“É um valioso contributo para melhor se conhecer o trabalho pluridimensional de Luís Gonzaga Gomes e o seu amor à cultura e à história de Macau.”
António Aresta, no prefácio da edição
Em Setembro de 2014, o Instituto Internacional de Macau (IIM) publicou um opúsculo com quase 60 páginas, que teve por título “Luís Gonzaga Gomes e uma produtiva cooperação cultural Macau – Portugal – Brasil”, da autoria de Carlos Francisco Moura, conhecido investigador do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, emblemática instituição que manteve estreita colaboração com o IIM durante muitos anos, quando foi seu presidente o Dr. António Gomes da Costa, destacada personalidade e saudoso amigo que presidiu também à Confederação das Associações Portuguesas e Luso-Brasileiras do Brasil.
Carlos Francisco Moura, que tem importante obra publicada sobre temas históricos relacionados com Macau, a China e o Japão, revelou neste seu trabalho a relação epistolar que desenvolveu com o escritor e historiador macaense, de que resultou uma profícua cooperação entre o Instituto Luís de Camões, com sede em Macau, e dirigido por Luís Gonzaga Gomes, e diversos organismos culturais de Portugal e do Brasil.
Intervenção decisiva de Agostinho da Silva
Carlos Francisco Moura, que nunca chegou a ter um contacto presencial com Luís Gonzaga Gomes, lembrou, na introdução a este seu trabalho, como essa relevante colaboração começou, com a útil e sempre lúcida e consequente intervenção de Agostinho da Silva, mestre maior da cultura portuguesa:
“Em 1968, com a situação política se agravando no Brasil – a invasão da Universidade de Brasília pelo Exército e outras ameaças –, o Prof. Agostinho da Silva começou a se preocupar com a sobrevivência do CBEP (Centro Brasileiro de Estudos Portugueses). Tendo conseguido vir para o Brasil, depois de preso por motivos políticos em Portugal, ele desenvolveu intensa atividade cultural nas Universidades de Santa Catarina, Bahia, Paraíba e Brasília. Mas suas ideias libertárias e utópicas despertavam suspeitas dos então detentores do poder. Reuniu assim os professores, e disse: – Do jeito que a coisa vai, o CBEP será implodido e, portanto, antes que isso aconteça, vamos organizar a diáspora. Foi determinando o rumo que cada um deveria seguir, e me deixou por último.”
Agostinho da Silva quis saber se Carlos Moura tinha dinheiro para a passagem de avião para Portugal e, ao saber que tinha para a ida, mas não para o regresso, nem para se manter lá, recomendou:
“– Se tem para a ida, embarque logo. O resto a gente resolve depois. Desembarcado em Lisboa, siga para Évora, no Alentejo, e procure o Dr. Petronilho, na Câmara Municipal, e o Dr. Armando Perdigão, na Junta Distrital. Lá, a Câmara tem uma casa vazia no Jardim Infantil, que conseguimos pusessem à disposição dos bolsistas do Brasil. Você fica lá sem pagar aluguel, e, enquanto isso, procuramos obter uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, para você se instalar em Lisboa e pesquisar na Torre do Tombo, no Arquivo Histórico Ultramarino, na Biblioteca Nacional e em outras instituições, para prosseguir nas pesquisas iniciadas no CBEP. Enquanto a bolsa não sai, você permanece em Évora, pesquisando os mesmos assuntos na Biblioteca e Arquivo Distrital de Évora. E aguarde lá os acontecimentos.
Entretanto, a bolsa demorou muitos meses mais do que o previsto, e eu continuei à espera, em Évora. Enquanto isso, para me manter, consegui algum trabalho, e com o resultado das pesquisas em Évora, e com o material que tinha trazido do CBEP, escrevi alguns artigos que foram publicados em revistas de cultura de Évora e de Lisboa. (…)
Em Évora, prossegui na pesquisa sobre a presença dos portugueses no Japão, contando com a colaboração e a simpatia do então diretor da Biblioteca, Dr. António Leandro Alves. Os artigos não eram pagos, mas as revistas forneciam aos autores um bom número de separatas. Sabendo que eu estava com dificuldades, meu saudoso amigo, o escritor António Telmo Vitorino, colega do CBEP, sugeriu que eu fosse da parte dele procurar o escritor António Quadros, então diretor das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, e ele adquiriu um bom número de separatas dos meus artigos.”
