1922 não foi decididamente um ano que corresse de feição para a tranquilidade da administração portuguesa de Macau. O Território ia acolhendo muitos indesejáveis, uns descontentes com a evolução da guerra civil na China, e outros ainda, inflamados com as ideias bolchevistas. Acoitavam-se todos por lá e afrontavam velada e depois ostensivamente o poder político do enclave, isto é, os portugueses e a sua governação.
E o Governador Henrique Correia da Silva [1878-1935], Conde de Paço d’Arcos, natural de Macau, que geriu o Território entre 1919 e 1922, esteve à altura da situação em termos políticos, diplomáticos e militares, sempre sob a orientação do governo em Lisboa.
O ponto de partida de todas as hostilidades que haveriam de chegar ao longo do ano, teve início, muito provavelmente, no aproveitamento político de um grave incidente ocorrido no Largo de S. Domingos, no dia 23 de Março de 1922.
Tudo começa com a explosão e incêndio do alambique de uma destilaria de vinho [Hang-Cheong], que funcionaria em condições manhosas, na rua do Tarrafeiro, e que infelizmente causou queimaduras fatais a um chinês [Lam-veng-chong] de 35 anos. O funeral da vítima mortal incorporou cerca de mil pessoas e em solidariedade o comércio paralisou.
E entre o Largo do Leal Senado e o Largo de S. Domingos aparece inopinadamente um riquexó que transportava uma senhora macaense [Júlia Germana Maher Pedruco], de 24 anos, acompanhada de uma filha menor que tinha levado ao médico [José Caetano Soares]. Esta ordenou ao cule para estacar a viatura, aguardando que o cortejo seguisse o seu caminho.
Mas, à porta da Farmácia Popular surge intempestivamente um português [Aníbal Drumond], de 26 anos, chefe de secção da Polícia Marítima e Patrão da Lancha “Almirante Lacerda” [antiga Lancha “Praia Grande”], “gesticulando muito”, e que “interveio no sentido de fazer com que os chineses deixassem prosseguir o carro”. Queria que a multidão abrisse alas, parando o cortejo fúnebre, para o carro seguir a sua marcha.
Era uma atitude insensata, como se compreende, até porque ninguém lhe encomendou o sermão. Não foi atendido, “antes pelo contrário, a um grito de “bate!”, soltado por um chinês, foi cercado por uma numerosa multidão que se esforçava por agredi-lo”. E conseguiram.
A confusão então generalizou-se. Refere o administrador do concelho e comissário da Polícia [capitão Artur Cabaço], no seu relatório, que “só um guarda se viu na necessidade de disparar para o ar e na vertical um tiro de revólver, devido à pressão ameaçadora que sobre ele faziam numerosos chineses”.
O polícia que disparou, lê-se no relatório, era “um guarda mouro”. Contudo, “alguns polícias chegaram a ser agredidos com socos ou pancadas com os cabos das bandeiras que os chinas levavam, mas os agentes limitaram-se à maior prudência, não usando os revólveres, apesar de os terem tirado dos coldres”.
Uma nota insólita a registar. Estava nas imediações um sargento português [António Duarte], trajando à civil, que pediu emprestado o revólver a um guarda chinês, que relutantemente lho cedeu, indo depois auxiliar o comissário Artur Cabaço a manter a ordem. Foi mesmo muito difícil “acalmar as centenas de chineses ali reunidos”, mas “acalmada a multidão, seguiu esta no acompanhamento do caixão”.
Dois médicos militares portugueses [major Jaime Pinto do Amaral e o capitão Pedro Peregrino da Costa] examinaram os feridos resultantes do incidente e concluíram que tinham apenas “feridas superficiais”, sem necessidade de tratamento hospitalar.
O comissário da Polícia escreve no relatório que “dadas as proporções que o tumulto tomou e parecendo-me necessário que sobre ele se façam as devidas investigações, não só para que ele fique devidamente descrito, como também para que possa ser devidamente apreciada a acção da Polícia, de cuja atitude de prudência eu assumo a inteira responsabilidade”.
A atitude malcriada, inoportuna e desrespeitosa de um português [Aníbal Drumond] foi corrigida pela enérgica e corajosa acção de outro português e comissário da Polícia [capitão Artur Cabaço]. O motim terminou, o cortejo fúnebre seguiu sossegadamente o seu destino e o riquexó levou a passageira para a sua residência. Mas a sensibilidade anti-portuguesa pairava por ali.
A imprensa chinesa de Macau concedeu uma ampla cobertura ao grave incidente, elogiando a acção da Polícia, em especial do comissário Cabaço [Ka Pa Su]. A Repartição do Expediente Sínico, traduziu para a língua portuguesa os artigos mais importantes.
Pouco tempo depois, em Maio, em virtude de novas desordens, tumultos e motins, foi necessário declarar, pela Portaria Nº 233, “o estado de sítio” e “suspender todas as garantias constitucionais ficando todo o território da Província entregue exclusivamente ao poder militar”.
E o comando militar oferecia “um prémio de 200 patacas” a quem denunciasse e identificasse os “indivíduos que têm interferido com os cidadãos chineses que pacificamente estão residindo nesta Cidade e com aqueles que aqui estão trabalhando honestamente”.
E a 14 de Outubro, Artur Cabaço, capitão de infantaria, Administrador do Concelho e Comissário da Polícia faz publicar um Edital com estes três pontos: “Para conhecimento da comunidade chinesa, faça público : 1- Que são absolutamente proibidas quaisquer manifestações públicas de carácter político; 2- Que quaisquer outras manifestações públicas, embora não tenham o carácter político, só podem realizar-se depois de previamente autorizadas pelo Governo da Província; 3- Que nenhuns impressos redigidos em língua chinesa podem ser distribuídos ao público, sem prévio conhecimento e consentimento do Administrador do Concelho”.
A instabilidade tinha vindo para ficar até ao fim do ano de 1922, annus horribilis, com assaltos a esquadras, a edifícios públicos e ataques à bomba.
*Ex-docente em Macau. Colaborador regular do JTM, desde há décadas. Autor de variada bibliografia sobre Macau



