Abílio Travessas*
Abílio Travessas*

Na passada Segunda-feira, 10 de Agosto, comemorou-se o dia do mártir São Lourenço. Esta festividade tem algum significado na nossa cidade, na medida em que uma das igrejas que os portugueses aqui erigiram e que coroa a colina por trás da residência do governador, outrora palácio do Visconde de Cercais, é-lhe dedicada.

 

Lourenço de Osca

A cidade espanhola de Huesca, então Osca na província romana da Hispania Tarraconensis, reclama direitos de paternidade sobre este cidadão romano que lá terá nascido em 255 d.C., embora Valência, então Valentia (Edetanorum), lhos queira disputar.

Foi em Caesaraugusta, hoje Saragoça, que Lourenço conheceu o futuro papa Sisto II, com quem viajou para Roma. Em 257, quando Sisto foi eleito Papa, este ordenou Lourenço diácono, nomeando-o arcedíago de Roma, ou seja, o primeiro dos sete diáconos de Roma e responsável pelas finanças da diocese.

Nesse mesmo ano, o imperador Valeriano (c. 199 – 260 ou 264; imperador de 253 até meados de 260) começou mais uma perseguição contra os cristãos, primeiro obrigando os membros do clero a oferecer sacrifícios aos deuses romanos tradicionais e, no ano seguinte, 258, decretou a prisão e a morte dos líderes da comunidade cristã, incluindo o papa Sisto II e seus diáconos, entre os quais estava São Lourenço. Sisto II foi martirizado no dia 6 de Agosto, em plena festividade da Transfiguração, juntamente com quatro dos seus diáconos.

A São Lourenço foram-lhe concedidos mais alguns dias para reunir e entregar às autoridades civis ‘as riquezas da igreja’, ou seja, bens móveis, como as alfaias litúrgicas. Lourenço aproveitou esse tempo, não para congregar tais bens, mas sim para distribuí-los entre os cristãos mais pobres. Após o Vaticano II, em consequência da deriva marxista que assolou a igreja, este episódio foi reformulado de modo a afirmar que São Lourenço achava que a igreja não devia ter bens materiais e foi por isso que este os distribuiu pelo povo.

 

A forma do martírio

De acordo com a tradição, São Lourenço terá sido queimado vivo sobre uma grelha feita de propósito para este fim. Esta tradição é problemática na medida em que, na altura, todos os mártires da perseguição de Valeriano, incluindo São Sisto e os seus companheiros, foram decapitados, como ditava o édito imperial.

É apontada como causa da forma particularmente horrenda do seu martírio –o ser queimado vivo– a irritação do prefeito de Roma ao se ter apercebido de que Lourenço usara os dias que lhe tinham sido dados para dissipar os bens da igreja. Diz também a tradição que, quando São Lourenço se apresentou ante o prefeito, trouxe consigo vários pobres, afirmando serem eles a maior riqueza da Igreja. Isto teria levado a ira do prefeito ao rubro e teria ditado o tipo de morte que Lourenço viria a sofrer.

Esta história, assaz piedosa, apresenta problemas de credibilidade na medida em que, ao fazer isto, Lourenço estaria a pôr estes cristãos sob a mira do prefeito e as suas vidas em perigo.

A distribuição dos bens da Igreja e a apresentação dos pobres como a maior riqueza da Igreja serão, sem dúvida, histórias piedosas “inventadas” mais tarde, de alto valor simbólico, que, com o tempo, foram incorporadas na tradição.

Faz também parte da tradição que São Lourenço terá dito, a meio do seu martírio, que o virassem, pois já estaria passado de um dos lados. Obviamente, uma tal história, embora vise enfatizar a coragem do mártir, nunca poderia ser verdadeira, dados os tormentos que não sentirá alguém ao ser queimado vivo.

 

passus ou assus

A lenda da morte de São Lourenço pelo fogo pode ter-se originado numa falha ortográfica.

No Depositio Martyrum, de 354, a fonte mais antiga que temos do seu martírio, nada consta nem da forma do martírio nem da famosa grelha usada para o efeito. A primeira referência que temos de São Lourenço ter sido queimado vivo deve-se a Sant’Ambrósio de Milão (c. 339– 397), nas últimas décadas do séc. IV.

