“Durante esse agitadíssimo período da sua vida, Sun Yat-Sen teve de albergar-se várias vezes em Macau, e, numa ocasião, estabeleceu a sua residência e consultório na Rua das Estalagens, porventura o primeiro onde a clínica europeia foi exercida por um cidadão chinês.”
O Instituto Internacional de Macau (IIM) efectuou, através de alguns dos seus mais qualificados colaboradores, diversos estudos sobre a permanência em Macau de Sun Yat-Sen, o primeiro Presidente da China, que assumiu a chefia do Estado imediatamente após o derrube da última dinastia e a implantação da República, cujo estabelecimento teve nele o mais respeitado ideólogo e empenhado construtor. Vários foram os trabalhos produzidos sobre esta enorme figura da China moderna e publicados com a chancela do IIM, sendo seus autores os académicos Fok Kai Cheong, do Instituto do Milénio, e Ming K. Chan, da Universidade de Stanford, ambos já falecidos.
A propósito do 50.º aniversário do passamento de Luís Gonzaga Gomes (1907-1976), decidimos trazer para este espaço as partes fundamentais de um interessante texto do escritor e historiador macaense sobre Sun Yat-Sen, com informação ainda muito incompleta sobre as suas relações com Macau e a influência que o território sobre ele exerceu, bem como os apoios que lhe foram aqui concedidos para o desenvolvimento da sua acção política:
Sun Yat-Sen em Macau
“O vulto mais proeminente da história contemporânea da China é, sem dúvida, Sun Yat-Sen, que os chineses deificaram, cognominando-o de ‘Kuók-Fu’, isto é, ‘pai da nação’, não só por ter ele sido um dos principais fautores da República Chinesa, como ainda pelo facto de ter sacrificado, com modelar abnegação, toda a sua vida em proveito da grande reforma social, que visava transformar o seu país numa nação próspera e europeizadamente civilizada.
Natural de Tch’ói-Hâng, insignificante vilória que dista apenas uns poucos de quilómetros de Macau, era petiz de treze anos quando partiu para Honolulu, a fim de se juntar a um irmão mais velho que prosperava nessa longínqua ‘Pérola do Pacífico’. Após cinco anos de estudos elementares, regressou à terra natal, para seguir pouco depois para Hong Kong, onde fez os preparatórios no ‘Queen’s College’ e, em 1892, formou-se brilhantemente no ‘Medical College’ dessa mesma cidade.
Os ininterruptos vexames impostos pelo estrangeiro à sua pátria despertaram no seu ser o espírito de revolta, e não lhe foi difícil ver que o motivo primacial porque o seu país se encontrava debilitado e incapaz de reagir à, então, desenfreada cupidez dos estranhos residia na completa inépcia do caquético e anacrónico regime, totalmente arruinado e enfraquecido pela estulta incompetência de imbecilizados eunucos que nesse tempo retinham, de facto, nas suas mãos, os destinos da nação chinesa. (…)
Não era fácil lutar contra uma escola mental, formada por retrógrados letrados que, por se encontrarem obcecados com os obsoletos conceitos filosóficos dos seus cânones clássicos, se julgavam possuidores da sabedoria universal, repudiando por isso qualquer ideia inovadora; contra os mandarins, classe privilegiada, que retinham o poder e a riqueza; e contra milhões de indivíduos mal dispostos a ceder o seu modo de vida por outro deles inteiramente desconhecido. Provocar, pois, uma revolução, num meio tão hostil, era tarefa hercúlea que demandava longos anos de proselitismo.
Estava, porém, lançada a sorte, e Sun Yat-Sen não trepidaria ante nenhuma dificuldade. Impulsivo, dominando facilmente quem o ouvia com a magia das suas palavras, principia a sua campanha de aliciação, organizando uma sociedade secreta que tenta um ataque contra o ‘Yamen’ de Cantão, em 1895. Fracassada a tentativa e acossado pela polícia manchu, o visionário patriota é obrigado a exilar-se. Foge para o Hawai, para Londres, para terras diversas, sempre perseguido. Na sua vagabundagem, de cidade em cidade, o seu lúcido espírito não descansa, vai observando, estudando e absorvendo novas ideias que ficarão mais tarde consubstanciadas no ‘Sám-Mân-Tchü-I’ (os Três Princípios do Povo). Em todos os lugares onde encontrava um núcleo de compatriotas não lhe faltava o apoio moral e financeiro dos mesmos.
