwan, enquanto a região avalia o empenhamento militar dos EUA no Indo-Pacífico. Isto acontece no meio de um clima de nervosismo que o Secretário da Defesa, Pete Hegseth, terá a oportunidade de acalmar.

O fórum terá início sob a sombra das tensões entre os EUA e o Irão, aumentando a pressão sobre o discurso de Hegseth, agendado para sábado e um dos pontos altos do Diálogo. Entretanto, prosseguem as negociações de paz entre os dois lados, mediadas pelo Paquistão, que também participa no encontro na cidade-estado asiática.

“Suspeito que o conflito entre os EUA, Israel e o Irão terá um peso significativo (no fórum), dadas as suas repercussões nos preços dos combustíveis, fertilizantes, hélio, alumínio e plásticos”, disse Chong Ja Ian, analista político da Universidade Nacional de Singapura, à agência EFE. No entanto, as implicações da guerra transcendem o impacto económico e levantam outras questões de segurança.

Diversos países asiáticos com os quais Washington mantém acordos de defesa estão preocupados não só com a crise energética resultante do bloqueio do Estreito de Ormuz, mas também com pontos críticos regionais como Taiwan, Coreia do Norte e o Mar do Sul da China, agora que o Médio Oriente é o foco da atenção militar dos EUA.

“Houve uma retirada de interceptores da Coreia do Sul, um atraso nas entregas de mísseis Tomahawk ao Japão e uma suspensão nas vendas de armas a Taiwan, tudo devido à necessidade dos EUA se concentrarem no Irão”, enfatizou Ian.

Hegseth poderá usar a cimeira de Shangri-La para tentar tranquilizar os seus parceiros, reiterando que os EUA cumprirão as suas obrigações de segurança numa região crucial na sua rivalidade com a China, onde realizam dezenas de exercícios militares multilaterais todos os anos, um número que tem vindo a aumentar e que deverá chegar aos 112 até 2026. Mas, “o compromisso por si só não se traduz necessariamente em capacidade”, alerta Ian, que considera um potencial surto simultâneo de várias crises, por exemplo, em torno de Taiwan, como “motivo de preocupação”. As tensões sobre a questão de Taiwan reacenderam-se após o encontro em Pequim entre os Presidentes Donald Trump e Xi Jinping, há duas semanas.

A renovada incerteza sobre Taiwan gira em torno de declarações de um responsável norte-americano que afirmou que Washington suspendeu uma transferência de armas de 14 mil milhões de dólares para Taipé, depois de Trump ter admitido, à saída da China, que a venda era uma “moeda de troca”, rompendo com a dinâmica tradicional.

Num fórum cujos painéis abertos a perguntas do público permitem posições menos rígidas do que o habitual entre altos funcionários da defesa, a questão de Taiwan virá provavelmente ao de cima, embora, pelo segundo ano consecutivo, o Ministro da Defesa chinês, Dong Jun, esteja ausente. Em vez disso, estará presente uma delegação de académicos e especialistas da Universidade Nacional de Defesa, da Academia de Ciências Militares e da Marinha, à semelhança da que assistiu ao evento do ano passado. Este gesto parece reflectir a importância decrescente do fórum para os interesses de Pequim, que, segundo os especialistas, estão cada vez mais focados em reuniões que o país “organiza e sobre cujas agendas exerce maior controlo”.

A “instabilidade dentro do aparelho de defesa chinês” é outro factor que pode pesar sobre o gigante asiático durante o fórum, após a demissão, em Janeiro, do general de mais alta patente da China, Zhang Youxia, do cargo de primeiro vice-presidente da Comissão Militar Central, no âmbito da campanha anticorrupção de Xi Jinping.

Organizado pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), sediado em Londres, o Diálogo Shangri-La, actualmente uma das principais conferências internacionais de segurança, realiza a sua 23ª edição entre hoje e domingo no Hotel Shangri-La, em Singapura.

 

JTM com agências internacionais