António Aresta*
António Aresta*

Para Maria dos Anjos Silva Mendes

 

Escapou esta poesia, “Modéstia e Vaidade”, de Manuel da Silva Mendes [1867-1931], manuscrita em papel avulso e guardada dentro de um livro, aos trabalhos de reunião da sua Obra Completa, em três volumes, coordenada por mim e por Rogério Beltrão Coelho, sob a chancela dos Livros do Oriente, em 2017 e 2018.

Mais ensaísta e prosador em acutilantes artigos na imprensa, do que literato ou poeta, Manuel da Silva Mendes não desdenhava uma ocasional, rara e corajosa incursão pela arte poética.

A poesia inédita, com o título “Modéstia e Vaidade”, é claramente tributária de uma visão do senso comum, sem transcendência e absolutamente na marginália do pensamento filosófico ocidental e do pensamento filosófico chinês.

Ao associar a beleza e a formosura a um modelo de personalidade e de comportamento e a fealdade ao seu oposto, estamos a reproduzir e a perpetuar acriticamente modelos, virtudes e estigmas que irão permanecer na cultura e na sociedade. Entretanto tudo foi mudando quando Umberto Eco escreveu a história universal do feio, até então considerado uma categoria estética sumamente defeituosa. O feio, o belo horrível e outras categorias conexas, emergem assim com todo o seu esplendor, numa história paralela.

António Nobre [1867-1900] já tinha escrito a “Confissão d’uma Rapariga Feia”, mas não foi este lance estético que serviu de inspiração a Silva Mendes.

Ensinam-nos os clássicos [Epicuro, Cícero, Séneca, Plutarco, Epicteto, Boécio, Marco Aurélio, Confúcio, Lao Tse, Chuang Tse, Mêncio, etc.] a sublime arte de viver, garantindo que a paz interior dá alento, energia, consolação, ousadia e ânimo para superar dificuldades e malquerenças, que entram pelos olhos dentro e toldam o entendimento.

E Manuel da Silva Mendes anotou nos seus pensamentos e aforismos taoistas este pormenor: “Modéstia e beleza / Têm de andar a par / Quem as separar / Uma e outra lesa”. E nesta poesia, “Modéstia e Vaidade”, retoma assim essas cogitações primordiais acrescentando-lhe mais subjectividade, mais emoção e um humor impiedoso.

 

Modéstia e Vaidade

Tinha duas concubinas,

Ambas elas pequeninas,

Um hospedeiro de Song.

Uma delas era feia;

A outra, da mesma aldeia,

Uma rara perfeição.

 

Ora um dia festival,

Indo Yang à capital

Dia de anos do regente,

Notava que a feia atraía

E, da bela, que fugia

O hospedeiro e toda a gente.

 

Como igual não tinha visto,

E ignorava a causa disto,

Um dos servos abeirou.

E eis como, discretamente,

Em voz baixa, confidente,

O servo então explicou:

 

Quer a bela ser tão bela,

Que não há quem veja nela

Senão loucura e vaidade.

Tão simples se mostra a feia,

Que a ninguém ocorre a ideia

De ver nela fealdade.

 

*Ex-docente em Macau. Colaborador regular do JTM, desde há décadas. Autor de variada bibliografia sobre Macau