Personagens:

Camilo Pessanha: Poeta, nasceu em Coimbra em 7 de Setembro de 1867, e faleceu em Macau, em 1 de Março de 1926;

Alberto Osório de Castro: Amigo de longa data, e irmão de Ana de Castro Osório;

Catharina de Sousa Coutinho: Esposa de Alberto Osório de Castro

Primeiro Acto Cena 1

Residência do Poeta na Praia Grande. Três e meia da tarde de um dia de primavera em Abril, de 1923. (A visita de Alberto Osório de Castro, aconteceu, sim, mas em 1912, proveniente de Timor. As últimas visitas regulares de entre outras, foram de Sebastião da Costa e A. de Albuquerque, como nos conta António Dias Miguel, na sua obra, Camilo Pessanha – Elementos para o Estudo da sua Biografia e da sua Obra, Edição Álvaro Pinto, 1955, págs. 178 e seguintes).

Alberto Osório de Castro, acompanhado da esposa, chega à rua que lhe indicaram e confirma a moradia identificada com o número 75: um edifício antigo, pouco iluminado, com uma porta de gradeamento verde fechada por uma tramela. Na parte superior tem uma placa em madeira com os dizeres gravados em madrepérola: Residência de Camilo de Almeida Pessanha, e em caracteres chineses (卡梅洛庇山耶 – Kamui Lok Pei San Ie). A seguir a um pequeno pátio que dá para a escada que vai para o primeiro andar, são recebidos por uma saraivada de ladrares dos guardas da casa. Uma moça chinesa guia-os, passam por duas salas que mais parecem museus, tantas as peças de cerâmica, de jade, metal … entram para um pequeno corredor que vai dar ao quarto de Camilo. A desarrumação tem de ser contornada. Pelo chão alguns livros amontoados, Verlaine, Cesário, Ruben Dario, Lírica de Camões, Sá de Miranda… mais vasos, jarras, porcelanas, rolos de pintura chinesa, armários com mais livros… e, afastado o reposteiro, estendido numa enorme cama, está Camilo. Junto à mesinha de cabeceira, um terço que sua mãe lhe deixara e mais alguns livros, uma Bíblia, o Corpus Hermeticum de Trismegisto, e a Imitação de Cristo de Kempis. Levanta-se a custo para cumprimentar o amigo. A sua magreza fere, tem o semblante abatido, mas as longas barbas à João de Deus não escondem o brilho daqueles olhos estranhos. Arminho, vai arreganhando os dentes para afastar a concorrência às festas e ao colo do dono. Ngan Yeng, entra na sala como um vulto, e silenciosamente deposita numa mesa uma bandeja com dois copos de chá para as visitas, e na mesinha de cabeceira coloca o material predilecto de Camilo.

 

Camilo Pessanha: (notando o olhar de Alberto Osório a Ngan Yeng) Havia de ter conhecido a mãe… (1) Camilo Pessanha: (iniciando a conversa) E então, estão a gostar? Alberto O. de Castro: (animado) Muito, a baía é lindíssima! nunca tinha visto esta maneira de pescar, com a rede numa armação de bambu… pessoas a passearem pássaros em gaiolas… algumas outras em grupo a praticarem um exercício… Camilo Pessanha: (dando uma ajuda) Tai chi, ajuda a manter a calma… Camilo Pessanha: (persignando-se) Amigo Alberto, sei que lhe estou a dever alguns poemas que tencionava deixar-lhe como prometi, mas andam dispersos por aí e neste momento não tenho a energia que precisava para os procurar e organizá-los num caderno. (2) Alberto O. de Castro: (sem qualquer ressentimento) Deixe lá isso, é mais importante estar consigo. A propósito, trouxemos-lhe um exemplar da primeira edição da Clepsydra, não tem as páginas numeradas.

Catharina Coutinho, abre a carteira e entrega o pequeno volume ao marido.

