Da extensa obra do Padre Benjamim Pires, “Taprobana e mais Além… Presenças de Portugal na Ásia”, irei apenas focar-me no capítulo 7 (sétimo) sobre a Presença da Cultura de Portugal no Japão.
Não é a primeira vez que evoco a ação deste missionário jesuíta que dedicou a sua vida a servir e a instruir os outros, mas o texto de hoje vai centrar-se na presença da cultura portuguesa no Japão, considerando que, na atualidade, Portugal e Japão têm celebrado eventos em comum – caso do Pavilhão de Portugal na Expo em Osaka com o mote “Oceano , Diálogo Azul” , lembrando a ligação ao mar e o compromisso com um futuro mais sustentável – aliás esta ligação ao mar, já foi abordada pelo nosso Jesuíta Benjamim Pires na obra “A Vida Marítima de Macau no séc. XVIII”, em que os portos eram o único caminho para a chegada e partida para a Ásia.
O Padre Videira Pires era um transmontano nascido em Mirandela que saiu de casa cedo, como acontecia naquela época, para estudar. Depois de passar pelo seminário em Guimarães, entrou na Companhia de Jesus, em 1932. Quatro anos depois, concluiu o curso superior de Humanidades Clássicas e de Literatura Portuguesa. Já em Braga, estudou Filosofia e, em Granada, Teologia. A ordenação, enquanto sacerdote, aconteceu em 1945.
Três anos depois chegou a Macau. Foi um jesuíta muito humano e uma voz ativa, veiculada pela imprensa, através da rubrica “Calçada das Verdades.” Dedicou-se muito à comunidade cristã e à Língua Portuguesa.
Devido às perseguições dos cristãos, desde 1639, e às perturbadas relações entre Nagasaki (onde houve muitos mártires) e Macau, somente a 12 de Julho de 1860, foi a Tóquio (Xinagava) o governador de Macau e plenipotenciário português Isidoro Francisco Guimarães, com o objetivo de firmar com as entidades nipónicas um tratado a nível do comércio e de amizade.
Apesar de tudo, informou-nos o Padre Benjamim que dos 288 navios estrangeiros que entraram em Nagasaki entre fevereiro de 1867 e 1868, apenas um era português, o que revela que as relações entre o Japão e Portugal ainda não tinham cauterizado as feridas do passado. Um outro dado relevante, em 1859 viviam apenas quatro portugueses em IoKoama e outros quatro em Nagasaki, em 1862. Em 1880, residiam no “Império do Sol Nascente”, entre 20 a 60 portugueses, estando cerca de 35 em IoKoama, onde se publicava um jornal português, que durou apenas dez meses.
Mas vamos à influência cultural portuguesa, junto dos samurais. No campo da ciência e da tecnologia, os nossos descobridores e comerciantes introduziram a arma de fogo, nomeadamente, o mosquete. Com a ajuda dos portugueses, os japoneses rapidamente conseguiram fundir as espingardas e fabricar pólvora. Para assinalar esta inovação há um livro intitulado “Teppô-Ki” (Livro das Espingardas). Os budistas estavam deslumbrados com a invenção! Os canhões e armas eram importados da Índia, mas graças ao avanço neste ramo, a partir da influência portuguesa, Nagasaki criou uma fundição de canhões. Relembra-se que Nagasaki foi uma cidade fundada e administrada pelos jesuítas da Missão do Padroado Português, desde 1580 a 1587.
Em 1558, foi oferecido a Bungo (depois converteu-se) o primeiro canhão com a esfera armilar, o emblema imperial das descobertas, adoptado por D. Manuel I, que nunca foi tirado da nossa bandeira e dos escudos do Governo, juntamente com as cinco quinas e os sete castelos, unindo assim a primeira com a segunda dinastia – a mais portuguesa de todas. (pp 417-418). Com o progresso do conhecimento das armas, no Japão, houve transformação a nível de armas e no seu comércio – que vendia também peças para Macau e para Goa.
Outro ramo em que em que os portugueses se distinguiram foi na medicina e nas cirurgias modernas. Graças à ida de dois médicos portugueses (Luís de Almeida e Cristóvão Ferreira) para o país dos crisântemos, os doentes e as crianças passaram a ter cuidados especializados, tendo a Companhia de Jesus criado um Hospital em Funai, em 1557.O Médico Luís de Almeida, impressionado com a causa dos leprosos, entrou na Companhia de Jesus e dedicou-se inteiramente aos doentes. Foi para Macau, onde se ordenou sacerdote, regressou ao Japão e a sua ação era reconhecida e louvável por todos. Aí faleceu e, em 1964, “ergueu-se-lhe um monumento em Hondo, Amacusa, tendo assistido à cerimónia vários bispos e um representante do governo de Portugal. Também em Nagasáki figura outro monumento seu” (p.418) Cristóvão Ferreira, também jesuíta, exerceu medicina, escreveu obras e captou vários discípulos.
