Os pagodes são vistos à luz da Fé e da religião Budista. O antigo jornal Eco Macaense indica que esta religião era praticada pelos chineses que habitavam em Macau e aí tinham construído os seus locais de culto. Eram mencionados os pagodes do Patane, de Mong-ha e o de Hong Kong-miu. Sabe-se que em 1867 havia, em Macau, doze pagodes, segundo José Simões Morais, em Hoje Macau. Estavam distribuídos pelo território desta forma: três no Bazar, dois em Patane, seis em Mong ha e um na povoação da Barra, o Templo de A- Má (a deusa Neang Ma) construído em 1488 e onde habitavam dez bonzos.
As referências às comemorações das festas chinesas não são muito explícitas, mas há registo de uma procissão comemorativa da reedificação do pagode de Patane. Como os pagodes são fundamentalmente da China, há aspetos a considerar nos templos de Macau, pois as práticas religiosas ocorridas no território denunciavam a presença de padres católicos e da respetiva educação cultural. No entanto, há artigos que registam que, na véspera do ano Novo Chinês, os chineses juntamente com a sua família se deslocavam ao pagode Hung-Kung-miu para “baterem as cabeças aos seus deuses.”
Monsenhor Manuel Teixeira escreveu uma célebre obra intitulada “Pagodes de Macau“, o que revela a importância destes templos na cidade, mas convém relembrar as doutas palavras da grande sinóloga Celina Veiga de Oliveira (C:V.O.) sobre o grande fardo que fora colocado ao Monsenhor: “ Em Julho de 1579, Ruggieri (jesuíta italiano) estava em Macau e lançou-se –cumprindo ordens de Valignano ( jesuíta italiano encarregado das missões católicas na China e no Japão – ao «estudo do mandarim com todo o ardor».
A investigadora (C.V.O.) acrescenta: “Mas, diz-nos Monsenhor Manuel Teixeira, o trabalho não era fácil; os chineses que vinham do interior conheciam pouco essa língua; os jurubassas ou intérpretes cristãos, com trajos e nomes portugueses, nada sabiam das letras chinesas e muito pouco das portuguesas; apenas um pintor, que bem pouco português sabia, lhe pintava no papel as figuras que os caracteres significavam. Por ex., tratando-se de um cavalo, o pintor desenhava-o e traçava por baixo o carácter ma (cavalo). Era uma coisa ridícula e por isso os portugueses e os padres metiam-no a ridículo”. Esta influição da aprendizagem da língua chinesa, talvez, tenha contribuído para entrar no “rochedo” chinês e permitido iluminar algumas áreas ou distinguir sombras, até então, inexistentes.
Este desafio fez do padre Manuel Teixeira um famoso historiador português de Macau e um sacerdote católico. Viveu grande parte da sua vida em Macau e contribuiu nas áreas de missionação, de educação e do estudo da história. Deixou uma grande quantidade de informação valiosa sobre a História daquela terra, sendo este livro “Pagodes de Macau” um importante contributo para a história dos pagodes.
Uma curiosidade que atravessou as minhas leituras, sobre o termo “pagode” e creio que os leitores devem apreciar: “O senso primitivo desta palavra “pagode “, na Índia é templo, monumento religioso e por analogia Barros, Couto, Lobo, &c. a usarão como reunião, ajuntamento religioso de idólatras e o mesmo que ídolo adorado. Também significa funçanata, função de comesaina, de comes e bebes,e até de danças, cantares, folganças e prazeres licenciosos, semelhantes aos que na Ásia praticão as bailadeiras de certos pagodes, ganhando pelo preço da prostituição a mantença deles. É também moéda Índia, de valor irregular,segundo o ágio; a de prata vale cerca de 1$00, e a de ouro quatorze ou quinze vezes mais” (Coleçcão de Proverbios, Adagios, Rifaõs, Anexins , de P. Perestrello da Camara).
