A possibilidade do regresso do Reino Unido à União Europeia (UE), 10 anos depois do traumático Brexit, já figura como uma das principais questões que dividem os candidatos à sucessão do Primeiro-Ministro (PM) britânico, Keir Starmer, que vive o seu momento mais difícil.
No sábado, o ex-ministro da Saúde, Wes Streeting, da ala direita do Partido Trabalhista, descreveu o Brexit como “um erro catastrófico” e defendeu que “o futuro do Reino Unido está na Europa e, um dia, de volta à União Europeia”. As suas palavras tiveram forte repercussão porque foi nesse mesmo fórum – um evento interno do partido – que confirmou a ambição de suceder a Starmer como líder do partido e, consequentemente, ocupar o cargo de PM durante o resto da legislatura, até às eleições de 2029.
Porém, o homem considerado favorito entre as bases do Partido Trabalhista e principal rival de Streeting, o presidente da Câmara de Manchester, Andy Burnham, expressou forte cepticismo na segunda-feira: “Não estou a propor que o Reino Unido volte a entrar na UE. Respeito o referendo (do Brexit)”, disse num fórum de investidores em Leeds (norte de Inglaterra). “Na minha opinião, o Brexit foi prejudicial, mas a última coisa que devemos fazer é revisitar esta discussão”, apontou.
Burnham, que apoiou a permanência no bloco no referendo de 2016, está provavelmente ciente de que a sua base eleitoral na Grande Manchester votou esmagadoramente pela saída da UE, tal como o norte de Inglaterra em geral, e depende desses eleitores para ser eleito para um lugar no Parlamento, para o qual já se candidatou.
Esta disputa entre Streeting e Burnham sobre a UE espelha o conflito interno dos Trabalhistas em 2016, quando o seu então líder, Jeremy Corbyn, manteve uma postura ambígua que desagradou a todos: aos jovens de Londres, maioritariamente a favor da permanência na EU e à população adulta do resto do país, profundamente ressentida com Bruxelas.
Por sua vez, o vice-primeiro-ministro David Lammy alertou que uma “guerra declarada” sobre a permanência ou não na UE é a última coisa de que o partido precisa, e sugeriu que, caso se intensifiquem, essas divergências beneficiarão o “Reform UK”, partido populista de Nigel Farage, que está em ascensão em todas as sondagens e acaba de infligir uma retumbante derrota aos Trabalhistas nas eleições locais.
Em Bruxelas, este potencial conflito já suscitou questões por parte dos jornalistas sobre se a Comissão Europeia apoiará um possível regresso do Reino Unido. A porta-voz principal da Comissão Europeia, Paula Pinho, respondeu que não lhe competia comentar “a situação no Reino Unido” ou as discussões naquele país sobre “qualquer projecto de adesão à EU”.
O Primeiro-Ministro Keir Starmer recusou entrar no debate sobre a readmissão na UE, observando apenas que a cimeira entre a UE e o Reino Unido, agendada para este Verão, “será um passo importante na nossa relação para nos aproximar da Europa”. “Não quero envolver-me num debate sobre o que poderá acontecer daqui a alguns anos”, acrescentou.
JTM com agências internacionais



