Visualizei a mais recente curta-metragem de Danting Chen (陳丹婷 Chan Tan Teng em cantonense), Family Trip, com duração de 10 minutos. O filme teve a sua estreia recente no Toronto Black Film Festival e no Pan African Film & Arts Festival. Nesta película, Danting aborda uma “distração absurda” através dos vários subentendidos relacionados com o racismo e os refugiados ou migrantes africanos na Itália. A realizadora ainda tem uma visão crítica em como as crianças se podem tornar vítimas na complexidade do mundo dos adultos.
Danting Chen é uma das minhas poucas amizades chinesas em Berlim. Há dois anos fomos, ao mesmo evento de cinema queer chinês, mas só há um ano nos conhecemos e falámos pessoalmente. Encontramo-nos apenas antes do “lockdown” completo na capital alemã. Temos uma diferença nas respectivas línguas maternas chinesas: Danting tem como línguas maternas o dialecto de Yunnan e o mandarim, enquanto no meu caso é o cantonense.
Um factor que estimula a criatividade de Danting é a sua identidade como uma cineasta da província de Yunnan dos Baip, uma das 55 minorias étnicas oficiais da República Popular da China. Nascida em Qǔjìng, cidade vizinha da capital desta província chinesa, Kūnmíng, em 1995, e licenciada e mestre em arquitectura em Xangai e em Berlim, Danting é, desde 2016, uma montadora e colorista em cinema nessa “cidade de liberdade”.
“Family Trip” não é a sua primeira tentativa de esclarecer a complexidade identitária que a jovem cineasta confronta: realizou em 2019 uma outra curta-metragem, “Accident”, na qual ela própria aparece como uma das protagonistas e fala directamente sobre um mosaico de identidade das duas irmãs chinesas que vivem em Berlim.
“Family Trip” é fruto da participação de Danting num evento de cinema “Kino Guarimba” do ano passado, em Amantea, um dos pontos de chegada dos refugiados ou migrantes africanos na Itália. Mas em vez de retratar a problemática de uma maneira directa, Danting preferiu apresentar a sua visão de mundo através de uma justaposição de vários subentendidos cinematográficos. E, em vez de contar uma história, em linha recta, que vitimizaria os refugiados ou migrantes, optou por falar como uma infância pode ser destruída por algumas “distrações absurdas” provocadas pelo mundo de adultos.
Os Baip não estão, a nível mundial, entre as mais conhecidas minorias oficiais chinesas, mas a província chinesa de Yunnan, é conhecida pelos seus turistas domésticos ou internacionais como um cadinho de diferentes culturas. Quando coloquei a pergunta a Danting de como a sua narrativa cinematográfica poderia ser diferente da maioria, dos Han, respondeu com um só caracter chinês,野, o ser-se selvagem. Nas suas próprias palavras, selvagem porque é“primitivo, selvagem” porque é “exótico, selvagem porque se trata de “um regresso à vida”, “um regresso às origens” e à poética no seu próprio sentido.
No entanto, tudo isso não é para ver na sua nova curta-metragem “Family Trip”. Em contraste, Danting inseriu a serenidade, a lentidão, não obstante com exactidão. Exacto é como tentou apresentar aos seus espectadores um entrelaçamento e uma multiplicidade numa narrativa discreta. Procurei impedir-me de julgar este modo de contar uma história como algo “da Ásia Oriental” ou “Ásia confucianista”, mas a maneira da qual os cineastas desta Ásia narram uma história “não-leste-asiática”, é, para mim, algo intrigante, ao mesmo tempo em termos estéticos e filosóficos.
A história de “Family Trip” é algo simples. Simples no sentido que Danting, como me mostrou, não quis criar uma história no sentido clássico do termo. A curta-metragem é composta por uma sequência de eventos: um pai afro-italiano (interpretado por Saddiq Abubakar), o seu filho e a sua namorada (interpretada pela actriz portuguesa e sul-africana Salber Lee Williams) numa “family trip” no sul da Itália. Quando o casal estava a ter o seu momento romântico, o filho estava sozinho na praia e conheceu uma menina italo-romena, que lhe perguntou de imediato: “Chegaste de barco?”
Enquanto Han e antropólogo visual, não consegui evitar cometer o pecado antropológico de ver a minha compatriota com um certo exotismo doméstico. “Como é a selvageria de uma Baip? Como é diferente esta selvageria no filmar de um Baip comparativamente à de um Han?”
Danting revelou-me o nome de Bi Gan (畢贛), oriundo da província Guìzhōu e da minoria oficial Miao, um cineasta emergente que teve sucesso internacional com a sua primeira longa-metragem “Kaili Blues” (2015). O seu filme mais recente “Un grand voyage vers la nuit” (2018) foi seleccionado para “Un certain regard” em Cannes.
No seu “Family Trip”, Danting criou expressamente uma história com diversas situações absurdas: depois do momento romântico do casal no hotel, voltaram à praia e aperceberam-se que o seu filho desapareceu. Este primeiro absurdo – deixaram o filho na praia sozinho – é seguida por uma segunda situação absurda: em vez de continuarem a procurar, envolveram-se numa luta com os pais da menina italo-romena que, entretanto, se tinha afogado, pelo que desesperados e furiosos acusaram o casal e o seu filho africanos. Há ainda mais uma situação absurda: o casal italo-romeno deixou igualmente a filha na praia, sozinha.
A realizadora é muito clara na sua intenção. Não foi à Itália produzir um filme para explorar o tema dos refugiados ou migrantes e problematizar ou vitimizar as suas experiências. Foi a Amantea para contar uma história com a sua própria poética e narrativa. O poeta Rainer Maria Rilke escrevia “Kunstwerke sind von einer unendlichen Einsamkeit und mit nichts so wenig erreichbar als mit Kritik” (As obras de arte são de uma solidão infinita: nada pior do que a crítica para as abordar.)
Sempre acreditei e ainda acredito no instinto ou impulso ao visualizar uma obra de arte: não faço julgamentos, pois, na minha modesta opinião, acho que uma obra de arte é algo que existe com a sua própria razão. Assim, fico contente por ter conhecido a narrativa cinematográfica da cineasta chinesa da minoria Baip, Danting Chen.
*Natural de Macau onde foi intérprete-tradutor até 2013 vivendo desde então na maior parte do tempo na Europa (Alemanha e Bélgica). Autor do filme experimental “uma ficção inútil” com sucesso internacional. Actual doutorando em antropologia visual e média em Berlim.



