No âmbito da sinologia portuguesa, cuja história está desleixada mas não é pobre, surge em 1938 o livro, “China, País da Angústia”, de Ruy Sant’Elmo, que era o pseudónimo literário de Abílio Augusto de Brito e Nascimento [1885-1942], natural de Espinhal, em Penela. Formado em direito, pela Universidade de Coimbra, começou a sua carreira como subdelegado do Procurador da República na comarca de Penela, em 1913, passando depois ao Ultramar como juiz em Nova Goa, em Macau e em Lourenço Marques. Amigo de Teófilo Braga e de Leal da Câmara, Ruy Sant’Elmo era também um homem com paixão pela arte, pois desenhava primorosamente bem.

José de Carvalho e Rêgo nas suas Figuras D’Outros Tempos, edição do Instituto Cultural de Macau, em 1994, recorda-nos que o “Dr. Brito e Nascimento esteve duas vezes em Macau: como delegado do Procurador da República e, mais tarde, como juiz de Direito. De porte irrepreensível, nunca se lhe notou um deslize, mantendo-se sempre na mais absoluta integridade. De uma cultura invulgar, os seus trabalhos jurídicos marcaram sempre unânime apreciação, nunca se deixando levar por influências de qualquer espécie, mantendo-se sempre à margem de opiniões que pudessem alterar a sua justa apreciação dos factos”.
Em Macau, pertenceu ao alargado círculo de amizades de Manuel da Silva Mendes, em cujas tertúlias sobre arte, filosofia e literatura teve presença assídua. Foi ele quem fez o discurso no funeral de Manuel da Silva Mendes, no Cemitério de S. Miguel Arcanjo. Do jornal ‘A Voz de Macau’, de 3 de Janeiro de 1932, registo estas palavras: “Acima da saudade que me deixa o teu convívio, onde encontrou refúgio e carinho o meu espírito tresvariado por tanta interrogação inquietante, nas muitas palestras que tivemos, plana a emoção da formidável grandeza desta hora final da tua glorificação, que tanto é dizer a hora suprema em que os vivos julgam os mortos, na liquidação sumária de todo o acervo dos seus pensamentos e acções, formulando, em esboço, os severos quesitos da história: que fizeram da vida ? (…) Aqui foi sepultado o corpo de um homem que compreendeu e sentiu que a única felicidade humana reside apenas no trabalho e na virtude”.
Ruy Sant’Elmo publicou diversos trabalhos literários que evidenciam o seu reflexivo ecletismo cultural e uma vigorosa inquietação existencial: Flor de Laranjeira, s\d; Falhados, 1930; Má Sorte: é o homem senhor do próprio destino?, 1933; Alma Rude, 1935; A Mulher na Arte Gentílica (Maconde), 1935; Corrente Antagónica da História Colonial Portuguesa, 1937; A Sombra dos Mortos, 1937; China, País da Angústia, 1938; Terra de Promissão, 1940; Xacuntalá, 1941; Buda, 1942.
A organização da EXPO 98, de Lisboa, publicou em 1997, “Laços de Família”, um capítulo do livro China, País da Angústia, com uma tiragem de 5000 exemplares. Foi uma iniciativa misteriosa porque não parece ter sido uma homenagem a Ruy Sant’Elmo, embora se ressalve a poderosa escrita que embrulha a tragédia existencial de dois frágeis seres humanos que protagonizaram os Laços de Família.
China, País da Angústia, cuja capa ostenta um desenho de Fong-Iôn-Chi, é um verdadeiro diamante por lapidar, contendo nove histórias exemplares [A Sombra de Confúcio; A 5ª Concubina; Laços de Família; Ópio; A terceira felicidade; Flor de Lótus; A suprema vingança; A nobre família Li; A maior luta].
O livro foi dedicado ao seu grande amigo Leal da Câmara, um “artista opulentíssimo”, natural de Goa, e sobre o qual Aquilino Ribeiro escreveu uma impressiva biografia. E nesse livro também se evocam Gaspar da Cruz, Wenceslau de Moraes, Manuel da Silva Mendes, Camilo Pessanha ou Lafcadio Hearn. Talvez sejam as referências da linhagem intelectual do seu orientalismo.
Estudioso profundo do taoísmo, do budismo e do confucionismo, ‘maxime’, de toda a China, Ruy Sant’Elmo vai “tentar apenas esboçar a frio o esquema duma das mais belas tradições do povo chinês, fulcro à volta do qual toda a sua vida decorre, e onde me parece se cruzam os liames que formam a trama da sua estrutura psíquica e moral: o culto dos antepassados”. O seu raciocínio segue este caminho: “Com uma religião da mais alta espiritualidade, mas sem élan para Deus; com uma sólida moral, sem autoridade transcendente; com uma filosofia nihilista, que encontra no mais alto esforço da mente a aniquilação da existência, e como suprema regra de conduta a passividade perfeita, ‘não agir’, reflectindo, como um espelho, a serenidade do céu, o chinês encontra no culto dos ancestrais o mais forte apoio, que lhe dá sob uma forma negativa, paradoxal, um sentido positivo da vida”. Contudo, no “meio desta confusão de altíssimas concepções e grosseiras crendices, de profundos pensamentos e vãs especulações, que admira nos sintamos sem norte, ao tentar penetrar a alma nublosa da China?”.
Esteticamente valioso e original, é o conto “A Sombra de Confúcio”, onde narra a degenerada história de Chan-Fong-Tsi, o fiel valido de um velho mandarim. A moral confuciana é aqui apresentada com toda a sua dramaticidade essencial.
Vale a pena reler Ruy Sant’Elmo para encontrar um incrivelmente desconhecido representante da sinologia cultural portuguesa.
*Ex-docente em Macau. Colaborador regular do JTM, desde há décadas.



