Júlia Serra*
Júlia Serra*

Ao livro Contos de Macau da autoria de João Morgado foi atribuído o Prémio Nacional do Conto “Manuel da Fonseca” pela Câmara Municipal de Santiago do Cacém, XIII Edição 2020, sendo a obra publicada em 2021. Apenas algumas referências ao escritor Manuel da Fonseca, (nasceu em Santiago de Cacém, em 1911 e faleceu, em Lisboa, em 1993), o inspirador do galardoado. Manuel da Fonseca também ele escreveu contos em Fogo e as Cinzas, motivado por Carlos de Oliveira, num momento da vida em que o autor estava desanimado com as “coisas literárias”. Bem, lá se decidiu a rever a escrita e ordenar os contos e diz-nos, no Prefácio: “Aqui começa o latifúndio: fome e solidão. Zona esta onde se situam os contos deste livro” (Manuel da Fonseca, O Fogo e as Cinzas, 11ª edição, 1951, Editorial Caminho, pg 16.).

No conto O Largo o narrador recorda o passado dos lugares, quando o Largo era o centro da Vila; depois veio o comboio: “O comboio matou o Largo”; o espaço que era de crianças, de vida, de valentia e de rasgos de inteligência, agora “veio o comboio e mudou a vila” (…) “As mulheres, cortaram os cabelos pintaram a boca e saem sozinhas.” A telefonia e as notícias chegam depressa; agora, o Largo é todo o mundo. Foi o preço do progresso … e, hoje, o Largo – que foi a personagem principal – está esquecido. Os homens são mais resistentes a esse progresso (lembremos também o conto Sempre é uma Companhia), mas, por vezes, afogam-se no vinho e maltratam as mulheres. É este cenário de solidão, de desigualdade social e de violência doméstica que Manuel da Fonseca nos deu a conhecer, provocando uma reflexão, sobretudo, com enfoque no papel da mulher, no Alentejo.

João Morgado (JM.), natural da Covilhã, é escritor, jornalista, assessor político e portador de um enorme alfobre literário, conforme já foi evocado no meu primeiro artigo A sua obra literária é multifacetada, formada por romance, poesia e contos, abrangendo espaços e cenários diferentes e voltada, essencialmente, para o passado quer da história quer da cartografia de lugares (assemelhando-se a Manuel da Fonseca) não só por remexer o passado, mas pela valorização e nomeação de espaços que, outrora, foram palco das personagens que pululam em “Contos de Macau” (João Morgado, Contos de Macau, 2021, Edições Colibri) .

Este livro é formado por dez contos, bastante diversos, embora com traços comuns na tematização: a presença do dragão, com olhos redondos e até aparecem nove (conto Cinderela); a cabeça do dragão e cobra-dragão (O Poeta Barbirruivo); as mulheres infelizes e maltratadas pelos homens, em situações degradantes e trágicas – exemplificadas em A última Curva; casamentos por interesse e envolvendo jogo (Contrabandista); evocação de lugares típicos do território – Patane, Jardim de Camões, Portas do Cerco, ilhas de Taipa e Coloane –e instituições como o Orfanato da Imaculada Conceição e Colégio D. Bosco (Sorte ao Jogo …e ao Amor). É uma prosa simples, com a mistura do fantástico e maravilhoso, onde sobressaem vultuosos rasgos de imaginação que encantam o leitor, transportando-o para o tempo de infância, estampado em “Os Sonhos”.

A entretecer a prosa ressaltam, então, os vícios do jogo, a concubinagem, o português, por vezes fardado, que conquista “a mulher mais bonita do mundo” e vive uma situação dupla, mesmo com a cumplicidade da própria mulher (As Viúvas) e ainda outros que, tendo filhos, abandonam as relações, deixando o(s) descendente(s) sendo filhos de ninguém – caso de Fung – um menino da Roda, como na prosa camiliana.

