Francisco Sarsfield Cabral*

Francisco Sarsfield Cabral*

O caso da participação num programa matinal da TVI de um racista, já condenado e tendo cumprido pena de prisão, Mário Machado, suscitou polémica. Ainda bem, porque as questões em causa são importantes.

Mas, como é costume, o debate rapidamente derivou para um confronto entre a esquerda indignada por se ter dado tempo de antena a um criminoso fascista e a direita defendendo a liberdade de expressão e a dualidade de critérios face à extrema-direita e à extrema-esquerda. Só que os simplismos são superficiais e por vezes enganadores.

Primeiro ponto: não parece sensato, embora seja legítimo, debater questões delicadas e complexas num programa televisivo em horário de entretenimento. A presença de alguém que esteve envolvido na morte de inocentes carecia da participação e do enquadramento de pessoas com alguma autoridade científica sobre as matérias em causa.

Caso contrário, como se viu, o referido programa deu aso a ser classificado – injustamente – como uma tentativa de promoção e branqueamento de um criminoso. Por outro lado, reforçou a tendência para o “infotainment”, a crescente mistura de informação com entretenimento. Uma tendência perversa com a  qual, em Portugal e no mundo, os próprios jornalistas infelizmente têm por vezes colaborado.

Quanto à dualidade de critérios entre extremistas de direita e extremistas de esquerda, ela é evidente. Certamente, em parte, por ter havido em Portugal quase meio século de ditadura de direita e a extrema-esquerda, nomeadamente o PCP, ter lutado contra ela, sofrendo especial perseguição, essa dualidade persiste na sociedade portuguesa.

Desde logo na Constituição, onde o n.º 4 do art.º 46º proíbe organizações que perfilhem a ideologia fascista. E as organizações que defendem a ditadura do proletariado? Bem sei que, se essa ditadura foi bem real e violenta nos países onde se implantou o comunismo soviético, a ideia de ela ser “do proletariado” não convence hoje ninguém. Por isso os comunistas e simpatizantes evitam agora falar em público dessa ditadura. Mas em 1975 estivemos perto de a uma ditadura de direita se suceder uma ditadura de esquerda.

De qualquer modo, quem defenda na comunicação social ditadores de direita (como Salazar) provoca em geral uma indignada repulsa, reclamando proibições, enquanto vemos o PCP apoiar regimes como o da Coreia do Norte sem suscitar reacção semelhante. Ou seja, a liberdade de expressão ainda não é igual para todos em Portugal.

 

* Jornalista. In site do Clube Português de Imprensa