António Marques da Silva*
“Dominam-se mais facilmente os povos excitando as suas paixões do que cuidando dos seus interesses”. Gustavo Le Bon, psicólogo francês (1841-1931).
Com certeza que muitos daqueles que me lêem, vendo o título, estariam à espera de que esta crónica versasse sobre a eleição de Jair Bolsonaro para presidente do Brasil, no passado Domingo. Na verdade, quase toda a sua campanha foi feita nas redes sociais e com recurso a notícias falsas e caluniosas em relação ao seu opositor. Ou seja (sem esquecer os muitos erros e desmandos do Partido Trabalhista, que justificam o voto no candidato eleito, não por adesão aos seus valores, numa grande parte dos eleitores, mas como negação de práticas erradas e da corrupção instalada na política do país) os estrategas da campanha de Bolsonaro criaram uma “verdade” virtual, difundida através de muitos “likes” porventura pouco reflectidos e eivados de mimetismo. E a estratégia resultou.
Ora, isto não é novo de todo. Já resultou antes (e vai resultando ainda) com os “twittes” de Donald Trump. Aliás já Heinrich Himmler, chefe da propaganda nazi, dizia que o importante é colocar a mentira a circular porquanto mesmo que posteriormente surja um desmentido nem todos os que leram a notícia falsa vão ler o seu desmentido.
Mas não, não vou escrever sobre o Brasil, mas sim sobre Macau porque essa terra ainda me diz e dói muito.
Hoje vou escrever sobre outra realidade virtual que alguns abencerragens tentam construir sobre Macau, branqueando ou mesmo tentando apagar a história e o facto de os portugueses aí terem chegado no século XVI e de a Cidade do Santo Nome de Deus de Macau ter sido sempre um lugar de acolhimento de pessoas das mais variadas origens, incluindo do interior da Grande China, de tolerância, de miscigenação e de interpenetração de culturas.
E, tudo isto vem a propósito da leitura do artigo de Sofia Margarida Mota, “Calçada de Macau é única no Mundo”, sobre um estudo das investigadoras Vanessa Amaro e Sheyla Zandonai, publicado no “Hoje Macau”, do passado dia 19 de Outubro.
Nesse artigo, as citadas autoras realçam as diferenças da calçada portuguesa de Macau em relação a outros tipos de empedrado artístico de inspiração portuguesa espalhados pelos cinco Continentes e o seu aparecimento tardio nos espaços públicos de Macau (apenas nos anos 90 do século passado e na Praça do Leal Senado), bem como o facto de os padrões terem começado a ter formas mais arredondadas e a colher figuras da cultura chinesa: “peixes, caranguejos ou estrelas, que são considerados elementos auspiciosos na cultura popular local, foram incorporados nos padrões das calçadas, assim como o uso de pedra vermelha e sem dúvida a necessidade de aprovação do mestre de Feng Shui”.
Tudo normal, diga-se, pois estamos perante um exemplo claro da aludida interpenetração e assimilação de culturas diferentes. E Macau foi assim! Isto antes de a ignorância e a arrogância de uns tantos fazerem sua a bandeira da destruição dos desígnios históricos dessa terra pacífica e abençoada, em harmonia, por deuses orientais e ocidentais.
Sim, não consigo entender que, segundo o artigo citado, os materiais turísticos distribuídos pela Região (note-se que a directora dos Serviços de Turismo é uma filha da terra!) denominem a calçada portuguesa como “pavimento de influência mediterrânea, europeia ou mesmo ibérica”, contrariamente aos documentos em língua portuguesa onde a designação é calçada portuguesa. (Eu sei, a luta por princípios e a defesa de valores culturais e éticos tem custos elevados, não pelo que se gasta, mas pelo que se deixa de ganhar).
Isto é excitar as paixões nacionalistas dos visitantes e dos novos residentes chineses. É mistificação, patriotismo bacoco e tacanhez de espírito. Mas não é novo. Lembram-se de o actual Chefe do Executivo, quando ainda era apenas Secretário, ter dito que Macau era influenciado pela cultura grega?
A mim, português de cultura latina e raízes judaico-cristãs, só me ocorre citar os textos sagrados: “Abençoados os pobres de espírito”.
* Advogado (Portugal). Escreve neste espaço quinzenalmente.



