No ano da celebração do cinquentenário da morte de Luís Gonzaga Gomes (1907-1976), apraz-me evocar o autor e a obra, para que a sua imagem nunca seja esquecida e se transforme num ícone de referência para os vindouros.
Muitos foram os escritores e investigadores que escreveram sobre esta figura ímpar macaense: destaco António Aresta e o Jorge Rangel, presidente do Instituto Internacional de Macau, dois sinólogos distintos e familiares do território. Em breves traços, vou reproduzir algumas notas biográficas e bibliográficas, para, em seguida, me relançar um pouco na obra Factos e Lendas, dado que já escrevi sobre outras – Chinesices e Curiosidades de Macau Antiga – mas considero que Luís Gonzaga foi um contador “perfomado” que ergueu o quotidiano à altura do mito.
Deixou uma herança bibliográfica assombrosa, sendo um autodidata e intérprete do diálogo cultural luso-chinês, escrevendo em revistas e jornais, para além da vasta galeria de livros produzidos e profícuas traduções, algumas embasadas na Literatura Portuguesa, caso da publicação em chinês de Os Lusíadas contados às crianças de João de Barros (1942), Vocabulário Português-Cantonense (1941) e Vocabulário Cantonense-Português (1942).
Destacam-se as obras escritas em português: Monografia de Macau (1950) Contos Chineses (1950), Lendas Chinesas de Macau (1951), Curiosidades de Macau Antiga (1952), Chinesices (1952), Festividades Chinesas (1953), Arte Chinesa (1954) e Efemérides da História de Macau (1954), entre muitas outras. Um escritor multímodo que granjeou simpatia dos macaenses, mesmo caminhando silencioso, e o reconhecimento do seu labor, como revelam as várias homenagens prestadas e galardões atribuídos. Era o chamado homem dos “mil-ofícios” que jogava ténis, tocava violino, apreciava a música e era cantor e ator; talvez a característica mais relevante fosse a de historiador e investigador, pela quantidade e qualidade da obra produzida.
O seu espírito arguto, a visão profunda do olhar e a emoção fizeram dele um dos escritores mais consagrados e devoto da cultura portuguesa, em Macau, ao legar mais de uma centena de estudos sobre a temática etnográfica para dar a conhecer à comunidade portuguesa de Macau as tradições, contos, lendas, memórias e festividades características do povo chinês. Ademais, foi professor no mesmo Liceu de Macau onde tinha sido aluno dos inesquecíveis professores Silva Mendes e Camilo Pessanha.
Como Macau foi espaço de confusão de pertença, devido à presença governamental portuguesa e à renitência chinesa em considerar um espaço estrangeiro, Luís Gomes, natural de Macau, apercebendo-se desse enleio histórico, lançou-se numa escrita elucidativa que contribuísse para o desenvolvimento cultural de ambas as partes, centrado em Macau e no Oriente.
Nesta linha ideológica, Mónica Simas (SIMAS, Monica. Margens do destino: Macau e a literatura em língua portuguesa. São Caetano do Sul: Yendis, 2007) escreveu[1]: “Luís Gonzaga Gomes identifica maneiras de viver específicas, bastante particularizadas em relação ao arquivo ocidental de conhecimentos genéricos da cultura e da civilização chinesas estabelecido pela sinologia. […] Além de entretecer as suas descrições com histórias que circulam entre a população chinesa, o autor busca demonstrar modos próprios de localização da cultura chinesa em Macau.” (p. 146).
O escritor (Ver GOMES, Luís Gonzaga, Macau Factos e Lendas, Instituto Cultural de Macau,1994) era um profundo conhecedor da isotopia ecológica do território e da topografia e, tirando partido desse saber, descrevia o quotidiano, inserindo as mundividências ancestrais, adaptando-o a um novo discurso, agora, permeado de costumes, de tradição religiosa, de crenças e de superstições – originando, assim, os contos e as lendas que escorrerão de geração em geração.
Apesar do gosto de contar e de transmitir o que vê, enquanto transeunte, ele é um filho- da- terra e, por isso, a emoção pode contagiar a imparcialidade do discurso, contribuindo para uma narrativa mais intimista, mesclando o realismo de subjetividade, produzindo, assim, um efeito de reforço de um mito identitário, a favor da sua terra mátria- Macau.
