Situadas no deserto de Gobi, as cavernas dos Mil Budas guardam vestígios dos primeiros encontros entre Oriente e Ocidente, mas as autoridades chinesas reconhecem que o crescente fluxo de turistas e as próprias condições do local representam grandes desafios para a sua conservação

À entrada do deserto de Gobi, a cidade de Dunhuang, na China, serviu de refúgio aos viajantes que faziam trocas comerciais entre Oriente e Ocidente há milhares de anos e promoveram um singular intercâmbio cultural cuja maior marca está nas cavernas de Mogao, uma verdadeira “cápsula do tempo” das Rotas da Seda.

Aos pés de dunas gigantescas, o lago da Lua Crescente foi um oásis fértil que transformou Dunhuang (oeste), num dos principais pontos de passagem das Rotas da Seda e paragem obrigatória para os comerciantes após longas travessias com camelos por terrenos hostis. Além de levarem produtos exóticos do Oriente e Ocidente, as caravanas também transmitiram ideias artísticas, culturais e religiosas, que hoje continuam presentes nas cavernas de Mogao – também conhecidas como as dos Mil Budas -, declaradas pela UNESCO como Património da Humanidade em 1987.

Porém, com a erosão do tempo, a conservação das grutas é um dos grandes desafios actuais, devido ao crescente número de turistas – em 2017 foram visitadas por 9,1 milhões de pessoas – e a própria natureza das cavernas.

Segundo o vice-director da Academia de Estudos de Dunhuang, muitas pinturas já começaram a ser digitalizadas para que a sua beleza possa ser preservada para futuras gerações, mesmo que virtualmente. “A aplicação da tecnologia é essencial para a conservação das cavernas”, explicou Zhao Shengliang, segundo a agência EFE, durante a terceira exposição internacional das Rotas da Seda, realizada em Dunhuang.

Numa tentativa de diminuir o impacto do turismo nas cavernas, apenas 20 são abertas ao público anualmente. As que estão fechadas são mostradas aos turistas num filme 4D antes do início da visita.

“Não podemos lutar contra a Natureza”, comentou um dos guias das grutas, assegurando que até mesmo a poeira que cobre as esculturas não pode ser removida, para não prejudicar os seus pigmentos.

Depois do monge Yue Zun ter tido uma visão mística no local, foram escavadas entre os séculos IV e XIV cerca de 800 cavernas e santuários na montanha, dos quais 492 estão decorados com pinturas. As cavernas de Mogao oferecem uma “viagem” através do tempo: milhares de budas coloridos decoram as paredes, juntamente com várias “apsarás”, ninfas aquáticas da mitologia hindu, que voam pelos tectos. Também sobressaem imponentes esculturas, como um buda reclinado de 15 metros da Dinastia Tang e o buda mais alto de Mogao, de 35 metros.

Também é possível ver o rasto das Rotas da Seda com pinturas de comerciantes e camponeses, e a combinação de elementos chineses e ocidentais que reflectem a confluência de diferentes civilizações. Outro tesouro é uma biblioteca secreta com dezenas de milhares de manuscritos sobre a história da China, da Ásia Central e do budismo datada de entre o século V e o começo do VI.

Os tesouros foram descobertos no início do século XX pelo monge Wang Yuanlu que, pressionado por arqueólogos estrangeiros como Aurel Stein e Paul Pelliot, vendeu a sua descoberta de valor incalculável por um preço irrisório. Por isso, séculos depois, os especialistas chineses continuam a denunciar o espólio dos tesouros nacionais. “Milhares dessas obras estão agora em museus de EUA e Europa”, criticou Zhao.

“Eles não têm direito de manter essas relíquias noutros países”, frisou o vice-director da Academia de Estudos de Dunhuang, garantindo que já pediu a diplomatas americanos a devolução das relíquias.

JTM com agências internacionais