É um livro em que o “contador” tenta metamorfosear um final feliz, mas nem sempre é possível, dado o entrelaçamento entre o Bem e o Mal e as dicotomias que se vão gerando no percurso existencial das histórias: o contrabandista não podia ser honrado, pois “Estava no meio de um bando que, soube depois, obedecia a Chuen, o chefe da tríade” que ele próprio matou (p.58); o médico português recusava a medicina tradicional e o curandeiro, mas pretendia aproveitar-se disso para se valorizar (o seu verdadeiro “salvador” era o curandeiro) e transitava entre a luz/sombra; a Cinderela é vítima do ódio e inveja da meia-irmã, apesar da ajuda “do velho farrapento de longas barbas” (p.45) e deixou fugir o marinheiro português; Florbela, a mulher do Mercedes 190 SL, encontrou “na última curva” a redenção dos seus pecados, perante o filho. A toda a velocidade acelerou, pois não conseguia aguentar o troar das palavras do filho que, tendo espreitado pela fechadura da porta, a vira prostituir-se com outros homens para pagar as loucuras do seu pai. Após a morte da mãe, ele próprio matou o pai e, depois? “Precisava de acelerar até à curva, até à última curva!”(pp.88-89) – O amor /ódio

Há, no entanto, finais felizes Sorte ao jogo… e ao amor, contrariando a teoria de Eça de Queirós, em “Os Maias”( Eça de Queirós, Os Maias, Livros do Brasil,2004, Lisboa): ”Ah , monsieur – exclamou a vasta ministra da Baviera, furiosa – méfiez-vous— Vous connaissez le proverbe: heureux au jeu…”(p.336).

Fung e Margarida ( o casal deste conto) apesar de uma primeira rejeição ao enlace do casal, por parte do pai da noiva, este aceitou o casamento entre ambos, quando se viu submetido ao dinheiro de Fung que ganhara no jogo, graças à intervenção de um adjuvante velho que lhe forneceu uns ricos óculos e, sobretudo, bons conselhos: “Viram o fogo -de-artifício juntos, nesse ano e em muitos outros, porque diz o povo que foram felizes – e ricos –, para sempre”(p.109).

O Poeta Barbarruivo na Ponta da Blusa retrata os amores de Camões e de Tin Nam Men – aquela que nos seus sonetos surge como a Dinamene. Morgado criou uma versão muito poética da lenda, sobretudo, com metáforas de escrita no corpo e o limpar as mãos na ponta da blusa. Um conto em que se confunde o amor real com o metafísico e as tormentosas águas do rio Mekon apagando a escrita das folhas, enquanto os amantes, aparentemente separados, se reencontravam para deixar triunfar o Amor, que tudo vencera, para os juntar no jardim dos encontros: “regressaram os amantes ao jardim, à pedra gasta e polida dos muitos sentares. Ela folha de poeta, escrita, re-escrita, com uma letra delicada, mas profunda, com a ponta da blusa sempre pronta a limpar a boca e as mãos dos seus filhos. “Dez Cantos” exclama Luiz, “de um poema a cantar o amor” (p.98).

Para finalizar a abordagem da obra, o conto Os Sonhos ´é o mais humano e emotivo de todos, pois afunda os olhos em lágrimas a qualquer leitor. Uma simples costureira, do lado dos Mercadores, costurava dia e noite para criar o filho que um português abandonara, deixando-o à sorte do Destino e da Mãe… A costureira perdera os sonhos, mas passava o tempo a criar sonhos para as senhoras ricas; um filho que vivia atormentado com o sorriso silencioso da mãe e, também ele, sem coragem para sonhar… este cenário ternurento é chocante! Ela seroava a noite inteira a pedalar na máquina para que outras sonhassem, enquanto o filho passava a noite a sonhar com a mãe e a escolher palavras de reconhecimento: ”Na minha imperfeição, talvez eu nem sempre seja como a minha mãe me sonha, mas ela não se importa, continua a sonhar-me com sorrisos, porque sonhar um filho é uma história interminável, não acaba nunca…” (p.30). O narrador assumiu esta passagem em primeira pessoa, não será ele, a voz de João, a agradecer também à mãe? Esta fusão do narrador e narratário é uma estratégia metanarrativa, uma espécie de desdobramento num “outrar-se”, para incluir os próprios leitores.

São contos que ficam gravados na memória…. despoletando reflexões sobre a vida e o mundo, particularmente de Macau, com raízes num passado, e priorizando ações futuras mais justas e equilibradas.

Um livro de contos que a Câmara de Cacém soube valorizar e fazer chegar aos leitores!

 

*Docente. A autora escreve sob o novo Acordo Ortográfico que não está oficialmente em vigor em Macau