Camilo Pessanha: (comovido) Obrigado. Já tive oportunidade de agradecer à senhora D. Ana, a publicação do livro. Está feito, foi a escolha de poemas e a ordenação que por várias vezes confidenciei à D. Ana como desejava fazer (3). No entanto, parece que o rapaz, seu sobrinho, já queria avançar por ali adiante… extravasando dos limites do respeito e da vontade. Alberto O. de Castro: (em tom condescendente) Ele tem uma adoração por si que nem calcula! Camilo Pessanha: (com certo azedume) Mesmo assim… Catharina Coutinho: (intervindo a desviar a conversa) E a Clepsydra? Leio, releio, declamo pausadamente em voz alta, em voz baixa, e não encontro a chave do livro… Camilo Pessanha: (rindo) Aquilo são exercícios de pintura, talvez de música, como dizia um certo ensaísta britânico… Alberto O. de Castro: Chave? Minha doce Catharina, não vê que o Primo leva-a ao São Carlos, e deixa-a à porta! Camilo Pessanha: (rindo maliciosamente): Amigo Alberto, eu não sou assim tão mau! Alberto O. de Castro: Pudera! Aquilo é um missal de um iniciado! Catharina Coutinho: (resignada) Está bem… os poemas andam ali entre o belo e o sinistro, mas tenho alguns preferidos, claro. O Fonógrafo, não posso deixar de rir quando o leio, outros um tanto voyeurs, como o Desce em folhedos tenros a colina, e o Esvelta surge!… a imagética de Crepuscular… e aquele outro que cada vez que o leio vêem-me as lágrimas aos olhos, que uns chamam a Canção da partida… Camilo Pessanha: (sorrindo) A Prima vá lendo várias vezes, e talvez alguns aspectos desses poemas lhe chamem a atenção. O da Partida, como sabe, é uma coisa que nunca ficará resolvida… não sei o dia em que enfim deixarei de chorar… (4) Alberto O. de Castro: (desanuviando a conversa) Este chá é uma maravilha! Camilo Pessanha: (bebendo também): É hong chá (chá vermelho), de uma região aqui da província de Cantão chamada Yingtak, as folhas encaracoladas depois de fervidas ficam entrelaçadas parece um novelo de lã, e a côr é essa assim âmbar, mais ou menos côr de conhaque, desliza que nem veludo e deixa ficar no paladar um sabor amargo e seco. Alberto O. de Castro: Ouvi dizer que os ingleses através daquelas companhias coloniais, pegaram nuns milhares de plantas e levaram para cultivar na Índia dando cabo do negócio aos chineses, mas que eles também não se importaram muito. Camilo Pessanha: (mordaz) Caro Alberto, sabe como é essa gente. Mas que levem, e façam chá para beber com leite. Salvo o erro daqui também foram mandadas plantas para os Açores e para o Brasil. Mas aqui bebe-se de outra maneira, mais concentrado, em bules e copos pequenos como esses aí, feitos à mão com um barro especial, chissá. Se o Alberto pegar na tampa e fechar o bule há de ouvir um som metálico. As pessoas deviam aprender a beber chá para conhecer melhor os chineses… beber chá faz as pessoas falar.

Camilo, entretanto, não aguentando mais a cerimónia pede desculpa ao casal, e faz um pequeno sinal a Ngan Yeng para preparar o cachimbo predilecto.

Pouco depois, de pé, já possuído, com gestos teatrais começa a recitar de memória outras poesias, a Magdalena, cabelos de rastos (Evangelho de São Lucas 7, 36-50), o Madrigal, que fez a Prima mexer-se na cadeira, e o inevitável Branco e Vermelho!

Camilo Pessanha: (não conseguindo fugir ao problema) Por falar em dor, como tem passado a senhora D. Ana? Vou recebendo uns jornais de vez em quando fruto da sua imensa delicadeza… e nestes dias de tristeza, é um bálsamo quando reconheço na morada do remetente a sua letra. Alberto O. de Castro: Lá vai andando, fazendo trabalho social em Setúbal, e recolhendo e publicando leituras para crianças… Catharina Coutinho: (serenamente) Apesar de tudo, ainda acho a vossa história muito bonita… Camilo Pessanha: (não querendo acreditar) Ó Prima, tenha dó! O segredo dessa alma, sempre foi a minha obsessão… a razão do meu degredo… (5) Catharina Coutinho: (levando a mão ao peito) Por amor de Nosso Senhor, longe de mim qualquer ideia de troça… na verdade gosto de uma boa história de amor, e a vossa tem todos os elementos para isso. Alberto O. de Castro: (intervindo) Concordo em parte minha querida esposa, só que uma paixão amorosa tem de ser recíproca e, neste caso… o que quero dizer é que terá de existir uma conjura, para impedir o desenvolvimento dessa paixão, já para não falar do elemento trágico… Catharina Coutinho: Credo! Alberto O. de Castro: Será preciso recordar o outro Camilo? Catharina Coutinho: Se o meu querido esposo se está a referir ao Amor de Perdição, é verdade, mas lembro-lhe que o amor que Mariana tinha pelo herói do romance não era correspondido e teve o fim que a gente sabe, pelo que o sofrimento amoroso, mesmo de uma das partes, também conta. Camilo Pessanha: (acrescentando tristemente) O sofrimento… e a resignação. Catharina Coutinho: (concordando) Como vê, meu bom Alberto, não tem de ser necessariamente assim, a unilateralidade não constitui problema. Alberto O. de Castro: (não totalmente convencido) Sim, pode ser… como dizem os juristas, posso aceitar uma interpretação extensiva…

