Júlia Serra*
Júlia Serra*

Os portugueses e a História dos Descobrimentos – ou por fruto do destino ou por espírito aventureiro ou mesmo por mero acaso – fixaram-se em Macau e aí começaram a construir a sua História por volta de 1557, embora tenham aportado mais cedo, na Ásia, impulsionados por D. João II, mas as verdadeiras conquistas aconteceram no reinado de D. Manuel.

Nessa altura, el-Rei de Cochim tornou-se aliado dos portugueses e permitiu o estabelecimento de uma base, envolvendo os lusos nos interesses do Malabar, constituindo uma ameaça ao comércio muçulmano e consequentes ataques a Cochim. Nesta sequência, Afonso e Francisco de Albuquerque construíram a primeira fortaleza na Ásia Maior para proteção régia e dos Portugueses.

Foram vários os acontecimentos históricos e medidas adotadas, geralmente, a partir da Índia, com intuito de dinamizar o comércio entre Portugal e o Oriente, numa relação de paz, nem sempre dulcificada. Reza a História que se estabeleceram mercadores portugueses, se intensificaram as relações comerciais e Fujian chegou a ser um porto de escala na costa chinesa que facilitou a chegada ao Japão, em 1543.

Retomando a estadia dos portugueses em Macau, motivada por interesses financeiros e estratégicos, em ligação com Cantão, eles foram acoitados pelos chineses, através do pagamento de uma renda e do comércio vantajoso favorecido pelos produtos transacionados – sobretudo especiarias –que pagavam em “patacões de prata”, provenientes possivelmente do México. Mais tarde, o Governo Qing concordou em dar aos Portugueses o direito de gerir Macau e de não pagar foros pela ocupação do território.

Em 1979, a 8 de Fevereiro, o General Melo Egídio faz a primeira visita oficial de um governador a Pequim, com intenção de encontrar soluções e acordo, sobre as várias questões, particularmente, a relativa a Hong Kong. Assim, se caminhava a passos largos para a Elaboração da Lei Básica de Macau (1988) aprovada em 31 de Março de 1993 e que originou a futura Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), em 20 de Dezembro de 1999.

Esta breve contextualização dos marcos históricos não tem como objetivo fixar datas, mas, sobretudo, revelar o desenvolvimento e os esforços simultâneos que permitiram tal demarcação espácio-temporal.

Macau era uma terra de pescadores, um território com sete freguesias a oeste do Delta das Pérolas e a poucos quilómetros de Hong Kong. Sobressaíam as ilhas de Taipa e Coloane. Era/é um território essencialmente plano constituído por sete Colinas, algumas com vegetação abundante – caso das colinas da Guia, Ilha Verde, do Monte de Mong Hà.

Ora é esta paisagem verdejante e a quantidade de Jardins que nos conduz ao texto de hoje, ou melhor, à redescoberta de Matias da Luz Soares (1830-1883), um horticultor e botânico afamado, como o designou António Aresta, neste Jornal (JTM, a 10 de Novembro de 2021). O citado historiador António Aresta salientou ainda:

 

Deu à estampa em Hong Kong, na prestigiada Tipografia de Delfino Noronha, as Máximas, Conselhos Morais, Pensamentos, Memórias, Sentimentos Nobres e Provérbios, em 1863. Esta obra teve uma misteriosa segunda edição póstuma, em 1890, no Porto, na Livraria Internacional de Ernesto Chardron, o editor de Camilo Castelo Branco, de Eça de Queiroz e de outros escritores de nomeada. Como nota colateral, diga-se que o seu filho ‘Frank’ Soares salvou em plena segunda guerra mundial, centenas de compatriotas dos campos de concentração nipónicos, emitindo documentos de identificação portugueses, no consulado de Portugal em Hong Kong, um gesto de grande coragem e de moralidade absoluta. Foi uma acção ainda não reconhecida oficialmente, similar à de Aristides de Sousa Mendes.

 

Acresce referir que Jorge Rangel, no Congresso Académico em Aveiro, a 6 de novembro de 2023, sobre os Escritores Ligados a Macau, alcandorou a obra de Matias da Luz Soares, evocando também o ser: “é uma personagem exterior ao sistema de ensino e de educação e revela-se um teólogo laico com uma grande pujança doutrinária e especulativa.”

Sendo um botânico de renome, a preocupação com os valores pessoais, com a cultura e língua são aspetos reveladores de uma pessoa enraizada na terra e que se esforça para além da sua formação profissional específica, colocando em primeiro plano o valor da pessoa humana.