Esta visão pode entroncar nas festividades do Ano Novo lunar[2]. Há inúmeros pormenores dedicados à chegada do novo ano: “Um dos assuntos que mais preocupa o chinês, na véspera do ano, é a substituição dos dísticos agoureiros, que se encontram colados, não só nos dois lados e em cima da porta principal, como quase em todas as portas do interior da sua residência, inclusivamente, as da cozinha. (p.125)… Além dos dísticos auspiciosos, os chineses costumam também colar nas suas portas, nessa ocasião, as efígies dos Mun Sân (deuses das portas) (p.126)…
Ao crepúsculo da véspera do Ano ou mesmo no próprio dia, compram-se à porta da casa as imagens de Tch’ói Sân (deus da Riqueza) que são apregoadas e vendidas pelos garotos de rua (p.127) … Antes do galo cantar, anunciando o romper do dia de Ano Novo, são espalhadas no pátio ramos de ciprestes, de pinheiro e de sésamo para defenderem a casa da invasão dos demónios, pois estes, ao caminharem sobre tais ramos não conseguirão evitar que eles estalem, denunciando a sua presença, o que os obrigará a fugir espavoridos.” (128).
As cerimónias e os rituais estendem-se por várias páginas do livro e, assim, estas festividades vão além do simples olhar… é a visão profunda do narrador que ressalta nestes segmentos textuais. São muitas as lendas que Graciete Batalha selecionou para formar este livrinho, atesta ela na contracapa: “Dos numerosos artigos que espalhou por jornais e revistas, e que ainda em vida reuniu em sete volumes, não foi fácil selecionar apenas uns vinte para este livrinho.” (Graciete Batalha, in Prefácio à 1ª Edição, 1979).
Vou evocar uma das lendas mais curtas da obra em análise, intitulada Mal-Aventurados Amores, que nos conta uma lenda sobre duas árvores “plenas de viço, mas que se desenvolvem com os troncos estranhamente enlaçados um no outro, de forma a atrair a atenção e a curiosidade dos visitantes” – ficam essas árvores junto do Templo da Kun Iâm no parque que ia dar ao cemitério dos bonzos. Segundo a lenda, existiu aí um povoado onde vivia o lavrador Lou Uóng com dois empregados e com a esbelta filha Tchèong Tchu (pérola da palma da mão), chamada A Kâm, que estava na idade de casar. A filha e um dos empregados (A Heng) ficaram apaixonados e desse amor resultou uma gravidez. Quando a filha revelou ao pai a situação e o desejo de casar com A Heng, o pai perdeu a cabeça. Em presença do rapaz, insultou-o, não permitiu o enlace e proibiu futuros encontros. Desesperados com tamanha punição e, sem saída, resolveram suicidar-se.
Depois de se abraçarem e chorarem muito, enforcaram-se, corajosamente, cada um, nos ramos de duas árvores que cresciam isoladas naquele local.” (p.70). E, o fenómeno causou tão grande espanto, as duas árvores, onde os dois desgraçados amantes se suicidaram, passaram, daí em diante a desenvolver-se com extraordinária pujança, mas com os seus troncos abraçados um ao outro, como dois seres envolvidos num forte amplexo e com estranho aspecto com que ficou até hoje. (p.71, Gomes,1994)
Um drama de amor impossível que acabou em tragédia, lembrando as novelas camilianas e Romeu e Julieta de Shakespeare. O “Amor de Perdição” talvez os encaminhasse para o “Amor de Salvação”, num outro mundo, longe das contrariedades familiares.
Ainda segundo a lenda, mais tarde, quando se construíram várias capelas foram celebradas diversas cerimónias propiciatórias “com o fim de libertar as suas almas do purgatório.” Destarte, os habitantes do povoado passaram a dormir sossegados, pois “as lamentações daquelas duas almas deixaram de ser ouvidas”.
Luís Gonzaga Gomes, volvidos cinquenta anos após a sua morte, continua a ser lembrado na sua estátua, sita no Jardim de S. Francisco (na Península de Macau, Freguesia da Sé) e também venerado na Escola Secundária Luso-Chinesa de Luís Gonzaga Gomes.
O seu labor em vida, deu-lhe a passagem para o Roteiro Turístico da sua Macau.
*Docente. A autora escreve sob o novo Acordo Ortográfico que não está oficialmente em vigor em Macau



