Muito tenho escrito sobre a evolução dos preços do imobiliário e da correlação positiva entre estes e os valores das rendas.
Muito me tenho fartado de pedir para que a DSEC acompanhe a evolução das rendas da mesma forma séria que acompanha a evolução dos preços de venda do imobiliário, ou seja, de forma trimestral.
A razão é simples, é preciso conhecer a realidade para se poder depois actuar sobre ela. Trata-se do bê-á-bá da política económica! Não percebo o marasmo dessas gentes.
O único indicador, meio miserabilista e muito opaco, que conhecemos sobre as rendas, vem nos mapas 13, 14 e 15 do IPC (índices de preços do consumidor) divulgados mensalmente pela DSEC, sob os nomes de “rendas de casa efectivamente paga” e “rendas imputadas à habitação”. Mas ninguém verdadeiramente sabe o que eles significam.
A evolução de forma galopante do valor das rendas tem vindo a destruir a estabilidade e a vida de muitos agregados familiares provocando a ira, ainda silenciosa mas cada vez mais difícil de esconder, da grande maioria da população. E de muita gente que teoricamente deveria estar a apoiar o governo!
Está-se, pois, no mínimo por inabilidade, a levar-se descontentamento para as ruas de Macau.
Os dados que a seguir divulgo, retirados e trabalhados sobre a informação mensal disponibilizada pela DSF a partir de 2010 (disponíveis só a partir dessa data) e das Estatísticas da Construção Privada, disponíveis só a partir de 2003, mostram quão delicada é a situação de quem hoje vive em Macau e não tem habitação própria. Tentei ir para trás o máximo possível!
Uma habitação de 80 m2 de área útil que podia ser adquirida no mercado de Macau (média de Macau e Ilhas) em Junho de 2003 por 495 mil patacas, era vendida em Maio de 2010 por três milhões de patacas e em Maio de 2014 por 8,4 milhões de patacas, tudo números redondos. Ou seja, em Maio de 2014, último número conhecido, o seu preço era 17 vezes superior ao de Junho de 2003! E na Península de Macau, 18 vezes!
E tudo se acelerou nos últimos anos. Basta ver que em Maio de 2010, o preço era de “apenas” cerca de 6 vezes mais o que se praticava em 2003 (Macau e Ilhas) ou de 5 vezes o que se praticava na Península!
O Governo que se cuide que a situação actual dos preços da habitação está a penalizar quase toda a gente. Trata-se de um mercado opaco e quase totalmente desregulado em que os números são claros: as habitações oferecidas no mercado estão a mirrar em área útil, um sinal de que se estão a amontoar mais e mais pessoas no mesmo espaço, na ganância de se ganhar mais! Se o Governo prestar atenção aos números vai verificar que o número de transacções nos últimos quatro anos terá caído quase 49 por cento sem que os preços tenham seguido a mesma tendência, antes pelo contrário estes terão crescido cerca de 176 por cento no mesmo período, um sinal claro de que a bolha encheu de mais!
E se olharmos para 2003 as transacções terão caído 72 por cento e os preços aumentado 1.599 por cento! É obra, ou melhor, especulação desenfreada!
Assim Macau não vai longe e a contestação nas ruas pode vir mesmo a acentuar-se. Cuidado!
E agora termino mais ou menos como comecei. Como as rendas evoluem de acordo com o preço das habitações e as taxas de remuneração acompanham a inflação, então as rendas sofrerão aumentos colossais em função dessa correlação e dessa mesma inflação. Se dois por cento era uma taxa (de renda) aceitável em 2003 pois se estava em recessão determinando uma renda de pouco mais de 800 patacas, em 2010 com a inflação em 2,81 por cento, a taxa aplicável passaria a aproximadamente 5% determinando uma renda de 12.200 patacas e em 2014 esta poderia disparar para valores incomportáveis se a lógica fosse a mesma. E trata-se de uma lógica racional, embora assente num valor de mercado da habitação altamente irracional. No mínimo, um apartamento de 80 metros quadrados de área útil, poderia atingir as 38.600 patacas (apenas para pagar a inflação a 5,5%) podendo atingir 52.600 patacas, se a taxa de remuneração a usar estivesse dois pontos acima da inflação! Mesmo que os operadores no mercado praticassem remunerações abaixo da inflação porque esperam ganhar essencialmente com a venda do imóvel, a taxa de remuneração da renda em 2014 poderia ir entre 2 e 4 por cento, determinando rendas entre 14.030 a 29.070 patacas!
Conclusão, o descontrolo da inflação acelera ainda mais o valor das rendas do mercado. É preciso actuar sobre a inflação e sobre os dois mercados em simultâneo, o da venda de imóveis e o das rendas.
Cuidado que esses tigres não são de papel mas mexem com muito papel-moeda!
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*Economista. Escreve neste espaço às sextas-feiras.




