A poesia é essencialmente produto de imaginação e de emoções enquadradas num espaço-tempo do Ser. Esse tempo pode esgotar-se rápido ou permanecer na ampulheta em espera … de um outro tempo ou vivência para retomar o ritmo. Neste livro de poemas intitulado “Sombra Imperfeita”, da autoria de António José Queiroz, o tempo parece ter encalhado na clepsidra e as palavras deixaram de ser escritas sob a força temporal, abrangendo três lustros (15 anos – 3×5) até à sua publicação. Hesitação do sujeito poético ou temendo o augúrio de Agustina Bessa-Luís que o Professor António Cândido relembrou na Introdução:
Ouve o que te digo; se fores prudente, faz versos; se não fores prudente, faz versos também. Polímnia, de discreta face, distinguirá, e leva-te pela mão aos infernos, que é onde vivem os poetas todos – os bons e os maus, por ambições cultas e outras.
Agustina Bessa- Luís
O prefaciador, porém, desmistificou a imagem do profundo, do abismo de Baudelaire, acrescentando: “O inferno dos poetas é porém no seu conjunto o melhor de todos, pois é o único que se vive de olhos abertos e não se distingue, através da consciência, do paraíso. Entre o azul do céu e o vermelho do fogo, entre a seda e a rosa, entre a criação e a representação, o poeta é um alquimista da noite que atravessa as paredes espessas do mundo e corrige a triste e leda realidade. É esta que se engana e não a poesia” (p.8).
Talvez tenha sido esta fervorosa crença na poesia que levou o estudioso António Cândido a selecionar a palavra Pureza para expressar melhor o que esta pretendia dizer. A partir deste lexema, o investigador analisa foneticamente as vogais e consoantes e voa para o campo semântico e semiótico, retomando as intencionalidades poéticas mais vincadas pelo sujeito de enunciação: sombra, solidão, noite, memória, imperfeição, secretismo, miragem e outros vocábulos afins.
A obra, apesar de se ter esticado no tempo, é formada por sete capítulos, tendo cada um oito poemas, totalizando 56 textos, distribuídos por oitenta páginas. O versilibrismo da poesia permitiu um deslizamento da pulsão poética mais natural, mas talvez mais profundo, encaminhando o leitor para a descoberta do labirinto em que se fecha o sujeito e constitui o desafio entre o “eu” e os outros (leitores). Quem é este poeta?
Nasceu em Vila Meã, concelho de Amarante, em 1954. Professor aposentado, doutorado em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, foi investigador do CEPESE (Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade) e membro efetivo do Centro de Estudos do Pensamento Português da Universidade Católica Portuguesa (Porto). Autor de vários trabalhos e publicações não só em Portugal, mas também em Espanha, é membro da Associação Portuguesa de Escritores e da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Um investigador de renome que nasceu na terra de Teixeira de Pascoais e de Agustina Bessa-Luís, tendo sido, portanto, embalado num berço de culturalidade e saudosismo.
Voltando ao florilégio poético da obra, tenho dificuldade em selecionar as flores mais bonitas, mas atrevo-me a destacar Até ao Fim (p.28), Sombra Imperfeita (p.30) e Mapa Incerto (p.68) – três textos que travejam, no essencial, quase toda a obra e repisam o entreter da monotonia “Folheio devagar um livro que não chego a ler, / as páginas são apenas o gesto da mão cansada./O quarto sustém a longa monotonia,/ uma sombra que se arrasta e permanece.(…) A perda repete-se como gesto involuntário,/e o vazio recolhe tudo, paciente, até ao fim”(Até ao Fim, p.28).