O investigador António Aresta realça essa preocupação de Matias pretender ajudar e mudar o mundo, como atesta a passagem: ”O nosso autor estava profundamente animado do sincero e cordial desejo de socorrer a humanidade aflita que geme no estado miserando da mais urgente necessidade, recorro à caridade ilustrada dos muitos fiéis Portugueses residentes nessa Colónia Britânica e dos que vivem em outros portos na China, como dos que habitam a Cidade do Santo Nome de Deus de Macau, pedindo a sua coadjuvação subscrevendo para esta piedosa obra, para que possa ser mandada quanto antes ao prelo, de cujo líquido produto metade será aplicada ao Asilo a benefício dos meninos órfãos desvalidos da nossa cara pátria. Instruir a mocidade é o fim primeiro, socorrer os necessitados, o segundo”.

A sua extensa obra, produto de muitos pensamentos veiculados nesta metade do século XIX, é um autêntico tratado sobre a condição humana e um convite à reflexão sobre os vários princípios, incluindo a língua, que devem ajudar a formar a pessoa. Um combate aos vícios e um enaltecimento da virtude (honra, lealdade, gratidão).

Na Literatura Portuguesa, já desde o Iluminismo, com Luís António Verney (séc. XVIII) se propõe um programa de reforma cultural, baseado no valor do saber, da cultura e da língua e muito voltado para a educação das mulheres, contrapondo-se a teorias e princípios defendidos até pelos jesuítas, com intuito de promover uma cultura mais abrangente baseada na filosofia e na educação cultural.

No séc. XIX, a questão coimbrã fervente, impulsiona Eça de Queirós e este irrompe pela filosofia oriental, tentando transformar o “adormecismo” oriental no dandismo de Baudelaire através da criação de Fradique Mendes Carta XVI, de Paris”. Em “O Mandarim” continua , através do culto orientalista, a apresentar a sua subtil ironia, para caricaturar o espírito português, nunca esquecendo o sentimento doloroso de um estrangeiro longe de Portugal: “Sentei-me numa muralha, e os meus olhos perderam-se pela planície arenosa que se estira para além das portas até aos contrafortes dos montes mongólicos (…) Lembrei-me, com os olhos humedecidos, da minha aldeia do Minho, do seu adro assombreado de carvalheiras, a venda com um ramo de louro à porta, o alpendre do ferrador, e os ribeiros tão frescos quando verdejam os linhos…”

Poderíamos evocar também Gomes Leal com “Claridades do Sul”, mas não podemos terminar este texto sem uma breve alusão à profissão de Matias Soares e ao seu olhar botânico, num tempo de antanho em que ainda não predominava a turistificação, as avenidas e os aeroportos; era um canteiro “florido” que, certamente, Matias Soares contemplava embebecido, esperando pelo nascimento de cada jardim e preparando o futuro. Tal como tentou emitir sustentáculos para a fragilidade do ser, assim tratava as suas flores e transpunha-as para o humano.

A título de exemplo: “Em 1870, Lou Cheok Chin, estabeleceu-se em Macau e contratou os artistas Lau Kat Lok e Lei Tat Chun, de Cantão, para construírem um jardim ao estilo de Suzhou. O nome que deu a este jardim foi Yu Yun (Jardim das delícias). Actualmente é conhecido por jardim de Lou Kau (em chinês), ou, mais vulgarmente, na língua portuguesa, por Jardim Lou Lim Iok (nome do filho primogénito do magnata)”– (p.68).

Uma última alusão, que não poderia esquecer, ao Jardim de Camões: A propriedade foi alugada, até 1833, à British East India Company, quando a Embaixada do Lord Macartney esteve em Macau. Durante esse período, os jardineiros reais trataram de ali plantar e adaptar uma série de espécies recolhidas por toda a Ásia, tendo em1794 o botânico David Stornach, efectuado uma lista das espécies aí existentes.

Refira-se ainda que “em 1803, o Botânico Real da Inglaterra, William Kerr, foi enviado para Macau, ali se demorando até 1811, em que regressou a Kew Gardens. Foi sucedido por outro botânico,Thomas Beale, que durante 18 anos prosseguiu a obra do seu antecessor de recolher plantas e árvores exóticas. Conseguiu reunir para cima de 2500 vasos de flores da China – algumas delas de extrema raridade. Macau passou, assim, a possuir nos terrenos da Gruta de Camões um dos mais importantes jardins botânicos do mundo, na época, e que serviu de viveiro para a transmissão de plantas para a Europa”. (P.69)

Pelos exemplos, acreditamos que através do conhecimento mútuo se geram laços que unem os povos diversificados neste planeta chamado Terra e, neste canteiro botânico, o nome de Matias da Luz Soares ficou plantado ad aeternum.

 

*Docente em Santo Tirso. Licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. A autora escreve sob o novo Acordo Ortográfico que não está oficialmente em vigor em Macau