Pouco depois, Prudêncio (348 – 413), poeta cristão, descreve a grelha e a suposta frase ‘vira-me’ no seu Liber Peristephanon que contém 14 hinos a mártires romanos e hispânicos. A partir daí, estes “dados” da vida de São Lourenço foram-se incorporando na tradição e entraram nas Acta Martyrum a partir do século V.

Segundo o filologista Pio Franchi de’ Cavalieri (1869–1960), a origem da ideia de que São Lourenço teria sido queimado numa grelha pode dever-se a um erro de cópia em manuscritos.

A fórmula usada para descrever o martírio é passus est, ou seja, ‘sofreu’; sofreu o martírio, subentenda-se; passus é particípio passado do verbo patior, pati, que quer dizer sofrer. Daí derivamos a palavra portuguesa paixão nas suas duas acepções, nomeadamente: sofrimento, como A Paixão de Cristo, e a paixão amorosa. No processo de cópia manual dos textos antigos, chamados Acta Martyrum, que relatavam o martírio dos primeiros mártires, o p- de passus poderia ter sido omitido, dando origem à fórmula assus est, que, em latim, quereria dizer ‘foi assado’; assus é um adjectivo derivado do verbo assare de onde vem o nosso ‘assar’ e ‘assado’. Embora não seja um particípio de facto –o particípio de assare é assatus, daí o port. ‘assado’– no latim menos cuidado, como é aquele usado pela Igreja, este adjectivo poderia ter sido tomado como um particípio e passado a transmitir a ideia de que São Lourenço tivesse sido queimado.

Poderia ter sido daí que Sant’Ambrósio retirou a ideia de que Lourenço fora queimado vivo e Prudêncio a de que isto teria sido feito por meio de uma grelha, pois de que outra forma se poderia assar um homem? O verbo assare é um termo da linguagem culinária e não serve de sinónimo para matar pessoas, mesmo que pelo fogo, e um uso sarcástico não teria cabimento nestes textos.

A suposta grelha onde o santo terá sido queimado pode ser vista num relicário na Basílica de São Lourenço fora dos muros, basílica erguida no local onde Constantino construíra um oratório que marcava o lugar de sepultura do mártir. Esta grelha será, obviamente, muito posterior, com toda a probabilidade medieval, e terá sido feita para representar a grelha original. Como tantas vezes acontece, com o tempo, foi tomada como o objecto original.

Este caso, embora filologicamente algo rebuscado, não é único. Já fiz referência noutro sítio ao conhecido passo dos Evangelhos (Mt. 19:24, Mc. 10:25 e Lc. 18:25), em que Jesus diz que “é mais fácil que um camelo passe pelo buraco de uma agulha do que um rico entre no reino dos céus”. Existe, contudo, desde a Antiguidade, uma variante ou interpretação segundo a qual, em vez de κάμηλος /kámēlos/, “camelo”, se deveria ler κάμιλος /kámilos/, “corda grossa” ou “cabo”. Quando os evangelhos estavam a ser compostos, a letra grega η de κάμηλος, que em grego clássico representava o som e longo, passou a pronunciar-se como i tal como o ι de κάμιλος. A este fenómeno chamamos itacismo. Assim, as duas palavras passaram a ser homófonas, ou seja, pronunciavam-se exactamente da mesma forma. Como passar um camelo era mais difícil que uma corda, para fazer a vida negra aos ricos, esses malvados, ficou o camelo.

Assado ou decapitado, São Lourenço tornou-se uma referência na história da igreja e um santo que goza de grande devoção entre os portugueses como protector dos cozinheiros, dos bombeiros e dos pobres. No próximo Sábado comemoramos a Assunção da Virgem Maria, outra festa importantíssima no calendário católico português. Por estes dias, muitas cidades, vilas e aldeias de Norte a Sul de Portugal preparam-se para esta festividade. Estas devoções, como tantas outras, foram trazidas para estas costas pelos portugueses há 450 anos. Faz mister lembrarmo-nos disto num tempo em que, olvidado de que a palavra católico vem do grego universal, para descrever uma igreja aberta a todos, anda p’ràí quem, montado em barómetros gentílicos râncidos, se empenha em tentar dissolver o universalismo dessa Igreja que nós trouxemos para cá.

* MA (Conim.) MPhil, DPhil (Oxon.), filólogo especialista em línguas antigas