António Aresta*
António Aresta*

A revolução de 25 de Abril de 1974 pôs um ponto final no império ultramarino, um anacronismo histórico que deveria ter sido solucionado no termo da segunda guerra mundial, com honra e acautelando todos os interesses em questão. Por isso, a descolonização, sob a pressão ideológica comunista, foi a maior catástrofe do século XX português.

Macau escapou a essa onda de insanidade porque o governo chinês impôs um prazo cauteloso e realista para a devolução do enclave.

Em 25 anos, um quarto de século, tivemos uma sucessão de governos patrióticos, atormentados pelo fantasma da descolonização, mas animados de uma enorme vontade empreendedora e estabilizadora, liderados por estes governadores: José Eduardo Garcia Leandro [1974-1979], Nuno Viriato Tavares de Melo Egídeo [1979-1981], Vasco Fernando Leote de Almeida e Costa [1981-1986], Joaquim Germano Pinto Machado Correia da Silva [1986-1987], Carlos Montez Melancia [1987-1991] e Vasco Joaquim Rocha Vieira [1991-1999].

Em 25 anos foi preciso pensar, planear e executar o que deveria ter sido feito paulatinamente ao longo dos séculos. E essa missão foi globalmente considerada um sucesso em quase todas as frentes de actuação, como é unanimemente reconhecido. Por outros motivos diferentes, a pedra no sapato foi a difusão da língua portuguesa.

Num contexto difícil e responsabilizante, o papel desempenhado pelo governador Vasco Rocha Vieira [1939-2025] foi sumamente notável, ao harmonizar os três cosmos com órbitas desencontradas [China-Macau-Portugal]. Mais ainda, geriu emoções, incertezas e angústias, ao mesmo tempo que capacitava a administração pública, fixava os grandes vectores da educação e do sistema judiciário, executava as obras estruturantes, assegurava a transição dos funcionários, consolidava as reservas financeiras e o fundo de pensões. Estes foram os trabalhos e os dias de um grande governador. E sem deixar de acolher a ansiedade e as demandas da diáspora macaense e da diáspora dos chineses ultramarinos.

A preparação e a vivência da transição foi muito mais do que a mera mudança de senhorio ou de arrendatário, foi uma revolução antropológica e epistemológica que originou um novo quadro mental, ainda em estudo. Quem viveu em Macau nesses anos do fim da administração portuguesa, para uns exaltantes e para outros existencialmente sombrios, terá ainda muito que contar, porque ainda se escreveu muito pouco. A transição, dizia Vasco Rocha Vieira, “é um desafio original, sem referência a qualquer outra experiência. Para Portugal, a transição não se resume a uma mera transferência de poderes, terá de ser uma transmissão de uma mensagem, de um modo de vida, de uma singularidade que tem as suas raízes no passado, mas que tem a sua ambição no futuro, terá de ser a concretização das condições de autonomia que permitam a Macau continuar a ser uma base de encontro, uma porta de abertura em todos os sentidos, um centro onde todos os entendimentos sejam possíveis”.

O relacionamento com a China, firme, mas leal, foi muito apreciado, até porque “a vocação de dois povos e as circunstâncias históricas fizeram de Macau um espaço de entendimento, ponto de encontro e cruzamento de povos e de culturas, porta e ponte para intercâmbio de saberes, para o diálogo das diferenças entre grandes campos civilizacionais. Esse é o espírito de Macau, que desejamos perene e irradiante”.

Para Vasco Rocha Vieira, “Macau é, assim, mais do que as suas gentes e as suas obras. É uma síntese de valores que interessam a toda a humanidade, valores que são muito mais do que as suas circunstâncias e o modo como responde às contingências. Macau fica dotado dos meios e das linhas de orientação para que possa prosseguir o seu caminho na história sem perder a sua identidade e sem ver desaparecer a sua singularidade. Esta era a nossa obrigação. Esta é a nossa razão de orgulho”.

O pensamento político de Vasco Rocha Vieira encontra-se explanado em diversas obras, publicadas ao longo do tempo: “Ensino Superior, uma responsabilidade partilhada”, 1992; “Um Futuro para Macau”, 1999; “Todos os Portos a que Cheguei”, 2010; “Macau e o Futuro”, 2010; “Memória do Último Governador de Macau”, 2024.

Destacaria estes pontos essenciais que nortearam a sua governação: o patriotismo, o pragmatismo, a ética e a rectidão moral. Por isso, tem um lugar de primeiro plano na galeria das figuras ilustres da história contemporânea de Macau. Homem do 25 de Abril e do 25 de Novembro, Vasco Rocha Vieira foi o fundador do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, uma instituição que num futuro próximo poderá ostentar o seu nome.

 

*Ex-docente em Macau. Colaborador regular do JTM, desde há décadas.