Júlia Serra*
Júlia Serra*

Foi preciso colocar a fotografia na 1ª página do Jornal O Sol (22 de maio de 2026) para apanhar de supetão. No interior do Jornal (das páginas 32 a 35) dei de caras com dois “monstros” da Literatura (José Cabrita Saraiva e Rui Azevedo Teixeira).

Li atentamente os textos e confesso a minha ignorância – não conhecia o escritor Rui, aquele homem forte e de barbas grisalhas, com ar mauzão. As imagens, da autoria de Mafalda Gomes dão-nos uma perspetiva diferente do autor: a da página 33 – meio corpo- não se vê qualquer vestígio de estilhaço na cara, mas um olhar amargurado estampado no cinzento esbatido que o cerca; a segunda imagem, da página 34 – corpo inteiro – mais à vontade, mas o seu olhar traduz distância, um homem vagamundo que tal como as pedrinhas que o cercam necessitam de ser bem encaixadas para que o transeunte/leitor não caia.

Então qual é o papel do autor-escritor? É o pedreiro que vai fazendo a calçada, tapando um espaço escuro onde está o homem-escritor. Esse tom escurecido e mais uniforme sugere o espaço interior do Ser. Esta fotografia vale pelas interpretações semióticas que suscita derivadas até pela posição do escritor cercado por uma obra já feita.

O autor do texto, através da sua acutilância e ajaezamento da escrita, deu-nos a conhecer um escritor nortenho, Póvoa de Varzim, quer sob o ponto de vista literário, quer na perspetiva pessoal.

Num tom dialógico permite a Rui Teixeira espraiar-se sobre a literatura em geral, salientando os escritores portugueses que mais admirava, e simultaneamente dissertar sobre os géneros literários que mais apreciava: na poesia, a sua obra-prima realiza-se no soneto; a nível da prosa, é com o romance que mais se identifica, porque nele cabe tudo, desde memórias, metatextos, histórias encaixadas, impressões pessoais, diários de viagem.

Nesta hibridez o romance vai ganhando volume e o narrador esvaziando o que de mais pungente ou efusivo vivia nele … ´porque a escrita não jorra sempre, é preciso procurar e alinhar as palavras, como escreveu Torga: ”Que desgraça, meu Deus!/Tenho a Ilíada aberta à minha frente,/Tenho a memória cheia de poemas,/Tenho os versos que fiz,/E todo o santo dia me rasguei/À procura não sei/De que palavra, síntese ou imagem!” (Mudez)– A força conotativa do verbo “rasgar” remete para o desespero de encontrar a palavra certa.

O que ressalta do texto são as fases da vida de Rui; tempo de guerra, em Angola, tempo se indefinição e catarse – doutoramento em Literatura Portuguesa Contemporânea e, finalmente, a missão de Professor Universitário, na Universidade de Colónia, na Alemanha.

Estas três etapas foram determinantes para o escritor que é. A crueldade da guerra marcou-o para sempre; matar, naquele cenário ganhava sentido, assim como guardar o restolho e os despojos da batalha e do corpo, até em clorofórmio. A alusão à guerra relembra-me uma passagem de Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett “Então agora como é de força, quero eu saber, e estes senhores que digam, qual é que tem mais força, se é um toiro ou se é o mar – Essa agora!…Queríamos saber – É o mar. “ Pois nós que brigamos com o mar, oito, dez dias a fio numa tormenta(…) e estes(os campinos) brigam uma tarde com um toiro, Qual é que tem mais força?” (p.11).

Este excerto ajuda o leitor a compreender o homem que é Rui Teixeira, porque é um homem do mar que vê nele o espelho do céu , como escreveu Pessoa “Deus ao mar o perigo e o abismo deu,/ mas nele é que espelhou o céu.”(Mar Português).

Neste cenário poveiro aprendeu a ter força, a lutar com as ondas que desembrulhavam no areal, mas que também prenunciavam perigo – tal como na guerra em Angola, na floresta de Mayombe. Aí bebeu o sabor amargo da guerra, enquanto outros a escreviam. Pepetela pensou Mayombe para o título de um comunicado de guerra que acabou por ser um romance de reflexão. Constituiu para o escritor uma indecifração que só a escrita poderia ajudar a desvendar; daí afirmar que, muitas vezes, escrevia para depois refletir.

A escrita, a crítica e o aspeto autobiográfico são aspetos importantes também focados neste texto jornalístico que permitem reconhecer o conhecimento dos intervenientes sobre os vários momentos e nomes da Literatura, ora Portuguesa, ora estrangeira. Neste âmbito figuram nomes, na produção literária, como: Camões, Vasco Graça Moura, António Lobo Antunes; na História da Literatura Portuguesa alcandora António José Saraiva e Óscar Lopes e a nível da Teoria da Literatura Vítor Aguiar e Silva.

Há também alusão a muitos escritores estrangeiros que influenciam/influenciaram a nossa literatura e os próprios autores e, talvez, se possa integrar aqui a diferença entre Eça de Queirós e Camilo Castelo Branco: o primeiro, realista e com influências de Balzac, Zola e Flaubert (influência francesa), mas estão igualmente presentes na sua obra influências anglo-americanas. Camilo, escritor nortenho, romântico, tinha aversão ao “francesismo” e tornou -se um acérrimo defensor da língua portuguesa – debruçava-se nos paradoxos do amor e no romance-folhetim, com pendor caricatural (A Queda de um Anjo).

Retomando Rui Teixeira, fiquei com o que Graça Moura escreveu: Rui de Azevedo Teixeira, a quem se deve o melhor estudo de conjunto nesta matéria, o já citado, “A Guerra Colonial e o Romance Português” (…)

Numa página extremamente dura, Azevedo Teixeira analisa essa auto-flagelação maniqueísta, de um esquerdismo sectário e, à sua maneira, racista, para concluir: “a corrente maioritária da literatura sobre a Guerra Colonial produzida após o fim da mesma mostra-se basicamente não como arte mas como emotivo trabalho político, como exercício na hermenêutica da política racial de esquerda (ou de direita na linha dominante durante a guerra)”. Vasco Graça-Moura, “Lusitana Praia” (pp. 252-253).

As ressonâncias da guerra ficaram-lhe no espírito e na pele; a mudança para os estudos foi a ponte de salvação e uma porta aberta para o futuro, num espaço novo, não menos desafiante – o terceiro espaço de Homi K. Bhabha – local de novas culturas, com formas de identidade e significações geradas pelo hibridismo. Neste espaço vai trabalhando a escrita e construindo a sua obra:Ficções e Ensaios”, “Jaime Neves”, “O Elogio da Dureza”, “O Longo Braço do Passado”, entre outros. A influência dos novos romances portugueses e estrangeiros também não deve ser descartada, pelas referências visíveis nesta longa conversa entre dois “grandes senhores “

Afinal, Argivai (terra natal) tem passadiços muito próximos a favorecer o olhar sobre o Mar, onde pode desaguar o rio da memória.

*Docente. A autora escreve sob o novo Acordo Ortográfico que não está oficialmente em vigor em Macau