Ainda no rescaldo da estreia mundial da nova longa-metragem de Christopher Nolan, fica uma questão linguística interessante para nós, falantes de português: se o herói da Odisseia se chama Ulisses, por que é que o poema de Homero que conta as suas façanhas não se chama Ulisseia, ou Ulissíada?

A Ulisseia e o Ciclo Troiano
A estreia desta nova adaptação cinematográfica da Odisseia traz Homero para o centro das atenções de novo. Há bem mais de dois mil anos que as aventuras e desventuras de Ulisses continuam a ser contadas, recontadas, reinventadas e adaptadas às mais diversas formas de expressão artística, da literatura ao cinema, da pintura aos videojogos. Foram, aliás, os próprios gregos os primeiros a fazê-lo; dois outros poemas épicos, agora perdidos, continuam ou dependem da história de Ulisses.
A Telegonia (Τηλεγόνεια), atribuída a Eugámon de Cirene, provavelmente escrita no século VI a.C., teria sido a continuação directa da Odisseia, na qual, após matar os pretendentes a Penélope, sua mulher, Ulisses começa uma nova saga de aventuras que culminam na sua morte e posterior imortalização. O desfecho deste poema é algo peculiar, quase incestuoso, o que talvez pudesse ajudar a explicar o facto de a Telegonia se ter perdido, ao contrário do que aconteceu com a Odisseia. O poema deriva o seu nome de Telégono, filho de Ulisses e de Circe que, no final, se casa com Penélope, a viúva do próprio pai, enquanto Telémaco, filho de Ulisses e de Penélope, casa-se com Circe, sua madrasta.
A maioria das pessoas imediatamente associa, ou, pelo menos, costumava associar a Odisseia à Guerra de Tróia, mas, na verdade, quando o poema começa, a guerra já terminou. A Ilíada, o outro épico de Homero, termina antes da queda de Tróia e, como tal, não descreve o famoso Cavalo de Tróia, o celebérrimo estratagema atribuído ao engenho de Ulisses, nem o incêndio da cidade nem a vitória final dos gregos. Esses acontecimentos, embora pertençam já ao passado quando começa o poema, são descritos quando recordados por diferentes personagens ao longo da Odisseia.
Quando a Odisseia começa, não só a longa guerra já terminara, como Ulisses encontra-se há já quase dez anos a tentar regressar à sua pequena ilha de Ítaca, onde Penélope, rodeada de pretendentes interesseiros, continua à sua espera e Telémaco, seu filho, cresce praticamente sem conhecer o pai.
A Odisseia não é, por isso, um poema sobre uma guerra. É um poema sobre o regresso de um homem à sua casa, à sua família e à sua pátria. O regresso aos seus é a ideia central de toda a obra; tudo na Odisseia parte do desejo e do esforço para regressar a casa.
Os gregos possuíam uma palavra própria para designar esse regresso: νόστος /nóstos/, termo que significava muito mais do que o simples acto de voltar a casa; significava recuperar a vida interrompida pela guerra, reencontrar a família, reconstruir a ordem perdida e recuperar a própria identidade. A Odisseia é, acima de tudo, um grande poema de nóstos.
Provavelmente anterior à Telegonia, teria existido um outro poema épico, Nóstoi –plural de nóstos–, em português ‘Os Regressos’, que continua a história do ciclo troiano a partir de Ulisses. Este poema, também ele agora perdido, dataria de entre os séculos VII-VI a.C. e é atribuído a Ágias de Trezena, embora haja dúvidas quanto à sua autoria.
Os Nóstoi, poema que narrava o regresso dos chefes gregos após a destruição de Tróia, são, por assim dizer, o elo entre a Ilíada e a Odisseia. Para além do regresso de vários heróis (Diomedes, Nestor, Menelau, Neoptólemo, Idomeneu), narra também a morte de Agamémnon às mãos de Clitemnestra, sua esposa, ou de Egisto, o amante desta, episódio que serve de base à Oresteia de Ésquilo e às duas Electras, a de Sófocles e a de Eurípides.
