Jorge A. H. Rangel*
Jorge A. H. Rangel*

“Uma missa no Cemitério de S. Miguel, precisamente no dia 11 de Julho de 2007, promovido por um conjunto de associações locais e rezada pelo Bispo da Diocese, D. José Lai, marcou o início das celebrações do centenário, ao mesmo tempo que era marcada, para 26 do mesmo mês, a assinatura do protocolo visando a organização e execução do programa comemorativo.”

 

Onze organismos da sociedade civil de Macau firmaram um protocolo de cooperação, em Julho de 2007, para partilharem recursos com vista à preparação e execução de um programa condigno de comemoração do centenário do nascimento de Luís Gonzaga Gomes (11 de Julho de 1907 – 20 de Março de 1976), professor, escritor e historiador macaense, que deu um contributo de excepcional relevância para aproximar as comunidades locais, viabilizar o diálogo cultural luso-chinês, divulgar a história e reforçar a identidade deste território, deixando aos vindouros uma obra da maior importância para a memória de Macau.

Em vários artigos publicados em Macau, desde Setembro de 2004, e em muitas conversas com entidades públicas ou associativas, fomos chamando a atenção para a necessidade de, com alguma urgência, se definirem as entidades a envolver e os meios a disponibilizar. Com bastante antecedência, quisemos também sugerir iniciativas que nos pareceram adequadas e exequíveis, como homenagem justíssima a essa personalidade singular e à sua obra, até porque é sempre bom lembrar que o sucesso da criação da RAEM só foi possível graças à intervenção lúcida e persistente de muitos homens e mulheres que, nas mais diversas circunstâncias e ao longo dos tempos, quiseram e puderam dar o melhor do seu saber e dos seus esforços a Macau. Neste contexto, Luís Gomes ocupou, sem dúvida, um lugar cimeiro na vertente cultural, além de ter desenvolvido uma exemplar actividade cívica.

 

Sugestões e propostas apresentadas

As sugestões e propostas então apresentadas foram, resumidamente, as seguintes: 1. A designação, em momento julgado oportuno, da entidade coordenadora das comemorações, devendo a escolha recair, se possível, num organismo oficial com sensibilidade para entender a importância da efeméride; 2. O convite a outras instituições públicas e a associações locais para se fazerem representar na comissão coordenadora; 3. A publicação da fotobiografia de Luís Gonzaga Gomes por uma entidade pública ou com os necessários meios por ela facultados; 4. A reedição dos seus trabalhos mais relevantes; 5. A divulgação da sua obra nas escolas de Macau; 6. O redimensionamento do prémio escolar que tem o seu nome; 7. A realização de palestras e a publicação de artigos alusivos ao centenário; 8. A obtenção da colaboração da Teledifusão de Macau para divulgar a vida e a obra do escritor; 9. O levantamento e o tratamento do seu espólio; 10. A organização de exposições fotográfica e bibliográfica; 11. A reactivação do Cenáculo Luís Gonzaga Gomes; 12. A organização de uma sessão solene comemorativa e de sessões evocativas nas associações macaenses da diáspora.

O tempo passou depressa e, a poucos dias do centenário (11 de Julho), constatou-se que nenhuma entidade fora designada para dar cunho oficial às comemorações e garantir-lhe a dimensão e a coordenação desejáveis. Ficou, assim, posta à prova a capacidade da sociedade civil para, de forma descentralizada, assumir esta irrecusável responsabilidade, fazendo o que estivesse ao alcance de cada organismo, em conformidade com os respectivos objectivos estatutários.

Quanto às instituições que deviam tomar parte, foram identificadas, desde logo, as seguintes, independentemente de outras que poderiam associar-se: o Instituto Cultural de Macau, o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais, a Universidade de Macau, o Instituto Politécnico de Macau, a Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, a Escola Secundária de Luís Gonzaga Gomes, a Escola Portuguesa de Macau, a Biblioteca Central e o Arquivo de Macau, o Conselho das Comunidades Macaenses, a APIM – Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, a Associação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas de Macau (APOMAC), o Instituto Internacional de Macau (IIM), o IPOR – Instituto Português do Oriente, o Grupo Dóci Papiaçám di Macau, o Círculo dos Amigos da Cultura, o Elos Clube de Macau, a Associação dos Macaenses, o Clube de Macau, o Rotary Clube de Macau, a TDM – Teledifusão de Macau e algumas Fundações ligadas ao território.