A correspondência com Luís Gonzaga Gomes
Foi Agostinho da Silva que, de Brasília, escreveu a Luís Gonzaga Gomes, mandando-lhe o endereço de Carlos Francisco Moura em Évora:
“Luís Gonzaga Gomes escreveu-me e solicitou que conseguisse microfilmes de documentos sobre Macau existentes em Évora, e também que escrevesse artigos para publicação no Boletim do Instituto Luís de Camões, do qual era presidente. Não havia, na Biblioteca de Évora, equipamentos para microfilmagem, e a contratação de um fotógrafo, mesmo não especializado, era muito cara. Mas, na época, estava pesquisando em Portugal a Prof.ª Maria de Lourdes Ribeiro, de Moçambique, e aprendi com ela a microfilmar com uma câmara Asahi Pentax, e realizei os trabalhos solicitados por Luís Gonzaga Gomes.
Foi numerosa a correspondência que mantive durante vários anos com ele. Entretanto, em decorrência das sucessivas mudanças de residência, em Portugal e no Brasil, a maior parte dela se extraviou. Mantenho apenas cinco cartas de Luís Gonzaga, quatro datadas da Calçada do Monte, 8, Macau, China, e uma, do Instituto Luís de Camões, Largo de Sto. Agostinho, 3, Macau (Via Hongkong).”
Dessas cinco cartas, a mais antiga, de 20/4/1970, foi remetida para o endereço de Carlos Moura em Évora. Nela, Gonzaga Gomes acusou o recebimento da última bobine de microfilmes de documentos que Carlos Moura havia enviado e solicitou microfilmes de outros documentos, incluindo o de uma “História de Macau”, a que ele nunca tivera acesso e constava existir na Biblioteca de Évora. Esse microfilme e fascículos dessa obra foram publicados no Boletim do Instituto Luís de Camões. A carta seguinte, datada de 26/12/1971, foi enviada para o Rio de Janeiro, onde Carlos Moura já se encontrava de volta. Agradeceu novamente os microfilmes e voltou a pedir textos para o Boletim do Instituto, “principalmente o que respeita à primeira fortificação de Macau, que causará, certamente, grande sensação entre os que têm escrito sobre a história desta terra”.
Na carta de 5/5/1973 Gonzaga Gomes agradeceu a remessa do microfilme do manuscrito do século XVIII (“Relação da Viagem de Diogo Baduen à China”), e deu informações sobre a publicação de números do Boletim do Instituto Luís de Camões. Na de 21/5/1973 agradeceu novamente o envio do microfilme e referiu as separatas de um estudo de Carlos Moura sobre Tristão Vaz da Veiga. Finalmente, na carta de 11/6/1975, Gonzaga Gomes agradeceu os elogios ao seu estudo “Macau na época de Filipe II” e comentou a repercussão do 25 de Abril: “Em Macau tem com efeito havido certa comoção com a mudança da situação política na metrópole, mas encontra tudo serenado, procurando todos trabalhar para o progresso da terra”. E também deu informações pessoais: “Eu encontro-me reformado e deixei de trabalhar na Emissora. Passo os dias em casa, com minha imensa colecção de cassetes e discos de gramofone, a ver a televisão (não a de cá, mas vê-se e colorido os quatro canais das duas estações de Hongkong com extraordinária nitidez o que me dispensa de sair para ir ao cinema), e a decifrar os documentos da Biblioteca de Évora, de que, há anos, me fez o inestimável favor de obter o respectivo microfilme.”
Pouco depois do falecimento de Gonzaga Gomes (1976), Carlos Francisco Moura deixou de receber exemplares do Boletim do Instituto Luís de Camões e, no Rio de Janeiro, nunca encontrou colecções completas desse periódico.
* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.



