Um enorme rolamento em aço de cerca de metro e meio de diâmetro exterior, e de largura uns bons cinquenta a sessenta centímetros, daqueles que preso por enormes correntes e pendurado numa grua faria o mesmo serviço daquelas bolas de ferro que se utilizam para destruir edifícios. Estava colocado logo à entrada numa armação que o fazia girar vagarosamente, e assim recebia os clientes que se dirigiam à Antunes Freixo, Importadora S.A., na Rua Florêncio de Abreu nº 297, em São Paulo, para comprar as mais diversas ferramentas.

Nesse tempo, muitos retornados foram para Portugal, quase todos nunca tinham lá estado anteriormente, outros tentaram as novas vidas em alguns países da Europa, pelo Brasil, e mesmo para Macau. Por razões que não interessam, fui para São Paulo. Quem sai da aldeia laurentina e aterra nessa metrópole, a diferença é brusca. Em Lourenço Marques quando saí de lá não havia televisão e, de repente, estamos a ver Francisco Cuoco, no papel de um taxista malandro que acaba por ficar com dinheiro de gente perigosa esquecido num dos táxis, estrelando também Betty Faria, Lima Duarte, Rosamaria Murtinho, e Lady Francisco, como Rose, a provocante secretária de Carlão (Cuoco), na inesquecível novela Pecado Capital.

Por vezes parecia que estávamos numa película de Sergio Leone, agentes policiais de cinturão com balas, coldre ajustado à perna com uma fita de cabedal donde aparecia um ameaçador revólver. Nas rusgas, o “mão pá cabeça!” era perfeitamente entendido, e para mostrar a caderneta de trabalho, os movimentos tinham de ser calmos e avisados porque aquela gente era um pouco nervosa. Aqueles cowboys urbanos não procuravam só foras-da-lei, mas também subversivos. Uma pronúncia diferente era um princípio de suspeita: Cê é argentino? Não, não, português. Na altura não havia essa estrela planetária para nos safar, apenas o grande Jacinto João – J.J., na Portuguesa de Desportos, um desconhecido. Ao menos as brasileiras adoravam o nosso sotaque.

Aos domingos de manhã, ia-se de ônibus para as praias de Santos, ou então assistir aos jogos do campeonato paulista, no Estádio Pacaembu. O Santos contra o Corinthians era um problema, já que as duas equipas vestiam (vestem) de branco e preto, e as bandeiras dos adeptos eram igualmente da mesma cor. Uma escolha errada do lugar da torcida e… é melhor ser agente infiltrado do que orgulhoso, e eu que tenho alma corintiana sei bem do que estou a dizer.

Enfim, fui parar à secção de rolamentos dessa firma enorme que vendia correias, mangueiras, aparelhos de corte e medição, ferramentas manuais e eléctricas, etc. Para quem conhecia rolamentos dos carrinhos que em garoto descia a toda a brasa as rampas atrás do Polana, os diversos tamanhos, marcas e números, era um mundo desconhecido. Os vendedores acertavam as vendas e despachavam os pedidos para os separadores. Pedido na mão, o olhar sem fim para aquelas prateleiras… Como é que é cara, tá perdido? começavam os brasileiros a gozar. Levou tempo.

Ocasionalmente, levava correio para o terceiro andar onde ficavam os gabinetes da direcção. Numa dessas vezes que me mandaram aguardar na sala de espera, foi quando eu vi protegidas por um caixilho de acrílico transparente afixado na parede, três cartas: um pedido feito por Cesário Verde em nome da loja do seu pai, para aquisição de diversas ferramentas de carpintaria – enxós, plainas manuais, serras manuais, outras para corte transversal, berbequins, etc, datado de 26 de Agosto de 1884, uma carta de conforto emitida pela sucursal do Banco do Brasil em Lisboa, e a cópia da resposta a Cesário Verde, assinada pelo fundador da empresa, com data de expedição de 18 de Novembro desse ano. Antes da saída de Moçambique já tinha lido, assim pela rama como se costuma dizer, alguma poesia moçambicana – Craveirinha, As Mangas Verdes com Sal, do Knopfli, e Reinaldo Ferreira. Portugueses não, só Camões na escola, mas aí fiquei a conhecer um dos maiores da nossa língua. Rezava, assim, a tal resposta:

