Carlos Frota *
Os europeus não negoceiam com uma arma apontada à cabeça! – disse enfaticamente Emmanuel Macron no decurso da recente cimeira da União Europeia na capital búlgara, o mesmo Macron que encantou Washington, tão bem desempenhou o papel do afectuoso primo ou mesmo irmão mais novo do tonitruante Donald.
E Donald Tusk, o presidente do Conselho Europeu, a mais alta instância política da União, disse também em Sofia que as ilusões acabaram e que a mensagem foi recebida: cada um que siga o seu caminho!…
Eu direi, mais esperançado nas virtudes do voto em 2020: que o pesadelo acabe depressa!
A linguagem mudou. E ouve-se a voz de De Gaulle ressuscitado, a gritar dos subterrâneos da História. Cuidado com eles! – isto mesmo alertava em vida o velho general…
O salvar as aparências é atitude que já não engana ninguém, muito menos uma opinião pública europeia que, como a das outras partes do mundo, tem assistido ao comprometer sistemático do espírito de velhas alianças, sob o pretexto da defesa do interesse nacional, e mesmo da segurança nacional tout court.
Já há dias, o ministro francês da economia, Bruno Le Maire dizia que é tempo de a Europa se emancipar da tutela (só económica?) americana.
Isto a propósito da chantagem que Washington exerce sobre multinacionais europeias que pretendem negociar com empresas iranianas.
A “independência” da Europa? A questão parecerá secundária para a maior parte e de puro interesse histórico para os estudiosos. Mas, para os actuais líderes europeus, é bem actual e cheia de consequências práticas, para quem sobe à “nova Jerusalém” nas margens do Potomac e vem de lá descoroçoado, senão humilhado, pela arrogância do actual imperador.
Num tempo em que o projecto europeu é atacado de todos os lados, o mais surpreendente agora é ser atacado do lado exacto donde mais se esperava amizade, confiança e cooperação. E RESPEITO!
De Gaulle ressuscitado viria dizer: eu bem vos recomendei que não acreditassem neles… Fui marginalizado pelo consenso mole de uma Europa anglo-saxónica, criança amamentada pela generosidade dos primos além-atlântico, mas agora já sabem o preço a pagar!
Os que venceram em nosso nome querem agora decidir por nós. A Guerra das Tarifas? O Acordo Nuclear com o Irão? As despesas da NATO? Quantos mais puxões de orelhas da parte de filhos ou netos mal educados… a quem podia ser pai ou avô deles?
E de novo Donald Tusk: A nossa força é a unidade! Estamos a ser tratados como inimigos, capazes de constituir ameaça para antigos amigos e afiados!
Um cocktail de champanhe e lágrimas
Imagine-se uma casa de família em que, na sala, se festeja um casamento, com champanhe, música e risos – e nos quartos, mesmo ao lado, parentes choram, velando familiares mortos na véspera ou no próprio dia.
A casa a que me refiro tem historicamente um nome. É a Palestina.
A mansão tem ocupantes. Eles são palestinos e israelitas, judeus e muçulmanos. Só que estão em aposentos diferentes. Uns festejam e gargalham. Outros desesperam e vivem na profunda tristeza do luto, dos muitos lutos.
E porquê ? A história tem sete décadas, como se sabe. Mas a abertura da embaixada americana em Jerusalém, na última semana, se veio dar azo a celebrações entusiásticas, a discursos melífluos de consagração de Trump e Netanyahu, entronizados novos ídolos do panteão hebraico – veio por outro lado cavar mais feridas… contabilizando mais vítimas.
Os heróis da festa são conhecidos, Donald e Benjamin, por essa ordem. Os seus nomes serão inscritos em letras de ouro nos livros de História, desde agora. Se antes a própria Bíblia se não referiu antecipadamente a ambos, directamente, como promotores da nova aurora foi, bem vistas as coisas, por erro, injustiça, omissão – ou tudo isso junto.
Mas a festa de Jerusalém não foi para todos. Foi só para aqueles a quem foi servido champanhe. Os outros tiveram direito às lágrimas.
Mas quem celebrou alguma coisa há dias não celebrou certamente a paz, pois esta não irmanou os que, em Jerusalém, brindavam com taças de cristal e todos os outros, os que não foram, deliberadamente, convidados.
Na realidade, foi a “vitória” de um só lado e não a paz. Porque a paz verdadeira, duradoura, não é a paz do arame farpado e das baionetas, mas a do diálogo e a do respeito recíproco. E não consente excluídos. Todos entram, quando há autenticidade no seu sucesso, na grande festa da paz.
Mais um atestado de óbito
Para não restarem dúvidas sobre as suas intenções e passar mais um atestado de óbito a qualquer processo de paz, Netanyahu não podia ser mais explícito. Ao congratular-se pelo gesto heróico de Donald Trump, de converter à pressa o consulado em embaixada, e de lá colocar um embaixador político perfeito para a função, o amigo Benjamin exaltou Jerusalém como a capital NÃO DIVIDIDA de Israel. Seria preciso dizer mais alguma coisa?
E Jared Kushner, com o seu ar discreto de menino de coro, precocemente adulto, tendo ao lado a esposa, a esfuziante, a seráfica Ivanka, fez o discurso esperado , encomendado pelo seu presidencial sogro… esse mesmo, o celebrado pai da presidencial filha.
Discurso que naturalmente só convenceu os já convencidos. Que o acto que ali se celebrava, o da transferência da embaixada, se inseria numa estratégia de paz. Estratégia que ninguém entende, e uma estranha paz que ninguém sabe onde se esconde, em clima geral de tristeza e luto.
Em ano e meio de funções como conselheiro hiperqualificado para as questões do Médio Oriente Jared, o magistral estratega, tem já uma receita a registar, no livro de invenções da diplomacia internacional.
Um imenso cocktail de champanhe, para uns, mas de luto e lágrimas para os parentes, no quarto mesmo ao lado!
Entre Hamas e Fatah, quem?
Quando se trata de tentar resolver conflitos, diplomaticamente, os negociadores podem ser muito criativos, mas não podem reinventar as partes em disputa. Não as podem recriar à sua medida. São aquelas e não são outras.
Israelitas e americanos sempre tiveram perante si, no contexto da questão israelo-palestina, a dupla face do interlocutor, do outro lado da mesa, a moderação da Fatah e, na sombra embora, o radicalismo do Hamas.
Tal contradição, no interior da causa palestina, foi aproveitada e bem pelos diferentes negociadores da dupla América-Israel, para tentar aproximar posições com a OLP de Arafat e depois de Abbas e não com o que se tornou o governo da Faixa de Gaza. Que aliás, contrariamente aos irmãos separados de Ramallah, nunca quiseram negociar, mas impor, pela força, a tese inadmissível do extermínio total do adversário.
Os desenvolvimentos ocorridos na questão palestiniana, no decurso já da Administração Trump, e mormente a decisão de reconhecer Jerusalém como a capital indivisa de Israel, mais afastando as partes de uma qualquer solução negociada, vem dar razão ao argumento radical da inutilidade de todo o esforço negocial de décadas. Assim desacreditando a ala palestina moderada, ao realçar a ingenuidade de quem acreditou na boa fé dos israelitas e seus patronos.
O presidente da Autoridade Palestina, Muahmmud Abbas tem a idade que tem. E com o seu inevitável afastamento, a mais ou menos curto prazo, bem pode estar no fim o capítulo da moderação.
* Primeiro Cônsul-Geral de Portugal em Macau e antigo Embaixador na Coreia do Sul e Indonésia



