João Figueira *

João Figueira *

O antigo primeiro ministro espanhol, Jose Maria Aznar, na última viagem que fez a Washington na qualidade de chefe de governo, fez questão de visitar o emblemático jornal da cidade e de reunir com os respectivos editores. A certa altura e sem que nada o fizesse prever, pediu aos responsáveis editoriais que, doravante, não mais empregassem a expressão “separatista” sempre que se referissem à ETA, mas sim a palavra “terrorista”. A linguagem, como este exemplo demonstra, tem um poder enorme, simbólico até, e é através dela que o jornalismo conta às pessoas como vai o mundo. E como nós o percebemos e percepcionamos.

Num conhecido poema de Manuel Alegre lemos que “com mãos se faz a paz se faz a guerra. / Com mãos tudo se faz e se desfaz”. A analogia com a linguagem faz todo o sentido. É com ela que se declara a guerra e é com ela que se escreve o seu fim e a paz. O jornalista inglês, Robert Fisk, que desde meados dos anos 70 do século passado reside em Beirute, a partir de onde cobre o Médio Oriente para o The Independent, costuma dizer que o principal e insubstituível instrumento de trabalho de qualquer jornalista é um livro de História. Desconhecendo o que esta tem de mais relevante, é impossível perceber o presente, escrever sobre o que acontece, porque, na verdade, sustenta Fisk, o que se fará, em última instância, é citar o que outros dizem e querem que esse jornalista impreparado escreva e publique.

A par desta chamada de atenção para a importância do conhecimento histórico e da História, Robert Fisk alerta para o uso da linguagem, ou seja, para o modo como falamos e usamos determinadas expressões. Num artigo de 2010 publicado no The Independent, a propósito de uma intervenção que fez para a Al Jazeera, o repórter lembra um conjunto de expressões famosas, mas que, afinal, a sua origem e autoria não pertence a quem as produziu, mas que os media, sem memória e desatentos, repetem sem cessar.

Entre os vários casos referidos não resisto em partilhar convosco aquela frase famosa dita por Arafat a Clinton, após mais uma reunião em torno da questão palestiniana, em que o primeiro apelidou o resultado do encontro como “a paz dos bravos”. E assim foi veiculada e repetida. Um conhecimento mais agudo e apurado da História haveria, como fez Robert Fisk, de detectar que tal expressão foi originalmente dita pelo general De Gaulle, após o fim da guerra da Argélia, que os franceses, como se sabe, perderam.

Há em tudo isto, segundo o jornalista, uma questão central. Diz ele que nós, ocidentais, andamos a ler menos e, quando o fazemos, surfamos as páginas, despachando o livro sem o ler em profundidade.

Haverá ou não algum exagero na observação de Fisk, não sabemos. Certo é que neste mundo tão apressado e imediatista em que vivemos há que ser mais competente e ser capaz de decidir melhor, porque mais depressa. É como se, subitamente, cada um de nós tivesse que ser uma espécie de Ronaldo ou Messi, driblando problemas e dificuldades, sempre com alto de sentido de baliza, que é como quem diz, sem tirar os olhos do sucesso e rendibilidade que são os golos exigidos a cada um.

Vamos lá, então, libertar o Ronaldo que há em cada um de nós.

 

* Professor de Jornalismo da Universidade de Coimbra e ex-residente em Macau