No campo da Astronomia houve também influência dos portugueses, pois a obra em análise relata que “a embaixada dos príncipes japoneses à Europa trouxe, em 1590, para o Japão instrumentos meteorológicos de observações celestes, que aperfeiçoaram o observatório já existente dos Jesuítas” (p.419). De igual modo, a construção naval japonesa foi estimulada pelos Portugueses que se mostravam avançados em relação aos conhecimentos e arte de navegação. Releva-se o trabalho de Inácio Monteiro que percorreu o Japão Ocidental e fez o primeiro mapa geográfico do Japão.
A grande preocupação e, seguindo dos ensinamentos de Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus: “a Educação é a arma mais efectiva da propagação da fé”, os missionários empenharam-se de alma e coração, nesta tarefa de “educar” No final do séc. XVI, a Ordem tinha 372 colégios. A primeira escola foi fundada em 1561, mas o alargamento da rede escolar expandiu-se de tal forma que, em 1583, a rede tá tinha 200 escolas. A expulsão dos missionários provocou a decadência e com o extermínio da fé católica veio a machada final.
A Imprensa e as Artes também floriram com a presença de dois irmãos leigos – Jorge de Loyola e Constantino Dourado – que trouxeram para o Japão uma imprensa de tipos móveis.
A nível da pintura, o jesuíta João Nicolau tornou-se célebre pela fundação de uma escola específica de pintura. Há muitas imagens que remontam à sua técnica e ao passado, quer em obras religiosas, quer em monumentos e artefactos.
No âmbito dos costumes, destaca-se “Quando S. Francisco Xavier chegou a Funai, os nossos marinheiros marcharam em formação, com uma banda de música portuguesa à frente”; também no Natal e em várias cerimónias eram entoados cânticos pelos portugueses que cantavam de pé. A Missão Portuguesa organizava representações cénicas nas igrejas e ao ar livre, com intuito de espalhar a cultura, os hábitos e a religião. As principais passagens bíblicas eram exaltadas e dramatizadas e, com todo este trabalho de proselitismo, a língua portuguesa e o léxico expandiu-se enormemente: “Um índice da popularidade que adquiriram os costumes portugueses e a nossa cultura no Japão é o número de palavras lusíadas que entraram na língua japonesa, muitas das quais se empregam em nossos dias. Exemplos (os nomes de tecidos -Raxa, canequim, veludo, sãotomé, bengala, raxeta, saraça) e outros termos: mouros, chula, capa, gibão, botão, meias, sabão etc” (p423).
O vocabulário entrou paulatinamente nas várias dimensões do quotidiano japonês, o mesmo acontecendo no léxico português que assimilou alguns termos nipónicos: leque, catana, banzé, biombo, etc. O tempo e as perturbações políticas, sociais e religiosas conduziram a uma mudança radical. Talvez o escritor que mais resistiu e se distinguiu isoladamente terá sido Venceslau de Morais, pela aculturação da vida japonesa e pelo exotismo literário; há, no entanto, quem ainda estude a Língua Portuguesa e a nossa Literatura, orientados por professores formados no nosso idioma. Apesar de serem casos esporádicos, parece que o “País do Sol Nascente” está a abrir-se lentamente ao Ocidente.
Um exemplo marcante é o vídeo de um coro masculino da cidade de Nagasaki cantando o Hino de Portugal para celebrar os 450 anos do porto da cidade, que foi aberto ao mundo por portugueses. Há também cantores japoneses, como Tsubasa Imamura, que cantam músicas de artistas brasileiros e portugueses em português. A enfermeira japonesa Kayoko Honda, de vinte e cinco anos, também canta em português. O tema da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) foi também cantado em português por um grupo de jovens japoneses, o que revela que o apreço dos japoneses pela cultura portuguesa está a florescer.
E os acordes da guitarra portuguesa soam no Japão, através de “Tumi” que veio estudar para Lisboa, com intuito de publicar um manual, no Japão, sobre a nossa guitarra portuguesa.
Em Osaka, os seus sons soaram e uniram-se aos dos portugueses… construindo uma nova História.
*Docente. A autora escreve sob o novo Acordo Ortográfico que não está oficialmente em vigor em Macau