Assim, o lexema “pagode” entrou nas festas e espalhou-se, conforme preceito da doutrina budista que não queima e “as relíquias do buda, são/foram repartidas pelos países que abraçavam a sua doutrina, e depositadas em capelas que, para as guardar, foram erigidas à sombra de copadas árvores em memória daquela sob a qual ele pela vez primeira se sentiu iluminado” (Mendes[1], vol.I, p.220). Assim, as árvores frondosas anunciam a presença do Pagode, aliás, presente na toponímia macaense exibida na Rua das Árvores do Pagode.
A estrutura arquitetónica do Pagode, na China, é semelhante à de uma capela, podendo ser formado por um único pavilhão ou vários e até por compartimentos. Esta mesma estrutura é visível em Macau. O princípio que vigora no Pagode é o da simetria e os edifícios são geralmente modestos sem pergaminhos arquitetónicos, priorizando o decorativo e a cobertura. A atração do templo está mais na talha, com recurvas nas extremidades e, do telhado esmaltado, ressaltam as figuras de dragões, fénixes e outros animais grotescos, como muito bem nos elucida a fabulosa obra do Dr. Manuel Silva Mendes (M.S.M.). Este grande investigador dedicou, na obra supracitada, um capítulo ao Pagode de Mong-ha, pois não sendo um templo budista é um exemplar artístico ímpar “que não tem igual assim em qualquer parte, como tem uma casa de auto ou de culao “(p.183).
A nível arquitetónico é uma obra modesta, mas contrariamente à maior parte das obras chinesas, que não apresentam vestígios do passado, este edifício contém restos da história de quem lá habitou: há colunas de pedra, portas de granito e outros materiais enterrados que denunciam um lugar de ricas construções de abrigo de antigos deuses e mandarins. As demolições efetuadas exibem ainda belas pinturas que foram executadas por artistas e artífices (entalhadores, imaginários, alveneiros) que por lá se fixaram nos tempos passados.
O autor (MSM) acrescenta: “O templo, dedicado a Kun Yam – a terna deusa que ouve as preces dos chineses – tem alguma coisa de grandioso no vestíbulo e na fachada que o enfrenta. Lembra, à parte o estilo, um templo de Vesta ou de Minerva, em que a arte seja parte integrante do culto; um templo em que se venere um deus-artista. A profusão dos pormenores decorativos é caracteristicamente chinesa pelo recurso a figuras e animais do ideário chinês, embora a representação de trechos esculpidos e recortados em granito seja labor de antanho, porque a fé baniu a alma dos artistas”. (Mendes, Manuel da Silva: memória e pensamento, vol. I. Arte, Filosofia e Religião, Cultura e Tradições, Ed. Livros do Oriente, 2017, p.184). No interior, o pagode é semelhante aos demais, salvo um ou outro aspeto mais incomum.
Recorda o autor que, no passado, os pagodes eram quase todos repositórios de objetos artísticos e, como bom amante e apreciador de arte, evoca vários exemplares que vira, desde bronzes e vasos de porcelana e, neste cortejo de recordações, incorpora um admirável trio divino em um dos altares da Kun Yam de Mong – Ha que foi substituído “por três monstruosos e medonhos bichos em guisa de deuses que teriam tido forma humana” (p.184).
A embelezar este pagode, no exterior, há dois belos exemplares da flora que só por si valem uma visita – “dois augustos robles” – duas veneráveis árvores que marcam a transição do passado para o presente.
Lamenta o autor que este Pagode seja pouco conhecido e apreciado; mas adverte que é necessário ter alma de artista … caso contrário, será melhor escolher outro percurso.
“Não vá lá o público, o pagode é dos deuses, bonzos, dos mendigos e… dos artistas. Outra gente não vá lá, que perde o tempo” (p.186).
Que melhor definição para retratar Silva Mendes? Uma figura que ficou na terra que o acolheu e que de alma e coração se dedicou à sua Macau. Da sua longa e profícua carreira, deixou marcas: nos alunos, nos amigos, na escrita e até nas pedras que reproduzem a sua voz.
De longe, contemplamos as suas peugadas e saudamos o nosso conterrâneo!
*Docente. A autora escreve sob o novo Acordo Ortográfico que não está oficialmente em vigor em Macau



