João Figueira *

João Figueira *

“Eu vejo sentindo”, afirma no IV acto, o cego conde de Gloucester, na peça “Rei Lear”, de Shakespeare. Neste diálogo que as duas personagens travam parece haver como que uma rivalidade em torno dos sentidos. O amor, a traição e o poder, como em outras peças do mesmo dramaturgo, estão aqui bem presentes, embora como provavelmente em nenhuma outra, as questões da razão e da emoção – ou dos sentimentos – sejam tratas de forma tão magistral. Afinal, qual é a linguagem do coração ou, perguntando de outra maneira, será que podemos ensinar os sentidos a falar, a criarem a sua própria linguagem?

Em “O banquete”, Platão dá-nos uma das mais antigas abordagens sobre o amor, tema que até hoje se tem mantido, com variadas declinações, na espuma dos dias. Por vezes, expressa-se de forma exuberante, como no Taj Mahal, em Agra, mandado construir pelo imperador Shah Jahan em memória de uma das suas esposas que morreu ao dar à luz o 14º filho. Outras vezes vem em forma de poema, como no de Vinicius: “que não seja imortal, posto que é chama / mas que seja infinito enquanto dure”. Outras, ainda, em jeito de paciência e longa espera, como é o caso do telegrafista Florentino Ariza que aguardou 50 anos por Fermina Daza, a paixão de sua vida, em “O amor nos tempos de cólera”.

Como Gloucester, quantos de nós não vimos sentindo, o que equivale por dizer que vezes sem conta demos connosco a ouvir uma música, a ver um quadro ou um filme e, sem que o estivéssemos a entender, ou sobre ele fôssemos capazes de elaborar um qualquer discurso, nos sentíssemos totalmente arrebatados? Há manifestações que nos tocam e emocionam sem sabermos bem porquê. Talvez seja esse também um dos mistérios do amor ou da paixão.

Somos capazes de nos apaixonar à primeira vista por uma paisagem ou por uma pintura e só depois, na lentidão do contacto e do olhar, vamos construindo a nossa própria narrativa do enlevo que sentimos. Tudo pode começar num alvoroço qualquer, numa qualquer surpresa, num possível salto na rotina do quotidiano. É possível.

Mas depois chega Clarice Lispector que, em “A paixão segundo G. H.”, nos maravilha como toda a força de uma escrita absolutamente poderosa, esmagadora, definitiva, como se depois do que ela diz e pensa não restasse mais uma palavra, todo o diálogo ficasse subitamente seco, e nós, seres incapazes de exprimir o que quer que seja, perguntando qual é, afinal, a linguagem do coração, transformados no cego Gloucester, e ao contrário dele a sentirmos o que vemos: “ – Tu eras a pessoa mais antiga que eu jamais conheci. Eras a monotonia de meu amor eterno, e eu não sabia. Eu tinha por ti o tédio que sinto nos feriados. O que era? Era como a água escorrendo numa fonte de pedra, e os anos demarcados na lisura da pedra, o musgo entreaberto pelo fio d’ água correndo, e a nuvem no alto, e o homem amado repousando, e o amor parado, era feriado, e o silêncio no voo dos mosquitos. E o presente disponível. E minha libertação lentamente entediada, a fartura do corpo que não pede e não precisa”.

Imitando Goneril e Regan, as filhas mentirosas e interesseiras de rei Lear, seríamos capazes de dizer, como elas, o que fosse preciso para que Lispector, à semelhança do velho monarca, estivesse disposta a doar uma parte do seu reino da escrita aos que a admiram.

Há pessoas de quem se gosta tanto, que é impossível amá-las. Apenas admirá-las. De olhos fechados.

 

* Professor de Jornalismo da Universidade de Coimbra e ex-residente em Macau