Camilo Pessanha, atónito, vendo à sua frente aqueles dois seres a contar os elementos para a definição da representação da sua realidade!

Catharina Coutinho: (continuando a sua ideia) Também, como o Alberto sabe, até porque o nosso bom Camilo lhe devolveu correspondência entre ele e a sua irmã, foi, digamos, forçado ao exílio, a vir para Macau. (6) Camilo Pessanha: (com os olhos quase em lágrimas) A decisão de partir para Macau foi sobretudo para fugir ao desgosto que foi a recusa da D. Ana em ser minha companheira para a vida. Além dessa carta que enviei ao Alberto, ainda há mais três, qualquer delas mais dolorosa que outra. Alberto O. de Castro: (comovido) Embora se possa aferir pela carta de minha irmã que me enviou, a recusa ao seu pedido, nunca cheguei a ler essas cartas que me fala nem, aliás, sabia da sua existência. (7) Camilo Pessanha: (amarguradamente) Resolvi-me a ficar solteiro até que o enfraquecimento da vontade me fizesse aceitar qualquer mulher… (8) Catharina Coutinho: Teve, então, a senhora Sam Kûn? Camilo Pessanha: Sim… no poema – Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar, explico a situação (9), mas nunca deixei de amar a senhora D. Ana… Catharina Coutinho: Não se preocupe, Primo, isso vê-se na sua cara! Para mim a Clepsydra é uma declaração de amor contínua, e julgo que a minha querida cunhada sabe disso perfeitamente. Aquilo é dela, e o seu amor para com o Primo, está no trabalho da publicação e no interesse do seu triunfo como poeta. Diferentes maneiras de amar, não acha Primo? e, apesar de ser da família, de estar perto, escapam-me certas coisas, julgo que vocês têm um código próprio de relacionamento…

Pessanha ri-se, nada deixando transparecer…

Alberto O. de Castro: (intervindo) E então, e a senhorita Ngan Yeng? Camilo Pessanha: Amigo Alberto, já que falamos em histórias de amor, os problemas na relação entre Anna Karenina e o jovem Vronski, não se ficaram a dever à heroína dessa grande história ter de assumir a relação adúltera, ou enfrentar as convenções da sociedade, mas sim que a relação era fundada apenas no amor carnal, daí a sua ruína (10). Por mim, também, já me vai faltando a energia, como os chineses dizem – yao sam, mou lêk (tenho vontade, mas não tenho força), e desconfio que tenha amores por fora, de maneiras que é uma relação que está a terminar. Camilo Pessanha: (preparando-se para sair) Tenho uma coisa horrível para fazer, discursar numa dessas cerimónias aborrecidas, canso-me muito. Fujo disto a sete pés, mas esta foi difícil de negar. Mas fiquem à vontade… Alberto O. de Castro: Não, vamos dar uma volta por aí, está um dia agradável. Camilo Pessanha: (brincando) Podia-se era fazer o seguinte: Amanhã apareciam aqui por volta das cinco e meia da manhã, para passarmos por vários tintins… costuma haver coisas boas… Alberto O. de Castro: (rindo) Passo, caro amigo! A nós basta-nos tomar bem cedo o pequeno-almoço na varanda do hotel, a vista é bela. (11) Camilo Pessanha: (resignado) Ou então, lá para o final do dia irmos passear pela outra cidade, uma coisa é a administração portuguesa, outra coisa é a loucura… Alberto O. de Castro: Fica assim combinado. Camilo Pessanha: Então, com licença: Et je m’en vais au vent mauvais! (12)

 

Notas:

Quaisquer citações de versos ou de poemas que se mencionarem de Camilo Pessanha, será sempre em referência a Clepsydra – poemas de Camilo Pessanha, com fixação do texto por António Barahona, edição de 2003, da Assírio e Alvim, que reedita a edição de 1920, actualizada pontualmente na sua ortografia, sem nada lhe tirar ou acrescentar.

