Sérgio Terra

Sérgio Terra

Em surdina ou através de tomadas de posição públicas que ainda hoje fazem eco, eram muitas as vozes que, há duas décadas, auguravam vida efémera para a Escola Portuguesa de Macau (EPM). Num contexto de incertezas e receios associados ao processo de transferência de soberania do território, e consequente cenário de potencial escassez de alunos com a debandada de cidadãos portugueses, de facto poucos acreditavam no projecto.

O lançamento da primeira pedra, a 18 de Abril de 1998, não eliminou o ambiente de cepticismo prevalecente em parte da sociedade, apesar do optimismo dos discursos oficiais. Para muitos, não passaria de um “elefante branco” na era da Região Administrativa Especial.

Neste como noutros casos envolvendo o futuro da comunidade portuguesa depois de 1999, o tempo encarregar-se-ia de dar razão às vozes optimistas e desmentir os “profetas da desgraça”. Salta hoje à vista de todos que a EPM trilhou um caminho consistente com os seus desideratos para se afirmar como uma instituição de ensino bem reputada e um “farol” incontornável da presença portuguesa num território sob soberania chinesa.

Não foi um percurso fácil, nem isento de problemas, incompreensões ou erros, como de resto sucede em qualquer escola. Todavia, a qualidade da oferta curricular e extra-curricular, o aumento do número de estudantes e a flexibilização de programas ditada pelas exigências de uma nova realidade social mostram que os agentes envolvidos no funcionamento da EPM têm procurado encontrar as melhores soluções possíveis para tornar o estabelecimento de ensino ainda mais atractivo e abrangente.

Qual ironia do destino, o problema das instalações centra-se hoje no pólo oposto, motivando planos de expansão física para dar resposta a uma procura acrescida. É mais um sinal inequívoco de que a EPM está bem viva e recomenda-se.

Parafraseando Aristóteles, poderemos dizer que “a educação tem raízes amargas, mas os frutos são doces”. E, com os da EPM particularmente adocicados e maduros, estão de parabéns todos os que, ao longo destes 20 anos, contribuíram para o crescimento da Escola, desde a Fundação que a gere, à direcção – devendo neste campo ser enaltecido o trabalho desenvolvido por Maria Edith Silva e Manuel Machado – professores, funcionários, alunos e encarregados de educação, sem esquecer as entidades públicas e privadas que, por diferentes vias, têm apoiado este projecto.

Nessa equação tem obrigatoriamente de entrar o Governo da RAEM que, com o seu apoio financeiro e institucional, assumiu um papel fundamental para o funcionamento da EPM sobretudo depois da Fundação Oriente ter deixado a Fundação da Escola Portuguesa.

Longe de se esgotar na mera dimensão temporal da efeméride, já de si muito expressiva, a comemoração do 20º aniversário da Escola Portuguesa figura assim como um marco de grande relevância. É que o seu sucesso também funciona, em grande medida, como um barómetro da vitalidade das comunidades lusófonas e da língua portuguesa em Macau.

 

*Director