Albano Martins*

Albano Martins*

Obviamente demito-os, teria dito o ditador Salazar a alguns oficiais generais que contestavam a guerra colonial.

Se não foi bem assim, as minhas sinceras desculpas para quem sabe disso bem mais do que eu, mas acredito que será muito parecido, que hoje não me vou dar a investigar o passado salazarento do nosso ex-Presidente do Conselho, por quem só nutria admiração quando era muito miúdo para poder perceber bem o que o fascismo era de facto.

Enfim, não podem acusar-me de não ser honesto, que as mudanças quando acontecem não acontecem por acaso, pois até ao primeiro ano da faculdade era um bom facho, e não teria sido por acaso nem por milagre divino que mudara aquilo que me pareceu ser sempre tão óbvio.

E garanto que essa derrocada foi muito penosa, eu diria mesmo que obviamente muito penosa, que quando descobri que me enganaram tanto durante os anos verdes da minha juventude fiquei sem sentido de orientação na vida, parecia que o céu me tinha caído na cabeça, que uma parte tão importante da minha vida, os meus valores, afinal de contas a única coisa que tinha tão bem depositada, que a pobreza material era enorme, era sugada de repente, que além do mais estava sozinho plantado noutro continente que não conhecia, sem referências ou conhecidos por perto, a não ser os colegas de curso que passaram a viver comigo na residência do Rato.

Por isso sou tolerante para com todos os que tenham ideias diferentes das minhas, sobretudo depois que vi a luz, mas desde que sejam homens bons e honestos, aplicando esse pensamento também às senhoras, que não ouso dizer boas e honestas, que alguma gente maldizente poderia perceber mal o discurso.

Tudo isto para dizer que o óbvio é tão óbvio que quem manda fazer estudos para provar que o óbvio é óbvio devia ser imediatamente demitido, apesar da minha grande tolerância maçónica.

E não diria, como Salazar o teria feito, porque o seu óbvio era um mau óbvio, e eu acho que isso é possível, embora sem me ter dado a grandes estudos, mas que não era tão óbvio assim para uma pessoa de maus costumes, que vivia nas trevas e nunca procurou desejar a luz, que um véu bem espesso lhe cobria os olhos.

Ou seja, parece que há óbvios que podem não ser óbvios, quando não há perseverança no bem e a luz teima em não nascer.

Mas hoje vou falar, mas pouco, dos óbvios que são óbvios, que a idade não perdoa, que os galgos obrigaram-me a estar de pé desde as cinco da manhã para obviamente poderem ter uma vida mais decente algures nos EUA.

Chamarei a isto de persistência maçónica embora haja muito boa gente que ache, ao invés, que  se deva chamar apenas de simples estupidez de hobby menos nobre, que a causa não merece tanto esforço e que tal persistência tem cheiro a doença mental.

Bem que gostaria de ter tempo para o resto da minha vida.

Em Macau até o óbvio tem direito a estudo científico para provar que o óbvio é óbvio ou que o óbvio precisa de consensos sociais alargados, como se o óbvio sendo óbvio precisasse algo mais do que ser simplesmente óbvio.

Mas aqui, até para o óbvio é preciso consensos, estudos aprofundados, estatísticas detalhadas, teorias científicas.

Daí chamar a este artigo, que mais não é do que um novo escrito sobre a água, a teoria científica do óbvio.

É tão óbvio o óbvio que a minha cabecinha pensante não consegue perceber como é difícil adivinhar uma decisão final para uma nova política assente no óbvio.

É que o óbvio parece ter direito também a estatuto de classe.

O que é óbvio para uns pode não ser para outros.

E fico obviamente baralhado, eu que pensava que não havendo motoristas profissionais suficientes para as necessidades de uma economia, seria óbvio que o Governo autorizasse trabalhadores não residentes a ocupar esses lugares, obviamente provando-se que não se encontrou alguém local para a posição pretendida.

A sabedoria dessas pessoas, mais a força bruta das suas brilhantes ideias, adicionadas à beleza dos seus límpidos raciocínios, tudo junto apenas prova como é que as montanhas de cá acabam por parir tantos ratos, numa terra onde muitos deles insistem em esburacar a nossa paciência de seres a quem ouso chamar de bem pensantes.

Prefiro a Grande China, não me levem a mal, que um homem nem sempre pode ser perfeito.

Espero que a luz continue a vir do Oriente, que por cá está visto, não será tão óbvio assim!

 

* Economista. Escreve habitualmente neste espaço às sextas-feiras