Carlos Frota *

Carlos Frota *

O continente sul-americano é uma vasta área que sempre me fascinou, com o seu misto de familiaridade, graças à herança luso-espanhola – e de exotismo das coisas novas.

Nas minhas andanças de três décadas e meia como diplomata, não tive infelizmente a oportunidade de conhecer ou de visitar a região, o que considero uma das muitas lacunas importantes, não só do meu percurso profissional, como principalmente da minha experiência humana.

Mas estive sempre muito próximo dos meus colegas sul-americanos, nos vários postos da carreira diplomática. E estive brevemente no Rio de Janeiro e pude ir a Fortaleza, onde se  concentra o ramo brasileiro da minha árvore genealógica, gerada no triplo solo de três continentes, frutos do antigo império. Foram, no dizer do poeta, as malhas que o império connosco também teceu.

Teias compostas de gente tão diversa como um general direitista, um bispo, padres e freiras, desconhecidos empregados municipais, anónimas donas de casa, causídicos e boticários, juízes e escrivães.

Não sei se tenho parentes congressistas, dispostos a exonerar presidentes menos honestos; ou polícias de choque, a fazer a ronda das favelas, ou mesmo parentes meus em favelas rodeadas de polícia – mas tudo isso é outra, são outras histórias…

Não li aliás integralmente o volumoso primeiro tomo da obra “Os Frotas do Brasil, do padre José da Frota, cuja reprodução me ofereceu um colega e amigo, então Cônsul Geral de Portugal no Rio de Janeiro, e cujo original encontrou na Biblioteca do Palácio de São Clemente.

Acresce que, como português, claro que tenho, cá dentro, como todos nós, um lugar especial reservado ao Brasil, não por nostalgia colonial, mas porque os brasileiros foram sempre, para nós, esses irmãos de sangue que vivem longe, mas estão presentes nas conversas de família.

A minha vivência não europeia, e desde logo angolana, facilitou todavia o que designo por “princípio de intuição”, quanto à realidade latino-americana, desde a familiaridade com sociedades multiculturais e multirraciais como aquela onde nasci, até ao sentir quotidiano dessa energia vibrante que têm as nações novas, cheias de esperança no futuro.

 

A ilusão do modelo europeu

Foi essa experiência não europeia que me evitou aliás a ilusão, ou o erro de considerar as nações sul americanas como uma espécie de má imitação de um qualquer modelo europeu, que só existe na visão de quem anda com óculos errados, a ver o mundo.

As sociedades não se reproduzem como fotocópias, e não considerar isso como essencial tem constituído defeito de análise de muito boa gente.

Mas, também, não aferir o progresso ou o desenvolvimento das sociedades por um qualquer padrão externo, não satisfaz nem detém quem sabe comparar o que é comparável, sobretudo neste nosso tempo onde as economias, as sociedades, as políticas e os políticos, se desvendam à mera curiosidade, de quem consulta livremente a internet.

Porque se trata de satisfazer ou de frustrar, no presente, aqueles que têm como destino construir o futuro. E esses são inevitavelmente os mais jovens.

Futuro pelos vistos  adiado, se se julgar pelos bloqueios económicos, sociais e políticos, evidentes na situação interna de muitos dos países do subcontinente.

 

Estórias de indigência política… e não só

Não tem nada de original o inventário das questões comuns a muitos estados da região. Países dotados geralmente de recursos do solo e do subsolo, constitui desafio para cada um deles, isso sim, o modo de os fazer frutificar em benefício do maior número. E não apenas de uma classe detentora das alavancas da terra, do saber técnico, do capital financeiro, combinando tudo numa receita de que são os principais ou exclusivos beneficiários.

O povo fica de fora, as desigualdades agudizam-se, e as respostas políticas têm sido mais ideológicas do que pragmáticas.  Até para resistirem ao abraço asfixiante do conhecido Tio Sam.

E as respostas são historicamente conhecidas: desde as FARC que tardaram em desarmar, até ao socialismo tardio de Chávez e Maduro, a prolongar-se de forma estéril, num mundo que é já completamente diferente.

E tudo isto passando, também, pelo populismo democrático de Lula, e pela tentativa falhada da sua continuação com Dilma, acarinhados ambos por aqueles que defenderam. Mas a braços, principalmente Lula, com uma situação judicial complicada, não isenta se calhar de alguma remanche política.

Todas estas receitas são respostas diferentes a um mesmo e só problema: a fragilidade ou inexistência de consensos sociais básicos, imprescindíveis para a credibilidade dos sistemas e suas instituições, em sociedades profundamente desiguais.

Com outros males, tão terríveis como a pobreza extrema, a somar a todos os outros: refiro-me ao inimaginável submundo da droga, com os seus Escobares, a sua cultura da marginalidade assumida, as suas ramificações para além das fronteiras… e as suas vítimas, principalmente os adolescentes e jovens dos mercados destinatários.

Mas as desigualdades estruturais têm ainda outro preço, ligado ou não ligado ao precedente: a criminalidade e a violência urbanas, o sentimento de insegurança geral.

O Rio de Janeiro está sob controlo militar desde há dias, por ordem de Michel Temer. A polícia foi ultrapassada. Está-se em teatro de guerra!

Embora seja mais fácil perguntar do que responder, por que se não ousa ir às causas profundas de tudo isto?

Não é difícil apontar o dedo aos políticos. Pois, realmente, a quem mais?

 

Quando não se agarra o presente…

… é o futuro que foge. Quando se adia a esperança, é o futuro que escapa… A China é hoje o melhor exemplo de como agarrar o presente, para não deixar fugir o futuro. E de tanto assim proceder, a China antecipou mesmo o futuro, em muitas áreas.

Isto não é admiração ingénua, é a leitura correcta e pragmática da realidade. E quem não a quiser ler assim – atrasa-se.

Muito se tem falado e escrito sobre a possibilidade de reprodução do modelo de desenvolvimento chinês a outras latitudes. Mas se a receita total não é exportável, sê-lo-ão seguramente muitas das medidas parcelares, sobre que terão todo interesse em reflectir líderes políticos e decisores económicos.

 

O ano de todas as escolhas

Ocorre-me tal pensamento ao verificar que 2018 será um importante ano político e eleitoral para vários países sul-americanos, e por isso trago hoje para a nossa conversa o tópico da América Latina no seu conjunto, muitas vezes ausente da minha reflexão.

Este ano, de facto, seis eleições presidenciais irão decorrer: a 1 de Abril a segunda volta na Costa Rica. A 22 de Abril no Paraguai e na Venezuela. A 27 de Maio a primeira volta na Colômbia, com segunda volta a 11 de Junho se necessário. A1 Julho no México. A 7 de Outubro: a primeira volta no Brasil, com segunda a 28 se necessário.

Considera-se assim que dois terços dos mais de 600 milhões de sul-americanos terão novo líder este ano e os eleitos poderão alterar profundamente a forma como a América Latina decide e age.

Acresce que a América Latina que tem hoje a China como parceiro importantíssimo, “transgredindo” (?) assim um código inexistente de fidelidade ao grande vizinho do norte que se distraiu – e agora desperta sobressaltado. Como o demonstra o teor dos discursos de Rex Tillerson, o secretário de Estado americano, em recente périplo à região.

 

* Primeiro Cônsul-Geral de Portugal em Macau e antigo Embaixador na Coreia do Sul e Indonésia