Albano Martins

Albano Martins*

1. Com os dados de Junho disponibilizados pela DSEC em Julho passado, afirmei nestas páginas que a inflação em 2015 poderia situar-se no intervalo entre 4,33 e 5,37 por cento.

Um intervalo que vinha já apertando à medida que ia tendo conhecimento dos valores dos índices mensais. Hoje, com a divulgação dos dados de Julho pela DSEC, e o que me parece será o comportamento dos factores de enquadramento dessa variável nos próximos cinco meses, ela poderá vir a situar-se em 2015 no intervalo, mais apertado, entre 4,5 e 5,24 por cento! Mas definitivamente, ou se quiserem, com uma certeza quase total, a inflação em Macau nunca ficará abaixo dos 4,25 por cento!

 

2. Pereira Coutinho e a política do “onde não há namorados”, ou seja, para bom entendedor do seu douto e prático pensamento, a política do “quem chegar primeiro que me leve”, voltam a mexer connosco.

O PSD e o PS teriam chegado atrasados, segundo dá a entender, e perderam o comboio. Bem feito! Nem sabem o que perderam, está claro, para além do comboio. Sem PC eles não vão a lado algum!

Mas se calhar é mesmo essa a ideia, pois segundo o ditado, mais vale sozinho do que mal acompanhado.

Sem menosprezar o que o deputado diz nas entrelinhas das suas declarações, não ouso molestar o seu precioso ego. Ele que até já ameaça tirar mais um coelho da cartola lá mais perto do acto eleitoral. Só espero que não saia de lá o nosso primeiro-ministro.

Não sendo totalmente analfabeto em questões jurídicas, deixo no entanto para esses especialistas a análise da legitimidade do nosso PC poder vir a representar dois Parlamentos de dois países diferentes, no caso de uma vitória eleitoral no círculo para onde concorre nas próximas eleições portuguesas, embora não tenha muitas dúvidas quanto a isso. Refiro-me, claro, a ser “parlamentar” por dois países diferentes e não à sua capacidade de arregimentação de massas, conhecidos os truques e a máquina que indevidamente usa, sem que ninguém internamente lhe ponha travão.

Eticamente, para mim, que entendo a política como um exercício de nobreza, é lamentável!

Jurar fidelidade a dois países parece-me eticamente difícil de engolir!

Mas o PC e quem o apoia lá sabem. São todos maiores!

 

3. Nas eleições em Macau, há quem pague refeições como gratidão pelo voto “livremente” metido nas urnas pelos eleitores, mas não deixam de ter chatices depois. Agora a ideia é bem mais sofisticada. Vai-se distribuindo ao longo do ano arroz, refeições, cupões, promessas e até milhões de patacas, enfim, uma chuva de presentes. Os mais pobrezinhos vão fazendo promessas, atarefando-se um pouco por todos os lados, indo a todas! Torna-se mais fácil depois justificar as razões do apelo ao voto e de não ter a lei à perna! Os conterrâneos… agradecem e os nossos legisladores também que evitam depois chatices com os grandes… e os candidatos a grandes!

 

4. Acho bem o GIT vir pedir desculpas pelo que fez, embora isso não resolva o problema de fundo. Não há ninguém naquela capelinha que tenha dois dedos de testa e não saiba o que são dados pessoais ou não conheça a lei?

 

5. O PIB do segundo trimestre caiu substancialmente. Muito mais ainda do que no primeiro trimestre (24,5%). Estamos a falar de 26,4 pontos percentuais em termos reais. Mas nem tudo vem por mal.

Veio por bem o deflator implícito que pela primeira vez desde há quase cinco anos é o que menos cresceu (apenas 5 por cento, bem abaixo da nossa inflação), porque se mais tivesse crescido a quebra real teria sido bem maior!

Valeu-nos a Santa Padroeira que, acredito, não tenha sido a da Praia Grande!

