No Volume primeiro de Manuel da Silva Mendes – “memória e pensamento”– a publicação do artigo intitulado A Jada suscitou-me curiosidade e, de imediato, associei Jada à extensa obra – “Figuras de Jade” do professor e grande sinólogo António Aresta. Na comemoração dos 150 anos do nascimento de Manuel da Silva Mendes (MSM), em 23 de Outubro de 2017, a Associação Amigos do Livro em Macau preparou esta reedição que foi coordenada pelo historiador e escritor António Aresta, com intuito de homenagear o sinólogo Manuel Mendes que viveu entre 1867 e 1931, cerca de 30 anos em Macau.
Natural de S. Miguel das Aves, concelho de Vila Nova de Famalicão, atualmente concelho de Santo Tirso, após a reforma administrativa de 23 de Junho de 1879, MSM teve uma carreira notável como professor e advogado. Foi, como professor, para o Liceu de Macau, influenciado pelo seu amigo, Monsenhor Santos Viegas, pois este, reconhecendo nele dotes políticos, não o queria ver envolvido em politiquices e, um dia, enviou-lhe um telegrama onde constava: “Vagou lugar professor liceu macau responda convém telegraficamente.”
Como numa visita feita ao Monsenhor, em Santiago de Antas, este já o tinha acautelado –“O meu amigo aqui não está bem; o seu republicanismo só o prejudica; isto aqui, regenerador ou progressista; a República há-de vir para Portugal daqui a um século, se vier…” (p.18) – assim, MSM viu-se fadado para se elevar a uma escala maior, aliás, bem assinalada na contracapa desta edição: “Manuel da Silva Mendes (1867-1931) foi um dos representantes mais notáveis da intelligentzia portuguesa contemporânea de Macau. Não é possível dissociá-lo de uma porfiada intervenção cívica e política, do estudo e da divulgação do taoismo filosófico, da religião e arte chinesas, dos trabalhos forenses ou, ainda, das magnas tarefas educativas em que se envolveu como professor.”
A [pedra] Jade, tipicamente da China, até aos séculos XVII – XVIII não tinha entrado na moda, mas, de repente, seduziu os europeus que prezavam exibir um serviço de louça chinesa. Os modelos eram enviados da Europa para os clientes mais exigentes, outros entregavam a decoração à discrição do fabricante. Além de louça, eram executados trabalhos decorativos em artigos religiosos, gravuras de quadros e outras cópias encomendadas. O mais caricato residia na interpretação do modelo a copiar: os chineses não compreendiam os desenhos e, portanto, os resultados eram excêntricos: “Nossa Senhora era para eles a Kuan Yin; o Menino Jesus saía um bebé de olhitos ao viês com dois tufos no toutiço; os Reis Magos, três Lo Hans taoistas; Cristo um pirata esquartejado” (p.241). A confirmar a dificuldade de compreensão dos pedidos, uma família chegou a indicar: “aqui azul; aqui, cor de rosa; aqui verde.”
Após as manias dos serviços, outros artefactos eram encomendados: leques, bordados, colchas e demais extravagâncias. Entretanto, surge o capítulo da jade que, à partida, era uma substância cara e considerada luxo, embora a crítica do autor desarme a sua inacessibilidade: “Há madamas em Lisboa, diz-se (e há-de havê-las em toda a parte), que compram jóias aos quilos – pese-me aí um quilo de anéis, faça favor…” (p242)
A jade é conhecida, desde a Antiguidade, como a mais bela, mais rica e virtuosa peça de ornamento, quer para homens ou mulheres e em aplicações diversas. A jade tinha a virtude de proteger a pessoa que a usasse, impedindo a entrada de maus pensamentos; tinha poderes curativos e, inclusivamente, impedia a putrefação do cadáver; assim, as pessoas ricas levavam para a sepultura, pelo menos, nove buracos tapados adequadamente com peças de jade. Esta superstição explica que, mais tarde, essas peças fossem encontradas nas sepulturas e estudadas como relíquias. Descobriram ainda sepulturas com peças valiosas de jade colocadas na cabeça, no peito ou mesmo ao lado. Além disso, as cerimónias religiosas oficiais requeriam muito a jade como essência pura da matéria: “era com um pi (disco) azulado que o Imperador homenageava o Céu; com um ch’ung (tubo rectangular, porque a Terra era amarela) de jade amarela que fazia os respeitos à Terra; com outro ch’ung verde que pedia a protecção do Leste; com outro vermelho que invocava o Sul; com um hu branco que rendia preito ao Ocidente; e com um huang negro, semi-circular, que invocava o Norte. Tudo de jade e eram estes seis objectos as imagens desses seis cósmicos poderes – pois não possuíam os antigos chineses antropomórficas ideias das divindades. As suas ideias religiosas eram essencialmente astronómicas e cosmológicas” (p.242).
A jade servia também para abrilhantar títulos honoríficos, por vezes exibidos nas festas e colocados ao/no peito dos titulares, salientando as suas riquezas e virtudes. Com o tempo, circunscreveu-se mais a um ornamento, embora a carga simbólica ou supersticiosa possa ainda sobreviver para alguns que acreditam nos seus poderes virtuosos e libertadores do mal, sendo essa jade da dinastia de Han; no caso de não produzir o efeito desejado de quem a exibe, é uma jade falsa ou de outra dinastia.
Esta pedra preciosa tornou-se uma atração para a Europa e para a América, exercendo uma forte pressão da procura nos mercados da China e uma fonte de receita crescente de acordo com a avidez humana que MSM considera “estultícia humana” – como um bom apreciador de arte, considerava uma atitude ignorante despender tantas patacas num pingente, em detrimento da cultura.
Na Literatura Portuguesa, no período seiscentista (séc. XVII) os elementos naturais e as pedras preciosas serviam para metaforizar sentimentos/beleza da mulher amada – Ao Rigor de Lísi, de Jerónimo Baía – “Mais dura , mais cruel, mais rigorosa/ Sois, Lísi, que o cometa, rocha ou muro/ Mais rigoroso, mais cruel, mais duro,/ Que o Céu vê, cerca o Mar, a Terra goza(….)Sois mais rica, mais bela, mais lustrosa/ Que a perla, rosa, Sol, ou jasmim puro.”
Num outro poema, o mesmo poeta, para traduzir a crueldade/ lindeza da mulher serve-se de uma bela cascata de metáforas assentes nos metais preciosos: “(cabelo-ouro. fronte-prata, coração -bronze, peito -aço) as pedras preciosas também abundam em (olhos- safira, beiços- rubis, dentes- pérolas, garganta- mármore, mão jaspe, planta-alabastro). A jade na literatura portuguesa surge por influência chinesa, cujo efeito chegou a França e ao Brasil, tendo como exemplos: “Livre de jade” (1867) de Judith Gautier que seduziu Machado de Assis.
Em Portugal, destaca-se a obra Figuras de Jade, de António Aresta, que já conta com quatro livros em que o autor destaca as “preciosidades” humanas que se distinguiram – pela sua ação, obra e labor – na história de Macau. Essa mão-cheia de “figuras” são o símbolo da verdadeira Jade, evocada por Manuel da Silva Mendes neste artigo.
*Docente. A autora escreve sob o novo Acordo Ortográfico que não está oficialmente em vigor em Macau