Durante esse agitadíssimo período da sua vida, Sun Yat-Sen teve de albergar-se várias vezes em Macau, e, numa ocasião, estabeleceu a sua residência e consultório na Rua das Estalagens, no prédio onde hoje se encontra instalada a firma de sedas ‘U-Tip-P’ât-T’âu’, porventura o primeiro onde a clínica europeia foi exercida por um cidadão chinês. Sun Yat-Sen necessitava de se dedicar à sua profissão de médico, não só para ocultar a sua verdadeira actividade, como para obter recursos a fim de poder manter-se, tanto a si como aos seus correligionários mais necessitados. Esse consultório em breve se transformou em refúgio. Pela calada da noite, os conjurados efectuavam o seu corrilho no consultório e aí recebiam as instruções do chefe e, numa mesma cama, dormiam os lugares-tenentes de Sun Yat-Sen, quando após horas de truculenta discussão a fadiga os obrigava a descansar.
Como médico, Sun Yat-Sen era extremamente habilidoso. Entre a sua numerosa clientela figurava um nevropata, filho do ricaço Lôu, que, minado pela atroz doença que o lançava em constantes ataques de melancolia, depois de ter recorrido sem sucesso algum à ciência dos mais famosos curandeiros da época, só alcançou ser curado por Sun Yat-Sen. Grato por quem conseguira restituir a serenidade ao espírito atribulado do seu estremecido filho, Lôu-Si ofereceu-lhe um medalhão de oiro, onde estava gravado o eterno testemunho do seu reconhecimento, nos seguintes termos: São mútuas a sua habilidade e a sua bondade.
Pouco depois, Sun Yat-Sen teve de abandonar o seu consultório para ir exercer a sua actividade de revolucionário em outros lugares. Todos os seus pertences foram então confiados à guarda de Ièong-K’ók-Lêng e, quando este morreu, foram entregues aos cuidados da viúva do ricaço Lôu-Si. Entre essas relíquias existia um filtro onde Ièong-K’ók-Lêng pincelara este conceito ditado pela sua admiração ao caudilho: Ansioso desígnio tão puro como a água. Com o decorrer dos anos, o filtro passou a ser propriedade de Lèong-Im-Mêng, director que foi, ainda não há muito tempo, da Escola Secundária Sông-Sât, de Macau, que o ofereceu ao Museu dos Cinco Andares de Cantão, a fim do mesmo poder ser admirado e reverenciado por todos os cantonenses.
No intuito de perpetuar a memória de Sun Yat-Sen, em Macau, Tch’ân-Tchân-Ü, aliás Tch’ân-Mêng-Sü, quando foi escolhido pelo general Tchéong-Kái-Seak para presidente do Governo Provincial de Kuóng-Tông, com sede em Cantão, pensou em adquirir o edifício onde aqui esteve instalado o consultório de Sun Yat-Sen, a fim de o transformar em um ‘Pavilhão de Recordação de Tchông-Sán’. Esta ideia, porém, não chegou a vingar porque Tch’án-Mêng-Sü pouco tempo se demorou no poder, em virtude do golpe de estado provocado em 28 e 29 de Abril de 1931 pelo seu rival, o general Tch’ân-Tchái-T’óng, comandante do 8.º Corpo do Exército Nacional Revolucionário.
Em frente do quartel de artilharia, na Rua Silva Mendes, existia uma casa que servira de habitação à mulher de Sun Yat-Sen e que foi destruída no pavoroso desastre da explosão do paiol da Flora, em 1928. Em seu lugar ergue-se hoje um magnífico edifício em estilo mourisco-modernista, encontrando-se no meio do seu pequeno jardim a estátua de Sun Yat-Sen, em bronze e em tamanho natural.”
Este texto, que é um contributo de Gonzaga Gomes para divulgar a ligação de Sun Yat-Sen a Macau, é um dos 39 reunidos na compilação intitulada “Curiosidades de Macau Antiga”, da Colecção Notícias de Macau, de 1952, havendo uma segunda edição publicada em 1996 pelo Instituto Cultural de Macau e integrada na sua muito apreciada Colecção Rua Central. Respeitou-se a romanização escolhida para os nomes em chinês.
* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.