 

(1) Efectivamente, Alberto Osório de Castro quando em 1912 visitou o Poeta, teve oportunidade de conhecer Sam Kûn (mãe de Ngan Yeng), tendo ficado deveras impressionado. O relato da visita vem incluído no livro de Maria José de Lencastre – Camilo Pessanha, Cartas a Alberto Osório de Castro, João Baptista de Castro, e Ana de Castro Osório, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984, págs. 123 e seguintes. Sam Kûn, viria a falecer em 1915.

(2) Conforme Carta nº 27, de 28 de Outubro de 1907 (Lencastre, ob. citada, pág. 69), escrita por Pessanha a partir do Hospital do Carmo, no Porto, para onde tinha ido para ser operado. Talvez o desejo de Pessanha de deixar um “caderno de versalhada” ao amigo, tenha acabado por concretizar-se com a publicação da Clepsydra. Assim o julga Fernando Cabral Martins, em artigo publicado na revista Nova Renascença, 1989/90 – Camilo Pessanha em 1920, pág. 234, “A oportunidade que traz a licença gozada em Lisboa e o convívio com a família letrada do seu amigo de sempre acabam por ser o modo de realizar esse projecto de livro, que a carta citada refere sob o modo eufemístico”. Mesmo assim, Pessanha ofereceu-lhe duas pinturas em papel, enroláveis como os kakemonos japoneses, de finais do séc. XVI. (Dias Miguel, ob. citada, pág. 36).

 

(3) Até hoje, para alguns, a primeira edição da Clepsydra de 1920, pelas Edições Lusitânia não foi a única e a definitiva. Pessanha, em carta dirigida a Ana de Castro Osório, datada de 3 de Junho de 1921, escreve “… não quero deixar de agradecer-lhe, penhoradíssimo, a publicação da esquecida Clepsydra, e os cuidados da disposição (que é como eu próprio a faria), e da ortographia”, (Carta nº 33, Lencastre, ob. cit. pág. 83). Não se deve aceitar, assim, a conclusão de Paulo Franchetti, de que “a carta tinha sido uma forma delicada e polida de, comentando apenas generalidades, ocultar que a edição não o agradara” (Clepsydra – poemas de Camilo Pessanha, posfácio e fixação do texto por António Barahona, Assírio e Alvim, 2003, pág. 138). Por seu lado, aquele jovem que tem quota parte na salvação de umas das mais belas páginas da literatura portuguesa (a mando da mãe, diligentemente ia anotando e passando para o papel poemas que nos serões bem comidos e bem regados passados na residência dos Castro Osório, Camilo declamava), na ânsia de recolher os poemas de Camilo Pessanha que se encontravam dispersos, começa a adicioná-los à Clepsydra e, mais tarde, em sucessivas edições, acaba por desfigurá-la tornando-a numa colectânea.

Recentemente, o Professor Gustavo Rubim, em publicação extra-texto da revista Colóquio-Letras nº 155/156, de 2000, elabora um nova Clepsydra. Para isso, vai elevar a importância da operação do livro (o que se passou entre o tempo das leituras e da escolha, à inscrição dos poemas em livro “vestígios, traços dispersos, que pela sua dispersão não cessam de interferir no processo de regressar aos textos para deles extrair ou com eles recompor o livro”, pág. 7), para daí elaborar uma nova ordenação de 37 poemas com a ajuda de uma nota encontrada no espólio de Pessanha, por Paulo Franchetti, com os primeiros versos de dez poemas precedidos de numeração romana de VIII a XVII, que estava colocada na contracapa de uma edição de 1920, entendendo que essa nota era o que restava de uma lista completa para a composição da Clepsydra, e assim justifica o seu ensaio-edição, fazendo-o não tanto pela vontade autoral, mas sim no interesse da poética do livro, “tratando-se sobretudo de pensar a leitura poética implicada na recomposição de uma ordem determinada pela destinação ao livro”, pág. 7. A questão que para nós se levanta, é se a nota encontrada no espólio do Poeta tem relevância suficiente para, digamos, reabrir o processo, e renunciar-se à primeira edição de 1920?