O sujeito lírico revela, para além da monotonia – expressa em “gesto da mão cansada, na sombra que se arrasta, nos olhos pesados e no silêncio – uma melancolia afeta à inquietação e metamorfose da memória, mostrando que corpo e alma foram afetados e “Existir torna-se uma lassidão sem forma”. Um poema que resgata o passado com marcas profundas de uma “perda” responsável pelo tal vazio – que considero intimamente associado ao segundo texto –onde o poeta se sente fechado e cheio de interrogações: “Caminho sem pressa pelas veredas/de um labirinto onde o tempo se dissolve./Ouço o som dos meus passos solitários/e sinto a fragrância de um jardim esquecido.”(Sombra Imperfeita.p.30).
Há uma espécie de desdobramento do “eu”, ressonâncias e ecos de um passado que resultaram de uma escolha “entre ser livre ou ser feliz” e da possibilidade de escolher outro destino que, apesar de uma decisão consciente, não lhe favoreceu a descontração melancólica que almejava e, já tarde, pretende libertar-se do labirinto, para renascer primordialmente: “do pó vim; ao pó quero regressar”, terminando: “Se Deus projetou em mim a sua imagem,/em mim negou a divina perfeição” (p.30).
Este poema, o título da obra, revela um pungimento do sujeito de enunciação perante Deus, por não ter atingido a perfeição que, certamente, Ele teria projetado para “si”, sendo percetível a divisão do “eu” e a memória do silêncio que o acompanha como um véu intransponível
É um “eu” cheio de “pureza”, conforme asseverou o Professor António Cândido, carregando em si memórias que nunca se transformaram em chuva, desabando o nublado, para dar luz ao azul do céu.
O terceiro poema Mapa Incerto continua a assinalar o percurso “O caminho errante abre-se como um livro ilegível, /o vento sopra nele sinais que não entendo.” O sujeito recorda um sonho que se esvai e cava nele aflição, pelo nevoeiro que se adensou roubando-lhe a claridade do amanhã – tempo de indefinição e prolongamento do silêncio doloroso: “Profundo é o silêncio, mais fundo do que a fala,/onde cada sinal se apaga antes de nascer. / E, contudo, avanço, sem saber se caminho, / como quem escreve no ar e espera ser lido. / O incerto é o único mapa que persisto em seguir.” (p.30). A vida é cheia de rodeios para o sujeito, mas talvez seja uma forma de sair dele, de tempos a tempos… até que uma nova sombra chegue e o desperte para a autodescoberta de si próprio.
Escolhi três poemas, tal como o prefaciador divagou sobre as três sílabas da palavra “pureza” – o número três simbolicamente representa a Perfeição, a ordem intelectual e espiritual, opondo-se à “imagem imperfeita” tecida pelo “eu” que, humildemente, confessou; no entanto, através da poesia, ele ascende a um plano superior, em busca da transcendência, ao percorrer esse mapa que lhe foi traçado.
Não poderia terminar este texto sem a referência ao capítulo de Macau, onde o poeta descortinou os principais ícones do Oriente: o Templo da Deusa A-Má , a protetora dos pescadores; As Ruínas de S. Paulo, que restaram do incêndio e são um pórtico sagrado; a referência ao Leal Senado, aos casinos e ao jogo. Camilo Pessanha, o autor da Clepsidra e representante do simbolismo português, A Gruta de Camões, grande atração turística e baluarte da Língua Portuguesa; as Ilhas de Taipa e de Coloane fazem também parte deste séquito poético que define o território e enche de memórias o futuro, para quem imagina ou vai à Cidade do Santo Nome de Deus de Macau – uma ponte entre o Oriente e o Ocidente.
Em jeito de conclusão, acrescento ainda que a continuidade do estado emocional do “eu” é interrompida, quando refere temas mais concretos ou viagens reais ou simuladas, provocando uma certa rutura entre alguns poemas da última parte e os restantes capítulos, vendo nessa descontinuidade uma fuga para um despertar, colocada na interrogação A Vida é Sonho?
Um livro de poemas, uma sinfonia poética e um sinal dos tempos – em Sombra Imperfeita.
*Docente. A autora escreve sob o novo Acordo Ortográfico que não está oficialmente em vigor em Macau



