Maria Antónia Jardim*

Maria Antónia Jardim*

Lá longe no tempo tive ocasião de visitar no Norte da Índia, no Rajastan, um hospital diferente. O Global Hospital, assim chamado porque continha todas as especialidades, para além de ser holístico e de cor branca não possuía qualquer aresta na sua arquitectura exterior e interior. Todo em redondo ou arredondado, as suas curvas macias dão ao paciente e ao visitante uma sensação de conforto e bem-estar sem a agressividade ou hostilidade que as arestas dos cubos ou paralelepípedos podem sugerir…

E porque não imaginarmos Casas-Ovo, cidades inteiras sem arestas, com casas e prédios construídas na base do circular, da elipse, do redondo como temática ambiental!? E por que não casinos com a forma de um ovo? Com apostas diferentes e recompensas ainda mais extraordinárias?

Afinal o nosso planeta é uma bola azul! E até já existem cidades como Edimburgo cujas ruas (da parte antiga) possuem forma arredondada “para não deixar entrar o Diabo”! dizem os escoceses… Quem sabe, talvez se a geometria das cidades mudasse, se esse espaço tópico de transformação dos seres humanos fosse diferente, se calhar, simbolicamente, as pessoas sofreriam também transformações ao nível do pensamento, das ideias e até dos afectos. Talvez nos tornássemos mais ternos, menos ariscos, com mais vontade de reflectir e tocar no outro, num movimento contínuo e perpétuo como o Mundo que gira e avança sem parar…

É só seguir o exemplo já dado pelos arquitectos Gaudi e Wright, com as espirais arredondadas e uma catedral de dedos em Barcelona ou um gigante caracol em Nova Iorque a servir de museu… Mesmo os automóveis já não são o que eram na medida em que a forma de ovo passou a tomar conta da matriz dos carros mais modernos. E repare-se no mobiliário cujas linhas são muito mais ovaladas, com muito menos arestas do que antes. O estilo curvou-se ao movimento circular, ao que permite evoluir, no fundo curvou-se perante as leis da natureza e do universo, a um movimento perpétuo que nos faz escalar dentro da nossa própria concha humana!

 

*Escritora e especialista em Psicologia da Arte