A sinologia, isto é, o conhecimento pluridimensional da civilização chinesa, está naturalmente omnipresente na correspondência de Camilo Pessanha [1867-1926]. Irei ater-me quase exclusivamente às cartas que trocou com Carlos Amaro, de seu nome completo Carlos Amaro de Miranda e Silva [1879-1946], ribatejano de Chamusca, formado em Direito na Universidade de Coimbra e Conservador do Registo Civil em Lisboa. Carlos Amaro foi um histórico republicano, passou pela prisão, pertenceu à Carbonária e sentou-se na Assembleia Constituinte como Deputado eleito pelo partido Unionista de Manuel Brito Camacho.
O artista Alexandre Farto (ausente na foto), conhecido como Vhils, inaugurou um mural com uma imagem do poeta Camilo Pessanha no jardim do Consulado de Portugal em Macau, cidade onde o poeta viveu e morreu. 9 de Dezembro de 2016, Macau. (ACOMPANHA TEXTO) CARMO CORREIA/LUSA
Poeta e dramaturgo, Carlos Amaro deixou colaboração assinada em ‘A Pátria’, ‘A Capital’, ‘A Lucta’ ou no ‘Diário de Lisboa’. E é no ‘Diário de Lisboa’ [Nº 746, de 11 de Setembro de 1923] que aparece um interessante artigo, “A Civilização Chinesa Começa a Decaír? O Céu está Velho…”, [que se suspeita ser de Carlos Amaro, mas assinado com um pseudónimo], onde se encontra um singelo elogio a Camilo Pessanha enquanto tradutor de poesias chinesas. A amizade com Camilo Pessanha vem de Coimbra, cruzando ligações familiares, o combate pela República e algumas afinidades estéticas, literárias e políticas.
As Cartas de Camilo Pessanha para Carlos Amaro são dez, melhor dizendo, sobraram dez, porque a maioria se extraviou, a primeira é de 1908 e a última é de 1917. Foram organizadas por Daniel Pires [“Camilo Pessanha – correspondência, dedicatórias e outros textos”, ed. Biblioteca Nacional/Unicamp, 2012], a quem ficamos a dever outros trabalhos essenciais para compreendermos a Galáxia Pessanha. Essas Cartas oferecem-nos uma perturbadora visão de Macau enquanto espaço de conflitualidade, que oscila entre o desalento e a intempestiva projecção de esperança, “no meio da intrigalhada infame que resume toda a vida oficial deste atasqueiro, eu sou o mais acomodatício possível”.
Ao ler estas Cartas ocorreu-me uma ideia do Mestre Aquilino Ribeiro que no seu esquecido livro, “Constantino de Bragança – VII Vizo-Rei da Índia”, de 1947, faz este formidável comentário, “O império decaía desde que do reino deixaram de mandar as três coisas sacramentais: verdade, espadas largas e portugueses de oiro”.
Mutatis mutandis, Camilo Pessanha sentia essa decadência quando desoladamente referia que “nisso tem sido bem infeliz a república: os ladravazes e os tarimbeirões que a monarquia para aqui destacava, valiam incomparavelmente mais, a todos os respeitos”. E citava o nome de três ou quatro figurões que envergonhavam o País e que fugiam a sete pés do camoniano emblema moral que encima a Porta do Cerco, “A Pátria Honrai, Que A Pátria Vos Contempla”.
Camilo Pessanha fez voluntariamente um enorme investimento emocional e intelectual na cultura chinesa, “são quase vinte anos de estudo, mais ou menos assíduo, da língua chinesa, dos costumes chineses, da arte chinesa. A língua, principalmente desde que cheguei aqui a última vez, há três anos, tenho-a estudado brutalmente, no furor de me absorver fosse no que fosse, para ver se conseguia distrair-me de tantas desgraças a que não posso dar remédio e que são a minha obsessão”. Seria o seu modo de se aconchegar mais no Macau chinês e de se afastar da órbita do Macau lusitano?
