Júlia Serra*
Júlia Serra*

No Livro “Macau Poder e Saber”, com focalização até ao século XVI e a primeira metade do Século XVII, o autor, Luís Filipe Barreto (LFB), fornece ao leitor, para além da situação geográfica de Macau, uma ampla visão multicultural, onde pululam as transformações do passado – uma aldeia de pescadores onde chegaram os navegadores portugueses – até um crescimento que se foi ordenando com vista à organização de um empório marítimo-comercial entre a Europa e o Sudoeste Asiático.

Esta obra resulta da formação pessoal e cultural do autor, de um estudo perseverante e do conhecimento adquirido in loco, aquando das suas funções exercidas em Macau, director do Instituto de Estudos Portugueses da Universidade de Macau e em Portugal como como presidente do Centro Científico e Cultural de Macau, I. P.

Relembra-se que LFB tem uma vasta obra no âmbito da História e da Cultura Portuguesa e Euroasiática, para além de funções diversas exercidas: em 1998, foi Professor Visitante/Diretor de Investigação da École des Hautes Études en Sciences Sociales, (Paris) e, em 2000, Professor Visitante em Universidades de Beijing, Shanghai, Hefei. Fez doutoramento em Cultura Portuguesa pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e é/foi Professor Catedrático de História da Faculdade de Letras daquela Universidade. Desde 2019, é Diretor do Centro de História da Universidade de Lisboa.

A obra “Macau Poder e Saber” é constituída por duas partes: na primeira parte constam os poderes económicos, sociais e políticos que configuram a realidade de Macau, por volta de 1555 (século XVI), altura em que Fernão Mendes Pinto assinala como data do “nascimento de Macau” e, depois, há uma análise retrospetiva da chegada dos portugueses ao Sudeste Asiático e Ásia Oriental, concretamente a Malaca, em 1509. De seguida, há a retoma da história de Macau e referência aos acontecimentos mais influentes e à expansão operada até meados do século XVII.

Na segunda parte do livro, remanescem temas mais culturais onde sobressaem as relações entre Macau e China, problemas sociais resultantes das migrações de vários povos e um aprofundamento das relações entre portugueses, macaenses e chineses, mencionando já a miscigenação. É, em súmula, um estudo que permite ao leitor compreender as origens de uma pequena aldeia de pescadores, transformada em cidade portuária e, hoje, um centro turístico destacável e uma plataforma do mundo lusófono – um ponto de encontro entre o Ocidente e o Oriente, em que Portugal, com a sua situação privilegiada, assume um papel de mediador e de construtor de novas identidades favorecidas pela divulgação da Língua Portuguesa.

No encalço do autor, a obra Caminhos do Saber no Renascimento Português forma um conjunto de investigações sobre a História da Cultura Portuguesa do séc. XVI e a Teoria da Historicidade do Cultural Discursivo. Caminhos do Saber – Estudos da História e Teoria da Cultura – é formado por dois Livros que formam diferentes acentuações da História da Cultura, sendo a primeira sobre a vertente prática e a segunda essencialmente teórica. As duas constituem a verdadeira História, dado que não pode existir “exercício documental separado da teorização monumental.” Assim sendo, o Livro I é constituído por Lógicas do Saber na Cultura do Renascimento e História da Cultura Discursiva e o Livro II versa sobre a Lógica Cultural: uma Introdução à História da Cultura.

Profundo conhecedor e analítico dos teorizadores da Cultura, LFB restringe a sua análise sobre História da Cultura a um Uno Múltiplo, sendo os Caminhos do Saber a História da Cultura (agregado disciplinar múltiplo). Assim, Caminhos do saber “é um contributo para o conhecimento dessa complexidade a partir duma concreta e posicionada figura desse saber” (p.14).

Segundo o autor, a Cultura do Renascimento Português (meados do séc. XV-XVII) assenta em três núcleos básicos: Escolástico, Humanista e Racionalista Pragmático-Experiencial. É um campo aberto para investigações e análises de influências exteriores. Há, contudo, áreas já mais aprofundadas, para além da amplitude dos contributos das várias ciências, da autoria de D. João de Castro e de Cristóvão da Costa que forneceram um exemplar programa de investigação sobre a Sabedoria do Mar.

A ingente obra de LFB desenvolve as complexas teorias e estudos legados, com intuito de mostrar ao mundo as palavras escritas por Alexandre Koyré (que ele próprio selecionou): “As histórias do pensamento filosófico e científico dos séculos XVI e XVII estão, com efeito, tão profundamente entrelaçadas e conjuntamente ligadas que, separadas, tornam-se incompreensíveis” (C. I. p.29).

Numa linha sequencial do exposto, mas focalizando alguns aspetos mais concretos sobre o Oriente, em perspetiva temporal e de entrelaçamento de culturas, reconhece-se que o Poder e o Saber estão associados ao nível político, social e religioso e que os próprios agentes do Poder transformaram, por vezes, as suas estratégias em agentes do Saber – o facto dos portugueses beneficiarem de uma presença mais longa no Oriente favoreceu a sua ação em núcleos populacionais, com regras regionais diferentes, gerando uma complexidade de equilíbrios/desequilíbrios dentro dos mesmos espaços – como em Macau e Nagasaki.

Um aspeto não menos importante e decisivo para a expansão dos territórios deve-se à chegada dos missionários, sobretudo jesuítas, que contribuíram para a defesa dos interesses dos portugueses através do padroado régio. A criação da diocese da China em Macau e, mais tarde, o bispado em Manila, foram determinantes na delimitação territorial da diocese da China, o que não evitou divergências e perseguições futuras (com expulsões e mortes) devido às crenças, religiões e a novos sistemas políticos.

Os primeiros impactos causados aos jesuítas – nas missões chinesas e japonesas (Macau, 1586-87), os martírios de religiosos no Japão (Nagasáqui, 1597) e a expulsão dos missionários do território (1614) – abalaram a relação entre os franciscanos e dominicanos causando desgaste e degradação. A intervenção do Tribunal de Santo Ofício (Inquisição) e a atuação /jurisdição sobre as comunidades diferiam das respetivas Coroas (portuguesa e castelhana), apesar de os territórios, a que estavam vinculados, terem características semelhantes. Os contextos exemplificativos abordados permitem aferir questões epistemológicas e deontológicas do poder e do saber, considerando na sua génese as diferenças culturais e as coordenadas espácio-temporais.

Ler Luís Filipe Barreto é descobrir os limites de Portugal, aprender a nossa História, viver a cultura que ajudamos a construir e apreender as relações identitárias que, outrora, criamos e, hoje, são a ponte do Futuro.

 

*Docente. A autora escreve sob o novo Acordo Ortográfico que não está oficialmente em vigor em Macau