Cremos que não.

Desde logo, pela mencionada carta escrita a Ana de Castro Osório, onde claramente Pessanha agradece a publicação da Clepsydra, em conformidade com a ordem e ortografia acordadas; E, se formos seguir a conclusão de Paulo Franchetti, Pessanha também poderia de forma polida (sensibilidade não lhe faltaria certamente) ter lembrado a Ana de Castro Osório a existência de uma lista, e que determinados poemas e certa ordenação deveriam ter figurado na Clepsydra, mas desde a publicação do livro até ao falecimento do Poeta (seis anos), não se conhece por parte de Camilo Pessanha qualquer expressão em contrário à publicação da Clepsydra de 1920, ou de que esta deveria ou não deveria incluir determinados poemas; Por outro lado, como se sabe, Camilo era um desprendido e, portanto, não era uma pessoa cuidadosa e ordenada, isto para dizer que poderia pensar uma coisa hoje, anotá-la, e amanhã as ideias seguirem outro caminho. António Dias Miguel, na sua obra citada, refere que “concluímos que nunca foi intenção de Pessanha, dar publicidade sob forma de livro um conjunto de suas poesias (…) O que se passava com os poemas era o que se passava com tudo. Camilo era incapaz de ordenação e de esforço porfiado a longo prazo” (pág. 185).

(4) Último verso do poema Ao meu coração um peso de ferro (Clepsydra, pág. 51).

(5) Primeiro e segundo versos do segundo quarteto do soneto Estátua (Clepsydra, pág. 14).

(6) “Devolvo-lhe a carta da Sra. D. Ana…. “(Carta nº 19, Lencastre, ob. cit. pág. 49). Esta deverá ter sido a quarta carta, a resposta de Ana de Castro Osório à segunda carta de Pessanha, pois o Poeta restituiu as outras três a Ana de Castro Osório (estas inéditas até ao ano de 2000), nesta ordem : entre a declaração de amor e a resposta a esse pedido (20.10.1893), já Camilo tinha expedido o pedido de desculpas pelas palavras inoportunas (18.10.1893); e a resposta de Pessanha à carta de 20 de Outubro (sem data), reiterando que a amizade continuaria intacta, e que iria despedir-se da família Castro Osório antes da partida para Macau, cumprindo o pedido feito por Ana Osório. Pessanha não deixou que se percebesse a enorme tristeza que lhe ia pelo coração.

(7) O poeta António Osório (1933-2021), sobrinho-neto de Ana de Castro Osório, depois de muito ponderar resolveu tornar públicas três cartas até aí inéditas, na edição nº 155/156, da revista literária Colóquio/Letras, do ano de 2000, que por razões familiares lhe tinham sido entregues, sobre o pedido de Camilo para que aquela se tornasse na sua companheira. Considerou, Camilo, não ter sido hábil na declaração de amor que fez a Ana de Castro Osório e, dois dias depois, por carta já estava a pedir desculpa pelas “palavras inoportunas e desastradas que um estudante de colégio se envergonharia de as ter dito”. Em resposta ao pedido de Camilo, em carta datada de 20 de Outubro de 1893, Ana Osório, justifica “não poder aceitar o oferecimento porque prometera há muito tempo já, casar com outro homem” (pág. 46), o que veio a suceder cinco anos depois em 1898, contraindo matrimónio com Paulino de Oliveira. Ninguém da família sabia da existência desta correspondência, pelo que o sentido de privacidade de Ana de Castro Osório, foi cumprido, “Eu não disse nem digo a ninguém que recebi a sua carta e a sua declaração, que muito me envaideceria e que me alegraria se pudesse responder-lhe d’outra maneira” (pág. 47), cartas que sucessivamente depois do falecimento de Ana de Castro Osório, vieram a pertencer ao espólio do filho, o tal jovem João de Castro Osório, e depois à viúva, até chegarem às mãos do poeta António Osório. “É possível mesmo que eu nunca case, o que não acontecerá a V.Exa., que decerto encontra outra mulher que o faça feliz, como eu creio que faria, se nos tivéssemos encontrado antes. E como vai para longe esquecerá a mágoa que porventura lhe fará a minha recusa, mas não deixe de ter amizade como eu lhe terei sempre” (pág. 47). Camilo nunca casou, a amizade continuou, e a correspondência foi reatada vinte e três anos depois da falhada declaração, e em carta datada de 5 de Novembro de 1916, continua apaixonado na mesma : “toda a minha intensa vida afectiva se sustenta da lembrança e do amor de três ou quatro pessoas com quem eu me encontro de anos a anos, e entre as quais, desde a minha última estada em Portugal, V. Exa. ocupa o primeiro lugar” (Carta nº 31, Lencastre, ob. cit. pág. 78). Mas o esperado sinal para algo mais por parte de Ana de Castro Osório, entretanto viúva, nunca chegou. Camilo esteve em Portugal pela última vez em finais de 1915 até princípios de 1916, e deverá ter sido nos encontros que teve quer nos serões que passava na residência dos Castro Osório, onde recitava com grande eloquência os seus poemas, quer em situações de mais recato, que Pessanha deixou à sua musa a ordenação e a escolha dos poemas que viriam a constituir a Clepsydra, que veio a ser publicada em 1920, pela Editora Lusitânia, cuja proprietária era precisamente Ana de Castro Osório.

