Não é a primeira vez que me refiro a António Graça Abreu, mas a influição e hibridez da sua obra justificam releituras diversificadas do seu espólio literário e da atividade profissional desenvolvida. ´Possuidor de um currículo invejável e profundo sinólogo lançou-se, com Carlos Morais José ou isoladamente, nas traduções de chinês para português. Licenciado em Filologia Germânica, mestre em História da Expansão e dos Descobrimentos Portugueses, foi professor de Português em Pequim e tradutor nas edições de Pequim em Línguas Estrangeiras.
Viveu em Pequim e Xangai, entre 1977 e 1983. Para além disso, em Portugal, foi assistente convidado, lecionando Sinologia no Instituto de Estudos Orientais da Universidade Nova de Lisboa, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, em Lisboa, entre 2012 e 2020, e, atualmente, na Universidade de Aveiro. Lecionou ainda cursos livres de Sinologia na Missão de Macau, em Lisboa, depois Delegação Económica e Comercial de Macau, entre 1990 e 2003, e na Fundação /Museu do Oriente, desde 2009. Organizou, com Carlos Morais José, e traduziu parte para português, a antologia “Quinhentos Poemas Chineses”, que teve duas edições, uma em Macau em 2013 e outra em Lisboa em 2014.
Além disso, a sua vasta bibliografia justifica a reativação memorial deste investigador portuense. Atentemos no livro “O Tao Te Ching” ou “Dao de Jing”, traduzido como “Livro da Via e da Virtude”; uma edição de 2013, bilingue, com tradução (direta do chinês), com prefácio e notas de António Graça de Abreu. É um livro muito antigo, considerado ter sido escrito entre 350 e 250 a. C. que levanta algumas dúvidas pela sua vetusta idade, sobretudo em relação à vida do autor. Foi a História, através dos ensinamentos e do Governo de L.ao Zi e de Confúcio que Han Jingdi (filho do imperador Han Vendi), quando sucedeu ao trono, ajudou a fidelizar a autoria da obra, atribuindo ao livro o nome de “Tao Te Ching”, segundo parecer de A. Graça de Abreu (Macau Antigo, 6 de Maio de 2013).
No início do séc. XIX, Manuel da Silva Mendes, português, radicado em Macau, sendo professor e advogado, publicou uma resenha intitulada Lao-Tze, Lao-te- King, resultante de uma conferência proferida no Grémio Militar, abordando o Taoismo. Revelou, assim, a anunciação do seu interesse pelo tema e a projeção de homem culto e atento às religiões/princípios em Macau. De seguida, em 1930, Manuel da Silva Mendes publica um novo estudo intitulado “Excertos de Filosofia Taoista”.
Este aprofundamento do Taoismo desperta em Luís Gonzaga Gomes, também um estudioso de renome, um interesse especial, originando, em 1952, a primeira tradução direta do chinês para português do Tao Te Ching. Relembra-se que o Padre Joaquim Guerra traduziu igualmente o Tao Te Ching, sendo, depois, apelidada esta obra de Lao Zi de “Daow-Tec-Keg”.
Esta livro foi o veículo para o estudo do pensamento taoista, “para libertar o homem do pensamento convencional e de uma moral social rígida, como a defendida pelo confucionismo, e procurando viver de um modo mais espontâneo, em harmonia com o que é natural” (António Miguel de Campos, Via do Meio, Nº1, p.42, 2023). Neste valioso exemplar, o equilíbrio surge, ao longo dos capítulos, como a maior virtude do homem traduzida no desapego do próprio “eu”: “O Homem Sagrado não é bondoso/Trata os homens como cães de palha.”
Para além da temática do equilíbrio, do desapego ao mundo, outras temáticas surgem implícitas ou por associação, como a diplomacia, a humildade e a solidariedade – todas estas vertentes expressam os valores humanos que dignificam o homem, estreitando a relação com a vida mais “Zen” liberta das tensões quotidianas, pelo reconhecimento da brevidade da vida. Sendo os capítulos constituintes bastante difusos, eles constituem um todo que sugere um caminho novo, onde impera a sabedoria chinesa. Para além da filosofia Zen, as alternâncias dos aspetos yin (negativo) e yang (positivo) figuram neste pensamento, porque o Tao resulta de um todo representativo da responsabilidade. Poder-se-á dizer que neste caminho está a felicidade, o combate aos exageros, a estima pelo outro, a humildade – em contraponto com a competitividade – o amor ao próximo e uma visão mais ecológica do universo.