A propósito do incidente, em 1904, relativo à extradição do mandarim Pui-Keng-Fôc, desabridamente requerida pelo Vice-Rei de Cantão, a única posição demonstrativa de firmeza de carácter e de coragem, foi assumida por Camilo Pessanha, conforme se pode ler na Acta Secreta do Governo de Macau. Em 1910 profere uma conferência sobre a Estética Chinesa, dando mostras de um alargado e actualizado conhecimento.
Queixava-se amargamente, em 1912, da comunidade portuguesa e dos interesses que giravam à sua volta, dizendo que “a solidão intelectual e moral nestes meios é absoluta. Para aqui só vem daí a ínfima escória… Tenho, pois, estudado com furor, até onde mo permitem as minhas forças escassas. Aprendi a falar a língua chinesa (falo correntemente o dialecto cantonense) e, um pouco, a ler e escrever. Tenho meia dúzia de traduções, que são actualmente o único escrito meu que desejaria ver publicado. É claro que tudo isto, que é nada mas me tem custado a vida, me seria fora daqui absolutamente inútil: prende-me, pois, naturalmente a este remoto exílio”. Era o magoado reconhecimento do írrito valor dos estudos sinológicos no âmbito da cultura portuguesa, isto num país com tão antigas quanto pioneiras relações com a China.
Camilo Pessanha assina, também em 1912, o longo prefácio que valoriza sobremaneira o livro “Esboço Crítico da Civilização Chinesa” do médico Morais Palha.
A amizade e a camaradagem intelectual com José Vicente Jorge [1872-1948] permitem que Camilo Pessanha se associe à edição das “Leituras Chinesas – Kuok Man Kau Fo Shu”, em 1915, ano em que publica o “Catálogo da Colecção de Arte Chinesa Oferecida ao Museu de Arte Nacional” e faz uma conferência sobre Literatura Chinesa.
Camilo Pessanha, lembrando-se de que foi professor, faz pedagogia ao permitir-se deixar esta exortação “a tantos portugueses moços que os acasos da fortuna ou o dever profissional condenam a passarem nesta remotíssima e exígua possessão portuguesa – verdadeira prisão com homenagem – alguns anos de mesquinha vida intelectual, para que dediquem ao estudo da língua chinesa e da civilização chinesa, nos seus múltiplos aspectos, as horas que dos seus serviços obrigatórios lhes restarem livres – pois que, além do alto serviço com que esse estudo prestarão à pátria portuguesa, auferirão do seu próprio esforço, inefável deleite espiritual”. Este continuado fascínio, quase amoroso, pela cultura chinesa, só encontrava paralelo com Manuel da Silva Mendes, seu compatriota e colega de ofício na advocacia e no Liceu.
Carlos Amaro dizia que Camilo Pessanha foi um “incansável verdugo de si mesmo!”, evocando os seus problemas de saúde e a inconstância do seu estilo de vida, a que poderíamos adicionar o exílio e a exclusão de uma comunidade despojada de projectos culturais, mas que invejava a sua genialidade poética patente na “Clepsydra” e o seu brilhantismo jurídico.
E ainda não nos esquecemos do inominável desleixo e desconsideração do Estado português perante o legado de Camilo Pessanha, nestas duas ocasiões. A primeira, ao manter encaixotada e esquecida num armazém, durante anos, a colecção de obras de arte chinesa, cerca de 370 objectos, sucessivamente rejeitada pelos museus de Lisboa até chegar ao Museu Machado de Castro, em Coimbra. A segunda, ao não preservar a unidade da sua biblioteca particular, generosamente doada à Repartição do Expediente Sínico, permitindo a sua atomização e consequente extravio de espécimes.
Não saberemos nunca as respostas, os alvitres, as críticas, os lances de humor ou as sugestões de Carlos Amaro, porque essa correspondência levou sumiço.
*Ex-docente em Macau. Colaborador regular do JTM, desde há décadas. Autor de variada bibliografia sobre Macau