Na ausência da entidade “tutelar”, quis o IIM avançar com algumas diligências no sentido de obter a adesão de outros organismos macaenses, incentivando também algumas instituições públicas a uma participação tão alargada quanto possível. Foi animador verificar que começaram logo a tomar forma diversos projectos e acções, como, por exemplo, a “refundação” do Cenáculo Luís Gonzaga Gomes, graças à esclarecida intervenção de Luís Sá Cunha, então membro da Direcção do IIM, que foi o seu entusiástico promotor; uma nova selecção de trabalhos de Luís Gomes anteriormente publicados na imprensa local, para reedição; algumas actividades que a Escola Secundária Luso-Chinesa que ostenta o seu nome pretendia levar a efeito; novos artigos a publicar em jornais; e a inauguração duma sala do IIM com o seu nome, ornada com motivos alusivos à sua vida e obra. Também foi proposta ao Conselho das Comunidades Macaenses a inclusão duma homenagem durante o Encontro das Comunidades marcado para Novembro/Dezembro de 2007. Ficou, assim, garantido que o centenário não ficaria esquecido.

 

Principais actividades realizadas

Uma missa no Cemitério de S. Miguel, precisamente no dia 11 de Julho de 2007, promovida por um conjunto de associações locais e rezada pelo Bispo de Diocese, D. José Lai, marcou o início das celebrações do centenário, ao mesmo tempo que era marcada, para 26 do mesmo mês, a assinatura do protocolo visando a organização e execução do programa comemorativo.

O lançamento do opúsculo “Luís Gonzaga Gomes e o intercâmbio cultural luso-chinês” constituiu um ponto alto do programa dessa sessão, em que a assinatura do protocolo de cooperação vinculou 11 entidades da sociedade civil na organização e promoção dos actos comemorativos do centenário daquele escritor e professor macaense, que se notabilizou também nas áreas da tradução e da gestão e difusão cultural. Edição do Instituto Internacional de Macau (IIM), integrada na colecção “Mosaico”, esta comunicação de Graciete Batalha, proferida em Junho de 1991, na fase inicial do funcionamento do Cenáculo, e pela primeira vez editada, mereceu um acolhimento muito positivo do público, uma vez que identificou os aspectos mais relevantes da obra de Luís Gomes, com especial enfoque no seu elevado contributo para o reforço das relações culturais luso-chinesas.

A adesão entusiástica ao Cenáculo, numa lindíssima sessão levada a efeito no auditório do IIM, foi um estimulante ponto de partida para um plano de actividades consentâneo com a importância destas celebrações e com as expectativas criadas. E o facto de tantas instituições locais terem garantido a sua participação assegurou o sucesso deste projecto. O IIM canalizou para este fim alguns dos apoios recebidos da Fundação Macau para o seu funcionamento, mas os patrocínios de outras entidades foram pouco significativos.

Foi inaugurada no mesmo dia no IIM a Sala Luís Gonzaga Gomes, tendo sido ali reunidos livros, fotografias, objectos e documentos relacionados com o seu ilustre patrono e em Novembro de 2007 saiu do prelo o opúsculo “No Centenário de Luís Gonzaga Gomes – Homenagem ao maior promotor do intercâmbio cultural luso-chinês, que também foi incluído na Colecção Mosaico do IIM. E entretanto, vários órgãos de comunicação social dedicaram amplo espaço às celebrações e diversas sessões comemorativas foram também levadas a efeito em escolas, associações e em Casas de Macau, com especial destaque para uma bonita e bem concorrida sessão na Casa de Macau em Portugal, onde os dois referidos opúsculos foram apresentados e amplamente distribuídos.

 

* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.