Estes aforismos remetem-me para a “Virtuosa Benfeitoria”, obra concluída em 1418 pelo Infante D. Pedro, filho de D. João I – obra estreitamente ligada a “De Beneficiis” de Séneca. Há neste livro referências e citações ao Antigo e Novo Testamento, de S. Paulo, Santo Agostinho e de S. Tomás de Aquino, além de Aristóteles e Cícero. É um exemplar de moral prática que visa, essencialmente, a educação dos nobres – ex: Distingue também entre o principe “singularmente”, isto é, a pessoa do Principe, e o principe “com toda a comunidade da sua terra” por meio do qual se actualiza na terra o ordenamento divino pois exerce o seu poder “em o stado moral que perteece aa governança do mundo”, cabendo-lhe “trabalhar pollo proueyto dos que a elle ficam sobiectos”, o dever de exercer a “virtuosa benfeitoria”.
A educação do Príncipe e dos nobres está muito bem redesenhada no livro “O Príncipe” de Maquiavel” (séc. XVI). Nicolau Maquiavel, homem de pensamento brilhante, esteve sempre envolvido na ideologia política e oponente dos Médici, apesar de esforços para reconquistar a sua confiança em vão, acabou por ser preso e torturado até ao exílio. A obra “O Príncipe” mereceu diferentes olhares, mas ficou como uma base orientadora de governação para os vindouros. Os vinte e seis capítulos que constituem o livro desenvolvem um conjunto de ensinamentos essenciais a nível da ética, do poder e do manejamento de armas que dignificam a imagem do país e do governante. O capítulo III, evocando a sensatez dos príncipes sensatos, alerta para a prevenção dos males à distância, para que “a doença” não se torne incurável. Esta recomendação gera linhas de intertextualidade com o “Leal Conselheiro” de D. Duarte (séc. XV) e com os princípios enunciados nas “Cartas” de Sá de Miranda (Séc. XVI).
No Capítulo IV são enunciados os predicados de um Príncipe: “Quanto ao exercício do espírito, o príncipe deve ler as histórias, analisar as ações das excelentes personagens nelas descritas, estudar como se comportaram na guerra, examinar as causas da sua vitória ou derrota, para evitar as desta e seguir as daquela…”(pp.80-81); depois apela à sensatez do Príncipe, como uma das principais virtudes a ser cultivada. No Capítulo XVIII a explanação de Maquiavel centra-se na “virtude” que todo o Príncipe deve testemunhar que a ama, reconhecendo-a através da arte e do trabalho honesto.
Transitando para a simbologia do príncipe, pode ler-se: “a promessa de um poder supremo, a primazia entre os seus pares, seja qual for o domínio em questão: um príncipe das letras, das artes, das ciências. (…) Exprime por outro lado, as virtudes reais no estado de adolescência, ainda não dominadas nem exercidas” (Jean Chevalier, “Dicionário dos Símbolos”, pág.544.). Pode, então, inferir-se que Maquiavel tinha como objetivo principal encaminhar para a “perfeição” os vindouros –em última análise seguir o tal caminho da honestidade que o nosso tradutor, António Graça Abreu, encontrou no livro de “O Tao Te Ching”, a base do taoismo. Tantas voltas dá o mundo para mostrar que o Oriente e o Ocidente não estão assim tão distantes … por vezes, interpenetram-se.
Neste tempo mais conturbado do Mundo seria, talvez, útil uma profunda reflexão sobre os ensinamentos escritos nos livros antigos, retirando a súmula da governação, antes de tropeçar …
Numa Carta dirigida a António Pereira, Senhor do Basto, Sá de Miranda alertou: Direis, e eu não vo-lo nego;/,mas quereis também que diga? /Este mundo é armado em briga, /não busqueis nele assossego, /nem numa alta ermida antiga.
*Docente. A autora escreve sob o novo Acordo Ortográfico que não está oficialmente em vigor em Macau