Agora, quando tudo cai dois dígitos bem altinhos, o Governo de Macau, que devia dar um sinal de esperança à malta toda que por cá vive e que começa, nalguma privada (escritórios de advogados, pequenas lojas ou se quiserem nas PMEs ou mesmo nos próprios casinos) a despedir pessoal para anular os efeitos da quebra de actividade, resolve dar sinal errado, como se estivesse à beira da bancarrota ou a defrontar um potencial déficit nas contas deste ano.

Ou estivesse atulhado em dívida pública e em sistemáticos déficits anuais nas suas contas!

Claro que o Governo deve ser mais eficiente na gestão da despesa pública, mas uma coisa é evitar desperdícios e outra coisa é, em período de forte recessão, iniciar-se um programa desse tipo, passando-se para a comunidade e para a economia a imagem errada de que é preciso apertar o cinto.

Apertar o cinto, porque os tempos estão difíceis e daí, dever entrar em austeridade!

Apertar o cinto em recessão brutal é contribuir para que ela seja ainda mais intensa.

Mesmo em pequena recessão, vejam-se os casos da Grécia e de Portugal.

Mas não há naquela casa quem tenha dois dedos de testa?

Evitar desperdícios, claro, mas substituir-se essa despesa por despesa que dinamize a economia.

Aliás é muito esquisito que se saiba ao certo que cada serviço desperdice exactamente a mesma coisa: cinco por cento.

Depois vêm-nos dizer que não atacam o investimento, querem dizer o PIDDA. Mas há outro investimento da Administração que não vem no PIDDA, e esse é para cortar em 10 por cento, se bem compreendi.

O Governo, por ser governo, deve governar. E governar não é olhar apenas para a sua capelinha, que é a função pública e organismos a ela ligados, ou seja, a casa “Estado”.

Governar, é olhar para a economia no seu todo, observar e estudar o seu comportamento e tirar ilações das suas implicações (doutrina económica) para a seguir se tomarem medidas que evitem comportamentos nefastos contra a economia, como a bolha imobiliária, a dependência brutal de um sector ou de um parceiro económico, por exemplo (política económica), com base no que a ciência do momento nos é capaz de ensinar (teoria económica).

Ora a teoria económica, desde o afundar da crise dos anos trinta do século passado, com as medidas contraproducentes que os clássicos tomaram, ensina que em Macau o Governo devia fazer exactamente o contrário.

Mostrar, agora, confiança, e não desconfiança, aumentando a procura pública e não, ao invés, cortando-a.

O Governo da China e o Governo de Macau, infelizmente vou arriscar dizer que este por arrasto (que o governo Central sabe disso mais sem olho algum do que os economistas do Governo de Macau com os olhos todos abertos) querem a diversificação da economia local.

Ora isso não se faz liquidando-se o único sector que cresce e cria riqueza para quase toda a economia. Não se esqueçam do enorme consumo dos casinos (chamado tecnicamente de consumo intermédio) que dinamiza muitas empresas do território.

Ora a diversificação faz-se não criando entraves ao Jogo mas criando-se alternativas ao sector-rei.

E como é que na prática se consegue isso? Criando-se postos de trabalho fora dessa área para que gradualmente os residentes (para pegar na preocupação de alguma comunidade, incluindo do próprio Governo) se movam para outras indústrias.

Mas como é que isso se faz?

Se o Governo está perante uma economia privada que não mostra alternativas ao jogo, que não é capaz de ter dinâmica alternativa, então o Governo, se sabe o que quer,  deve-se substituir temporariamente à economia privada criando ele a actividade que diz recomendar.

E, gradualmente, abrir as suas empresas a parcerias privadas para no final, quando tudo estiver provado ter funcionado, privatizá-las se essa for a sua opção, o que pode não ter de ser necessariamente.

Como se pode ver, tudo passa por mais investimento e mais consumo!

Acreditar na economia privada local como alternativa ao jogo é cometer o mesmo erro que cometeram a administração portuguesa e depois a da RAEM quando apostaram na diversificação industrial. Que, como sabem, esta nunca funcionou e a inércia acabou por liquidar a única indústria que Macau possuía de facto: os têxteis.

Vai a história repetir-se?

 

* Economista. Escreve neste espaço às sextas-feiras.