António Cardinal*

António Cardinal*

Rocco desafiando o público com a sua “rosa em dor”

Não fosse a família, ainda jovem, ter deixado a Argentina e, certamente, Quintino Marucci não teria nascido em Itália, no início do Século XX. Quintino Marucci, filho de um amador de Ilusionismo, tornar-se-ia Tony Slydini, coleccionando sucessos ao longo de uma carreira que viria a terminar com o seu falecimento, em Janeiro de 1991. Slydini passou por Portugal como convidado do Festival Internacional de Ilusionismo da Figueira da Foz (1976) e Convenção API (1978). Tornou-se um mestre, entre os mestres do seu tempo, da Arte Mágica, criando sobretudo técnicas de fácil implementação e assimilação, tendo como base a “misdirection”, um elemento que um Ilusionista, seja em Palco ou em “close-up”, não dispensa.

Slydini criou escola. Um incontável número de mágicos profissionais, hoje figuras relevantes da Arte do Ilusionismo, inspirou-se nos métodos da “misdirection” de Slydini que, de forma simples, persuasiva mas eficiente, trouxe ao Ilusionismo uma renovação, quanto ao estilo de despistar, criando derivas subtis, mas sempre incorporadas numa compostura e disciplina, adequadas ao espaço onde o Ilusionista seja participante/actuante.

Um desses discípulos, seguidor obcecado das técnicas de Slydini é, sem dúvida, o norte-americano Rocco Silano, nascido em Paterson, New Jersey em 1962, Ilusionista profissional. Premiado FISM/1994 na disciplina Micromagia, realizada em Yokohama, Japão, num ano em que o germânico Franklim foi “Grande Prémio” e os “não atribuídos” foram três “primeiros prémios” nas disciplinas  Manipulação, Grandes Ilusões e Mentalismo. O mesmo viria a acontecer no destinado à  “Invenção” e, em 2006, em Estocolmo com o prémio “Originalidade”.

Rocco encontra, pela primeira vez, o mestre Slydini nos anos 80. Encontro que se tornaria semanal durante cerca de cinco anos,  com o objectivo de aprender tudo do que Slydini se dispôs, a partir daí, ensinar ao jovem candidato a Ilusionista profissional, de forma a que este configurasse o seu futuro com confiança, determinação e, ao mesmo tempo, percebesse que o Ilusionismo praticado nos Estados Unidos, mantendo a mesma identificação técnica, divergia no estilo do praticado na Europa.

Enquanto na Europa o Ilusionismo é, na construção da maioria das rotinas, conduzido via personagem numa linha poética, adornada em toques de música romântica e galanteios, o Ilusionismo norte americano, essencialmente o produzido pelos nomes mais mediáticos, assenta na provocação do desassossego e, no modo de impressionar, com ostentação.

Da carreira de sucesso que Rocco Silano vem fazendo nos vários Continentes, fica a certeza de que não só assimilou o alerta do mestre Slydini como desenvolveu um conceito de Ilusionismo, sobretudo em palco, capaz de juntar, com determinação e estatuto,  ambos os estilos. Daí fazer desfilar no rol das suas influências, para além do seu mentor Slydini, os nomes de Channing Pollock (1926-2006) o inconfundível mágico do Pigalle, no filme “Europa à Noite”  (1959) com Henri Salvador a cantar a belíssima “Rose” ou Norm Nielson e Richard Ross.

Querendo confirmar a incorporação dos dois estilos, Rocco mostra-nos, por exemplo, o lado romântico do seu trabalho, quando desafia emocionalmente a plateia “pondo” uma rosa em dor, esvaindo-se, em gotejos de sangue, efeito que exibiu nos palcos de Valongo/Portugal quando convidado VIP do Festival Internacional de Iusionismo-MagicValongo/1995, no mesmo ano em que Enric Magoo, premiado FISM/1991, na Suíça, foi também um desses convidados.

 

DICAS

– A 11ª edição do Festival Màgia x Aci, de Vila-real (Espanha),  dirigido pelo Ilusionista profissional Yunke, decorrerá de 22 a 25 de Março. As Galas de Palco contam com as actuações de dois campeões FISM, Juan Mayoral e Henry Evans, e ainda Huang Zeng, da China, e a portuguesa Solange Kardinaly. Já a “magia de rua”, que decorrerá na “Plaza Mayor”, terá actuações de Francis Zafrilla, Luigi Ludus y Adrián Conde. Vila-real, fundada em 1274, pelo rei D. Jaime I de Aragón, situa-se na comunidade autónoma de Valência, província de Castellón.

 

– João Miguel Tavares, no jornal “Público”: “O Benfica bateu no fundo – e a justiça foi atrás” para, mais à frente, escrever “Aquilo a que temos assistido é verdadeiramente assustador. Quando juntamos operações como a Fizz, a Lex e agora a e-toupeira, em que estão envolvidos procuradores do Ministério Público e até mesmo juízes, somos obrigados a concluir que uma parte significativa do sistema judicial parece ter estado (ainda está?) à venda pelo melhor preço”. Dúvida de Mágico: neste cenário “assustador”, ficando a Justiça à frente, haverá quem fique atrás… das grades?

 

* Ilusionista – coordenador do MagicValongo Festival Internacional de Ilusionismo