António Marques da Silva*

António Marques da Silva*

No dia em que lerem este meu artigo decorrem, precisamente, três meses sobre a data em que deixei Macau. E, acreditem (digo-o com muita dor!), estou cada vez mais convicto de que tomei a opção certa, no tempo certo.

Hoje, à distância, são cada vez mais preocupantes os sinais que daí me chegam, designadamente através da leitura dos jornais em língua portuguesa.

Um cidadão chinês oriundo do Continente que terá afrontado a autoridade de forma pouco educada, mas porventura sem grande violência, por uma questão de fumo de cigarro em lugar proibido ter ficado em prisão preventiva banaliza o uso desta medida de coacção que, por definição e natureza, deve ser de último recurso. E isso preocupa-me, porque afasta toda a réstia de humanismo latente no nosso sistema penal e processual penal. Mas, aquilo que mais me assusta são os apelos, a despropósito, das forças “tradicionais” e dos próprios Serviços de Saúde, por mais medidas repressivas e de reforço dos poderes policiais. Não, definitivamente, não é este o Macau tolerante e livre que eu amei e cujo sistema jurídico ajudei a construir! E, preocupo-me sobretudo pelos meus amigos chineses que, não sendo ricos, não têm alternativas, contrariamente aos “patriotas” donos disso tudo, com refúgios já instalados na Austrália, no Canadá ou alhures por esse mundo afora.

Xi Jinping, o presidente chinês, apela ao nacionalismo e aos militares para que se preparem para a guerra. Ora, na eminência de uma guerra com Taiwan, Macau está demasiado perto para não ser afectado. E quando digo afectado não me quero referir apenas às receitas do jogo. Lembremo-nos que, na proximidade de Macau, existem centrais nucleares, alvos vulneráveis em caso de eclosão de uma guerra. Fico preocupado por Macau.

Contudo, na esteira de Paulo Rego, no seu excelente artigo publicado no jornal “Plataforma”, quero acreditar (e desejo sinceramente que assim seja!) que este discurso radical tenha, mais do que uma ameaça real de guerra, origem na necessidade de unir o Partido e o Povo face a problemas políticos internos agravados por uma anunciada crise económica.

Afinal, desde o surgimento dos Estados, que a necessidade de unir as hostes nacionais leva à narrativa de criação de inimigos externos. E, neste contexto, o estrangeiro, que é sempre alguém diferente por natureza, é facilmente elegível como inimigo, por ter valores e costumes diferentes. Atentem na saga em curso em Macau contra os estrangeiros e entendam-na a esta luz!

Sobre este tema lembro-me do livro de crónicas de Umberto Eco, “Construir o inimigo”, 2011, edição Gradiva, de Guilherme Valente, que em Macau foi assessor de Rocha Vieira, que procurei e encontrei e do qual passo a citar: “Ter um inimigo é importante, não apenas para definir a nossa identidade, mas também para arranjarmos um obstáculo em relação ao qual seja medido o nosso sistema de valores, e para mostrar, no afrontá-lo, o nosso valor. Portanto quando o inimigo não existe, há-que construí-lo”.

Ora, atenta a história de Macau, o inimigo, ou seja os portugueses, estão mesmo à mão de semear, a jeito de serem eleitos como uma ameaça. Aliás, os acontecimentos recentes demonstram-no à evidência. Bem podem a Dr.ª Amélia António, ilustre presidente da Casa de Portugal e os nossos cônsules, em declarações politicamente corretas, tentar branquear o cenário que isso não altera as atitudes de afrontamento a cidadãos portugueses, residentes permanentes de Macau, a quem essa terra muito deve pela dedicação à causa pública durante décadas.

Não, não confundo, nunca confundirei, alguns poucos que me abstenho de adjectivar e que, malgré tout, continuam a guardar religiosamente o passaporte português nos cofres dos bancos, com a maioria dos chineses de Macau, bastantes deles tão portugueses como eu, apesar de não falarem português, que sempre me acarinharam e dos quais tenho imensas saudades e cujo futuro vejo com apreensão.

 

* Advogado (Portugal). Escreve neste espaço quinzenalmente.