A Odisseia ocupa, assim, um lugar muito particular no chamado Ciclo Troiano, do qual fazem igualmente parte a Telegonia e os Nóstoi. Enquanto a Ilíada narra apenas algumas semanas do último ano da guerra, a Odisseia descreve as suas consequências. Os dois poemas completam-se mutuamente e teriam sido acompanhados por outras epopeias, hoje quase todas perdidas, que contavam os episódios intermédios: o início do conflito, a morte de Aquiles, a construção do Cavalo de Tróia, a destruição da cidade, etc.
De Ulisses, Odisseia?
De volta à questão inicial deste artigo: se o herói do poema se chama Ulisses, por que razão o poema se chama Odisseia e não Ulisseia? A resposta encontra-se na variação interna da própria língua grega.
Na Ilíada e na Odisseia, Ulisses chamava-se em grego Ὀδυσσεύς /odysseús/, daí que o título do poema seja em grego Ὀδύσσεια /odýsseia/, ou seja, a história ou o poema de Odysseús, de onde derivamos o nome português Odisseia. O nome do poema foi originalmente formado a partir do nome do herói, tal como a Eneida deriva de Eneias.
Por volta de 240 a.C., Lívio Andrónico (c. 284–204 a.C.), considerado o pai da literatura latina, produziu a sua Odusia, a primeira tradução da Odisseia em latim e considerada a certidão de nascimento da literatura romana. Nesta tradução, da qual restam apenas fragmentos, o nosso herói chama-se Ulixes, e não Odysseús. Lívio não terá inventado este nome, mas sim o terá importado das variedades de grego faladas no sul da Itália e na Sicília, a chamada Magna Graecia. A forma utilizada por Lívio Andrónico parece estar claramente relacionada com a forma Οὐλίξης /oulíxēs/ utilizada pelo poeta Íbico (c. séc. VI a.C.) oriundo de Rhegium, hoje Reggio Calabria.
A forma Ὀδυσσεύς /odysseús/ tal como aparece em Homero já conhecia variantes dialectais como Ὀλυσεύς /olyseús/ e Ὀλισεύς /oliseús/, embora estas variantes não possam ser adscritas a um dialecto específico. Formas como estas aparecem sobretudo em inscrições de vasos, como, por exemplo, no famoso vaso Stamnos (c. 480 – 470 a.C.), agora no British Museum, que retrata Ulisses e as sereias (veja-se o detalhe na imagem). Este tipo de inscrições reflecte mais de perto a língua comum do que a linguagem literária. Embora existissem formas diversas para o nome de Ulisses, na literatura grega, os poemas homéricos canonizaram a forma Ὀδυσσεύς /odysseús/.
Beekes, importante filólogo e editor do mais recente dicionário etimológico do grego antigo, crê que Ὀδυσσεύς não é um nome de origem grega, mas sim herdado das populações que habitavam o Egeu antes da chegada dos gregos. Isso ajudaria a explicar a diversidade de formas (Odysseus, Olyseus, Oulixes, Olytteus etc.) com que esta personagem era conhecida na linguagem comum. Esta variedade derivaria da tentativa de adaptar uma palavra desconhecida à fonética grega.
Para nós portugueses, o nome deste herói tem um significado particular, pois é dele que o da capital de Portugal deriva. A palavra Lisboa deriva do latim Olissipo (gen. Olissiponis), sendo Olixipo sua variante ortográfica (daí que a abreviatura de Lisboa seja Lx). Diz a lenda que Ulisses, depois de passar as Colunas de Hércules, hoje o Estreito de Gibraltar, chegou ao fim do mundo (finis terrae) e aí fundou uma cidade, a nossa cidade de Lisboa. Talvez a fundação de Lisboa também fizesse parte das muitas histórias do ciclo troiano e tivesse sido cantada em grego em poemas épicos que o tempo consumiu.
* MA (Conim.) MPhil, DPhil (Oxon.), filólogo especialista em línguas antigas