Excelentíssimo Senhor Cesário Verde

Deixe-me começar por agradecer a V.Exa., ter escolhido a nossa empresa para neste momento satisfazer as necessidades comerciais da José Anastácio Verde, Lda., e, mesmo avisado sobre a sua exigência literária e rigorosa observação gramatical, sobre aqueles que fora do seu círculo de amizades com V.Exa. se relacionam, não podia perder esta oportunidade de escrever para si. É que a empresa tem assinaturas de vários jornais e revistas de Lisboa e do Porto, e temos lido e seguido com muito interesse os poemas que nesses jornais faz publicar, como também nos tem chamado a atenção alguma indiferença e apressada incompreensão por parte de gente que se pensava mais capaz.

Apesar de ser empresário, e de entender que é nesta metrópole que me realizo, não esqueço o campo pois vim de uma pequena aldeia, Penela, perto de Miranda do Corvo, e, pelo que tenho entendido dos seus textos, o campo representa para si o refúgio da “Babel contaminada”, mas seria redutor ver na sua poesia apenas o confronto entre a cidade e o campo. É muito mais, é bela e sugestiva, e difícil, bastando uma leitura atenta para se comprovar isso. Parece fácil cristalizar as impressões que capta nas suas deambulações pelas ruas de Lisboa, das cenas dos calceteiros, carpinteiros, viajantes, vamps, e varinas de ancas opulentas, e a simpatia que tem com os protestos dos mais humildes, mas também a sua poesia está longe de ser militante. Se a sua fase juvenil como gostam de desmerecer, já traz Esplêndida e Setentrional por exemplo, imagine-se a sua fase de maturidade aos vinte e poucos anos. Deixando para trás o mau humor de Contrariedades, a vontade de proteger a Débil da ameaça das batinas, passando por um Bairro Moderno, estou a vê-lo de fato azul, sapatos amplos, passada larga, todo british se me permite, a caminhar junto ao Tejo para Santa Apolónia, depois pelo Aljube, Sé, e a descida para a Baixa, ao crepúsculo debaixo de uma neblina londrina, nessa via dolorosa que é o Sentimento dum Ocidental. Apreciei a sua ironia, quando enviou este extraordinário poema ao jornalista do Jornal de Viagens para ser inserido numa edição especial do 10 de Junho de 1880, ao vincar que a sua contribuição se ligava perfeitamente ao grande facto que se pretendia celebrar, o terceiro centenário do falecimento de Camões. Um renomado professor de Letras, que não lhe irei revelar o nome, lembra que dos cento e setenta e seis versos que compõem o poema, as suas únicas alusões ao autor de Os Lusíadas, foram a proeza do salvamento a nado de um livro qualquer, e noutra quadra sem sequer mencionar o nome do Poeta, que num recinto público vulgar um épico doutrora estava colocado num pilar, motivo que considera ser um gesto edipiano para com o predecessor. Talvez tenha razão. Seja como for, nunca vi poema tão discutido.

Sobre o material pedido, não se preocupe que dentro em breve será expedido para Lisboa, até porque a sucursal do Banco do Brasil, garantiu-nos a integridade comercial e financeira do vosso estabelecimento.

Com elevada estima e consideração, envio-lhe os meus cumprimentos,

Manuel José Antunes Freixo

 

Uns dias depois, numa pequena livraria perto da estação de São Bento, subindo a Florêncio de Abreu, comprei uma edição do Livro de Cesário Verde.

 

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Bibliografia: Maria Ema Tarracha Ferreira – Introdução ao Livro de Cesário Verde; M.S.Lourenço – Agonia até à Madrugada, em O Caminho dos Pisões; Hélder Macedo – Nós, uma leitura de Cesário Verde; Trinta Leituras; David Mourão-Ferreira – Colóquio Letras nº 135/136; José Carlos Seabra Pereira – Em Demanda da Perfeição das Coisas, em Revista Prelo-INCM, nº 12; O Livro de Cesário Verde, com posfácio e fixação do texto por António Barahona; Cesário Verde – Cânticos do Realismo e Outros Poemas, mais 32 Cartas, edição de Teresa Sobral Cunha.

 

*Funcionário público aposentado