(8) Carta nº 19, a Alberto Osório de Castro (Lencastre, ob. cit., pág. 50).

(9) Clepsydra, págs. 46 e 47.

(10) Assim explica Vladimir Nabokov, no posfácio a Anna Karenina de Lev Tolstoi, na edição da Relógio D’Água, de 2006.

(11) O casal amigo de Camilo, ficou hospedado no hotel Boa Vista, que mais tarde viria a mudar o nome para Bela Vista.

(12) A clássica despedida de Pessanha, aqui traduzida livremente por: Vou indo, pelo mau vento andando. Refere-se a dois versos do poema Canção de Outono, de Paul Verlaine (incluído em Poemas Saturnianos e Outros, Assírio e Alvim, 1994, pág. 84 e seguintes), um dos poetas que mais seguiu.

 

Nota Final: Como a esposa de Alberto Osório de Castro, cento e tal anos depois lemos e relemos os poemas de Camilo Pessanha e saímos das leituras quase na mesma. Esther de Lemos, resume bem o desafio que se tem pela frente: “Em suma, uma poesia impenetrável, resistente às interpretações biográficas e às catalogações histórico-culturais. Uma poesia que se contenta em ser, renunciando a revelar” (Estudos Portugueses, Elementos do Sudoeste, 2003, pág. 274). Solicitando a ajuda de Susan Sontag, através de um ensaio já com alguns anos (1964), Contra a Interpretação e Outros Ensaios, na tradução portuguesa da Assírio e Alvim, de 2022, a escritora refere que em face da efusão de interpretações muita da arte actual pode ser entendida como estando motivada por uma fuga à interpretação. (…) “muita da poesia moderna a começar pelas grandiosas experiências da poesia francesa (incluindo o movimento enganosamente intitulado “simbolismo”) no sentido de inserir o silêncio nos poemas e restabelecer a magia das palavras, escapou ao domínio férreo da interpretação”, pág. 25. Embora não pertencendo a qualquer escola, Pessanha enquadra-se perfeitamente nesta leitura. Diz ainda Sontag, que “nos dias de hoje, o que é importante é recuperarmos os sentidos. Temos de aprender a ver mais, a ouvir mais, a sentir mais”, pág. 29. É bem verdade que, tal a maneira como ele truncou os poemas que escreveu, poucos conteúdos temos para saber o que pensava, mas em contrapartida podemos olhar para outros aspectos dos poemas, mais reais, que nos deixam suspensos e maravilhados, perguntando-nos onde foi desencantar aqueles estranhos e obscuros vocábulos, como conseguiu jogar determinados versos para sugerir aquela musicalidade, os ritmos marcados pela pontuação, e como ficam bem a desordem sintáctica e a redundância. Se formos por aí, é um começo… mas duvido também que cheguemos longe. É que, diz-nos ainda Esther de Lemos, por mais notas ou comentários que se acumulem à margem dos textos, aquela orla de luminoso mistério ficará para sempre intacta (ob. cit. pág. 279). Julgamos que reside aqui uma das razões da perenidade da obra de Camilo Pessanha.

*Funcionário público aposentado